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“Ali pelo oitavo chope, chegamos à conclusão de que todos os problemas eram insolúveis.”

Esse é um dos meus inícios favoritos da literatura brasileira. E não sou exatamente uma exceção. A abertura de “O Amanuense Belmiro” aparece com frequência em listas dos grandes começos da literatura brasileira. Era véspera de Natal. Belmiro Borba estava bebendo com os amigos quando, depois de oito chopes, eles chegaram àquela conclusão pouco animadora. Florêncio ainda sugeriu mais um. Quem sabe o nono chope não trouxesse a solução que os oito anteriores não haviam encontrado?

Cyro dos Anjos começa assim. Sem nascimento, sem descrição do personagem, sem explicar Belo Horizonte e sem avisar ao leitor que está apresentando um homem melancólico. Primeiro vêm os amigos. Depois, o chope. Os problemas podem esperar um pouco. Naquele Natal de 1934, Belmiro tinha 37 anos. Morava na Rua Erê, no bairro Prado, em Belo Horizonte, com as irmãs Emília e Francisquinha. Trabalhava como amanuense na Seção de Fomento Animal. O nome da profissão hoje soa quase tão antigo quanto alguns dos papéis que Belmiro provavelmente copiava. Era funcionário público, um escrevente. Tinha vindo de Vila Caraíbas, onde os Borbas pertenciam a um mundo rural que já começava a desaparecer.

Vila Caraíbas continuava, porém, na cabeça de Belmiro. Era sobre ela que pretendia escrever quando começou seu caderno. O projeto não ficou muito tempo sozinho. Veio o Carnaval de 1935. No meio da multidão, Belmiro encontrou Carmélia Miranda. A moça que apareceu diante dele logo começou a se misturar com outra mulher, esta inventada havia muito tempo, Arabela. Carmélia estava diante dele. Arabela já existia antes, mas apenas na imaginação. E havia Camila, a moça de Vila Caraíbas. Belmiro não precisava escolher entre as três. Na memória, elas podiam andar juntas.

Carmélia seguiria a vida dela. Belmiro, a dele, se é que se pode dizer assim. O amor cresceu justamente na distância. Quanto menos havia entre os dois, mais espaço sobrava para Arabela. Carmélia acabou se casando. Belmiro chegou a ir ao Rio de Janeiro quando ela partiu em viagem de núpcias. Voltou para Belo Horizonte. A mulher continuava existindo, naturalmente. Mas a história que ele havia construído em torno dela começava e terminava quase toda dentro dele.

Belmiro gostava de gente. Isso ajuda a entender por que os amigos ocupam tanto espaço no caderno. Eles discutem, se afastam, voltam. Nem sempre gostam uns dos outros. Belmiro gosta deles assim mesmo. Entre esses amigos estava Redelvim, que também escrevia um diário.

Belmiro Borba já existia antes do romance. Entre 1933 e 1935, Cyro dos Anjos assinou com esse nome crônicas em jornais de Belo Horizonte, primeiro em “A Tribuna” e depois no “Estado de Minas”. O pseudônimo foi ganhando vida própria. Em 1937, virou personagem de livro.

Cyro nasceu em Montes Claros, em 1906. Era o décimo terceiro de quatorze filhos. No fim de 1923, foi para Belo Horizonte estudar e, alguns anos depois, entrou no curso de Direito. Trabalhou em jornal e no serviço público enquanto ainda era estudante. Formou-se em 1932. Tentou advogar em Montes Claros, mas a experiência durou pouco. Voltou para Belo Horizonte e continuou entre a imprensa e o serviço público.

Em agosto de 1936, antes de o romance ficar pronto, Carlos Drummond de Andrade já acompanhava o projeto e insistia para que Cyro concluísse o livro. Achava que o amigo estava encontrando uma direção diferente na literatura brasileira daquele momento. No ano seguinte, Cyro mandou os originais para Drummond. Queria uma opinião do amigo e esperava chegar à José Olympio. A primeira edição acabou saindo em Belo Horizonte, pela Sociedade Editora Amigos do Livro. Foram 1.500 exemplares. Em 1938, “O Amanuense Belmiro” já estava sendo publicado pela José Olympio.

