Chris Mattson (Patrick Wilson) e Lisa Mattson (Kerry Washington) acabam de se mudar para uma casa na Califórnia quando descobrem que terão problemas com o vizinho. Abel Turner (Samuel L. Jackson), um policial de Los Angeles, desaprova o casamento entre um homem branco e uma mulher negra e passa a incomodar o casal para fazê-lo abandonar o bairro. Em “O Vizinho”, suspense de 2008 dirigido por Neil LaBute, a compra de uma propriedade confortável coloca os recém-chegados ao alcance de um homem acostumado a confundir autoridade com permissão para interferir na vida alheia.
A situação começa com conversas desagradáveis, comentários preconceituosos e uma vigilância que ultrapassa qualquer preocupação razoável com a segurança da rua. Abel observa os novos moradores e deixa transparecer sua hostilidade mesmo quando mantém a aparência de uma conversa cordial. Chris tenta preservar a boa convivência, mas cada encontro oferece ao policial outra oportunidade de provocar. A educação do recém-chegado acaba prolongando um contato que ele logo preferiria dispensar.
Um vizinho com distintivo
Abel é negro, viúvo e cria dois filhos sob regras rígidas. Também patrulha a vizinhança por conta própria, convencido de que cabe a ele preservar a ordem. Para alguns moradores, ter um policial tão atento por perto pode parecer uma vantagem. Para Chris e Lisa, significa conviver com alguém que acompanha seus hábitos e considera o casamento dos dois um assunto aberto a comentários.
Samuel L. Jackson é o principal motivo para acompanhar essa convivência desagradável. O ator dá ao personagem uma simpatia calculada, daquelas que obrigam o interlocutor a esperar alguns segundos antes de decidir se acabou de receber uma ofensa. Abel faz perguntas, sorri e sustenta o olhar. Quando Chris tenta reagir, ele já dispõe de uma justificativa para tratar o desconforto do vizinho como exagero.
Essa atuação dá peso às primeiras conversas porque Abel sabe tornar uma reclamação constrangedora para quem reclama. O policial fala com a segurança de quem está habituado a ser ouvido e raramente considera a possibilidade de estar errado. Dentro de casa, exige obediência dos filhos. Do lado de fora, espera encontrar a mesma disposição entre adultos que nada lhe devem.
A casa perde a privacidade
A hostilidade ganha uma forma bastante concreta quando os refletores da propriedade de Abel atingem o quarto dos Mattson e atrapalham o sono. Chris pede um ajuste na iluminação, mas o vizinho apresenta motivos para manter tudo como está. Um problema que poderia ser resolvido em poucos minutos passa a ocupar noites e conversas do casal.
LaBute aproveita bem esse tipo de incômodo. Quem já precisou pedir a alguém que abaixasse o som ou retirasse um carro da garagem reconhece o desgaste de depender da boa vontade alheia. Aqui, a situação é mais grave porque Abel tem prazer em prolongá-la. Chris pode fechar a porta depois de uma discussão, mas a luz continua entrando pela janela.
Um momento íntimo de Chris e Lisa na piscina, presenciado pelos filhos do policial, fornece outro pretexto para as cobranças. Abel assume a postura de pai ofendido e passa a interferir no comportamento dos moradores da casa ao lado. A desaprovação racial se mistura ao moralismo, deixando o casal sem liberdade até no próprio quintal.
O suspense rende mais nessas situações domésticas do que nas passagens de maior agressividade. A cerca permite que os moradores se vejam, as janelas expõem a intimidade e os pedidos de sossego exigem novos encontros. A proximidade entre as casas obriga Chris e Lisa a manter contato com alguém de quem gostariam de se afastar.
O desgaste chega ao casamento
Patrick Wilson interpreta Chris com uma combinação convincente de polidez e orgulho ferido. A princípio, ele procura ser agradável e acredita que conseguirá contornar os atritos. Conforme Abel insiste, porém, sua preocupação passa a incluir a necessidade de provar que ninguém o expulsará da propriedade. Permanecer ali também vira uma questão de orgulho.
Quando Chris instala uma luz voltada para o quarto do policial, a resposta oferece uma satisfação passageira, mas acrescenta outra provocação à disputa. O gesto revela quanto Abel já interfere nas escolhas do vizinho. Em vez de aproveitar a casa nova, Chris passa a dedicar tempo e dinheiro a uma retaliação que mantém os dois envolvidos.
Lisa precisa conviver tanto com o preconceito de Abel quanto com a irritação crescente do marido. Kerry Washington dá firmeza à personagem, embora receba menos espaço do que o embate entre os homens. É uma limitação importante do roteiro. Lisa é alvo da hostilidade e tem sua própria experiência racial, mas boa parte das discussões privilegia a reação de Chris.
As divergências entre marido e mulher acrescentam um desgaste reconhecível à história. Eles querem preservar a vida que escolheram, mas discordam sobre a melhor maneira de enfrentar o vizinho. Cada conversa sobre a casa corre o risco de terminar em uma discussão sobre o comportamento de um dos dois.
A proteção fica em dúvida
A profissão de Abel torna a situação especialmente incômoda. Chris e Lisa precisam considerar a possibilidade de pedir ajuda à polícia contra um integrante da própria corporação. O homem que deveria oferecer segurança conhece os procedimentos, tem experiência em impor sua presença e sabe sustentar uma versão dos acontecimentos. Para o casal, suspeitar dele e conseguir demonstrar o que está acontecendo são problemas distintos.
LaBute perde parte da sutileza quando aumenta a agressividade e aproxima a história de fórmulas conhecidas do gênero. As conversas desconfortáveis, nas quais uma ameaça pode vir disfarçada de conselho, são mais interessantes do que a escalada das provocações. Jackson sustenta essas passagens com uma atuação que preserva a arrogância do policial mesmo quando sua cordialidade começa a desaparecer.
“O Vizinho” mostra o esforço de duas pessoas para continuar morando onde escolheram. A casa permanece confortável, mas o descanso depende de um homem que acompanha seus movimentos e desaprova sua união. Depois de cada tentativa de resolver o problema, Chris e Lisa voltam para dentro, fecham a porta e ainda precisam lidar com Abel do outro lado da cerca.

