Amores verdadeiros também podem acabar, mas deixam recordações, e ainda assim há quem queira desfazer-se delas, como se amar fosse só uma distração. Isso é coisa de gente imatura, que não só não tem a menor ideia do que é o amor como também não o merece. Maya Anderson, a personagem central do ótimo “O Amor de Sua Vida”, vive como quem sonha, um sonho ruim, um pesadelo, e a culpa é dela. Em seu atilado segundo longa, Rachel Morrison vai fundo nas contradições do mais humano e nobre dos sentimentos, acompanhando por uma década o infortúnio de sua anti-heroína num mar proceloso — ela nunca fica à margem, mesmo se parece congelada pelo desalento.
Caso do acaso
Aos 26 anos, Maya é uma mulher independente, de espírito livre e um tanto viciada em trabalho que não pensa em mudar nada em sua rotina. Ela sai com amigos, vai a festas, bebe, passa a noite na casa de estranhos e no dia seguinte está nova em folha, até que aparece Charlie, anunciando a escrivaninha de que precisava. Ela vai até a casa dele, os dois conversam amenidades, ele conta que é doutorando, dedica-se a pesquisar a síntese de áudio, enquanto ela não precisa dizer que é enfermeira, porque está de uniforme. Caudaloso, o roteiro de Julia Cox vai devassando a vida dos dois, até que entende-se que eles têm um futuro.
Canção do Exílio
O futuro chega, e às vezes não é para sempre. A pandemia de covid-19 obriga Maya a passar mais tempo no pronto-socorro de Boston onde trabalha do que com Charlie, agora seu marido, e quando ela volta, leva o inimigo no corpo, particularmente cruel para um asmático. Margaret Qualley e Gabriel Basso vão das sequências entre românticas e pueris do primeiro ato — com direito a um casório que surpreende a família do noivo — ao incômodo take em que Maya vê Charlie agonizar e morrer a distância de uma chamada de vídeo, proibida de vê-lo, por imposição do protocolo hospitalar.
Três anos mais tarde, ela radicou-se em Lisboa, meio fugida de Ruth, a mãe do marido, e de Jason, o melhor amigo e ex-namorado, e aí Morrison dá uma guinada para o lado verdadeiramente obscuro de Maya.
Superar é viver
Renunciando a tudo, ela almeja a felicidade, mas é tão ingênua que não sabe que pode-se renunciar ao que quer que seja, desde que não se queira nada, muito menos a rara felicidade. “Diz Que Fui Por Aí” (1964), o samba bossa-novista de Zé Keti (1921-1999) que ela escuta com Charlie na voz de Nara Leão (1942-1989) fornece ao público alguma ideia sobre o que se pode esperar dessa trânsfuga tresloucada, mas a saudade não se afasta dela, ela não é popular e nem sequer tem um violão. Entre muitos copos de vinho, ela volta aos 26, retoma os romances de uma noite só e conhece Felix, um engenheiro londrino com um histórico de traumas e perdas que rivaliza com o seu. Torce-se pelo casal, mas o jeito como Maya digere o reencontro inesperado com Jason deixa claro que a moça tem mesmo uma vocação para a tristeza mais avassaladora. Aaron Pierre e Patrick Schwarzenegger terminam por roubar a cena num duelo silencioso pelo passado e o presente da garota, e tem o acerto de contas entre Maya e Ruth, de uma Catherine Keener cada vez mais intensa. Os cuidados com filigranas técnicas feito a edição de Jennifer Vecchiarello ou a trilha sonora de Dustin O’Halloran lembram a indicação de Morrison ao Oscar de Melhor Fotografia por “Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississípi” (2017), de Dee Rees. “O Amor de Sua Vida” prova que ela também é uma contadora de histórias das melhores.