O livro tem 94 partes. Cada uma delas é numerada com o sinal §. A estreia não passou despercebida. Ana Paula Nobile Brandileone localizou 46 textos publicados na imprensa brasileira sobre “O Amanuense Belmiro” ainda em 1937. Era o primeiro romance de Cyro. Os críticos já discutiam naquele ano se estavam diante de um diário, de um romance psicológico ou de alguma coisa que não cabia muito bem nessas divisões.

Um ano antes, Graciliano Ramos havia publicado “Angústia”. Luís da Silva também vinha de uma família rural em decadência e acabara funcionário público numa cidade. A semelhança praticamente termina aí. Luís da Silva vai acumulando humilhação e ressentimento até o crime. Belmiro bebe chope e escreve.

Há outro livro que parece inevitável nessa conversa, embora tenha sido publicado 23 anos depois, “A Trégua”, de Mario Benedetti. Benedetti publicou o romance em 1960. Martín Santomé tem 49 anos, é viúvo, pai de três filhos e trabalha num escritório em Montevidéu. No começo do diário, faltam seis meses e 28 dias para que possa se aposentar. Laura Avellaneda chega depois.

Avellaneda trabalha no mesmo escritório. Santomé se apaixona por ela. Os dois se tornam amantes. Avellaneda morre. Santomé volta à vida que levava antes dela. O título do romance está aí. Aquele amor havia sido uma trégua.

O segundo romance de Cyro saiu em 1945. “Abdias” também é escrito como diário. Desta vez, o narrador é um professor de literatura, casado, que se apaixona por uma aluna. “Montanha”, o terceiro romance, saiu em 1956. Depois dele, Cyro não publicou outro romance. Vieram as memórias, os poemas e outros textos. A ficção longa ficou nesses três livros.

Antonio Candido chamou Belmiro de “burocrata lírico”. A expressão apareceu em “Estratégia”, ensaio depois reunido em “Brigada Ligeira”, de 1945. Roberto Schwarz foi menos simpático com Belmiro. No ensaio “Sobre O Amanuense Belmiro”, chamou de “estética da acomodação” aquilo que via no personagem e no romance.

Schwarz não estava simplesmente dizendo que Belmiro era acomodado. O problema era maior. As contradições aparecem, mas Belmiro encontra um jeito de conviver com elas. Redelvim e Silviano podem discutir política. Belmiro prefere continuar amigo dos dois. João Luiz Lafetá foi por outro caminho. Em “À Sombra das Moças em Flor”, aproximou Belmiro do que Georg Lukács chamou de “romantismo da desilusão”. Belmiro é mais dado a contemplar a vida do que a agir sobre ela.

Machado de Assis acompanhou o livro desde as primeiras críticas. Cyro entrou nessa conversa. Em entrevista de 1949, disse que não via “O Amanuense Belmiro” sob o meridiano de Machado. As aproximações, para ele, eram principalmente de forma. Havia uma diferença que considerava difícil de ignorar. Seu romance era sentimental.

“O Amanuense Belmiro” apareceu numa década em que se falava muito em romance social e romance psicológico. Belmiro parecia pertencer facilmente ao segundo grupo. Só que a política não ficou do lado de fora do caderno. Há ainda outro problema com o caderno. Belmiro começou querendo escrever sobre Vila Caraíbas. Queria memória. Carmélia apareceu e o presente começou a entrar nas páginas. O livro foi mudando enquanto ele escrevia.

Em novembro de 1935, a política deixou de ser apenas assunto das conversas. Redelvim foi preso. Ficou vinte dias na cadeia. Belmiro também foi parar na polícia quando tentou ajudar o amigo. Durante a investigação, seus cadernos foram parar nas mãos do delegado. O diário acabou sendo lido ali. Aquilo que Belmiro escrevia para entender a própria vida serviu, naquele momento, para explicar quem ele era.

Há muita melancolia em “O Amanuense Belmiro”, mas há também graça. É que Cyro permite ao personagem desconfiar de si mesmo. Belo Horizonte aparece nessa vida todos os dias. Belmiro mora na Rua Erê, trabalha na repartição, encontra os amigos, anda pela cidade. Vila Caraíbas está longe. Nem por isso foi embora.

A palavra amanuense envelheceu. Belmiro, menos. Troque-se a repartição, talvez o nome da profissão, e sobra um homem que adia e procrastina. Carmélia ajuda a perceber isso. O romance de amor quase não acontece, mas ocupa boa parte do livro. Carmélia não precisa fazer muito. Belmiro faz por ela. A moça segue vivendo enquanto ele acrescenta Arabela, Camila e tudo aquilo que já trazia consigo antes de encontrá-la.

No fim do romance, os amigos já não estão reunidos como naquela véspera de Natal. Carmélia seguiu seu caminho. Belmiro continua na Rua Erê e pergunta a Carolino o que eles farão.

A pergunta fica sem resposta. Cyro começou o livro com oito chopes e problemas insolúveis. Pouco mais de um ano depois, Belmiro ainda tinha uma pergunta.

Capa de O Amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos
O Amanuense Belmiro
§ 1. Merry Christmas!

Ali pelo oitavo chope, chegamos à conclusão de que todos os problemas eram insolúveis. Florêncio propôs, então, o nono, argumentando que esse talvez trouxesse uma solução geral.

Éramos quatro ou cinco, em torno de pequena mesa de ferro, no bar do Parque. Alegre véspera de Natal! As mulatas iam e vinham, com requebros, sorrindo dengosamente para os soldados do Regimento de Cavalaria. No caramanchão, outras dançavam maxixe com pretos reforçados, enquanto um cabra gordo, de melenas, fazia a vitrola funcionar.

O proletariado negro se expandia, comemorando o Natal. Satisfeito, o alemão do bar se multiplicava em chopes, expedindo, para aqui e para ali, garçons urgentes.

— A solução é a conduta católica, afirmou o amigo Silviano, meio vago, como que atendendo a uma ordem interior de reflexões, que não era bem a de nossa conversação.

Redelvim convidou-me, com um olhar malicioso, a prestar atenção ao filósofo.

— Hein? indaguei, voltando-me para este.

— A conduta católica! Isto é, fugir da vida, no que ela tem de excitante; continuou, como que a falar para si mesmo. — Jerônimo anda mergulhado na teologia. É a solução. Sublimou-se nos doutores.

Só pelo gosto de vê-lo dissertar, objetei-lhe que, nesse caso, não haveria solução. O que haveria é supressão da vida. Sem perceber que eu apenas puxava a língua ao Silviano e supondo contar com o meu apoio, o jovem Glicério ousou enfrentá-lo. Imprudentemente apanhou a minha deixa e entrou em cena com entusiasmo, dizendo que o católico destrói a vida pelo modo mais violento. Introduz, em nosso cotidiano, a preocupação da vida eterna, sacrificando, a esta, aquela.

Silviano olhou-o da cabeça aos pés. Glicério é novo na roda, e nosso amigo não lhe permite tais intimidades.

— Não discuto com menores, disse majestosamente.

E, voltando-se para mim:

— Você não sabe o que está dizendo, mas, ainda que fosse uma supressão, por que não havíamos de realizá-la para encontrar tranqüilidade? A grande estupidez é vivermos num conflito constante. Já que não se possui a vida com plenitude, o melhor é renunciar, de vez.

Cyro dos Anjos O Amanuense Belmiro, § 1
Carlos Willian Leite

Carlos Willian Leite é poeta, jornalista e editor, fundador da Revista Bula e da Bula Livros. Escreve sobre literatura, cinema, streaming e vinhos.

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