Morreu ontem, de bala acertada, deixando todos os que o amavam consternados, enlutados, atônitos. Bala acertada por um miliciano, talvez travestido de político. Enlutados ainda porque ligeiramente culpados — omissão também é confissão de culpa?
Morreu ontem, de maldição do Antigo Testamento. Todos ao redor dizem amém e decretam que agora o baldio terreno restante pertence a alguma entidade sacra, seja ela da sua própria fé, seja da fé de algum aliado de outra bandeira, mas valores similares. Morreu de teocracia fundamentalista.
Morreu ontem, de aditivos químicos utilizados à guisa de fertilizantes, venenos contra pragas, conservantes em alimentos ultraprocessados, saborizantes em refrigerante diet. Cancerígenos. Carrascos da saúde e sequestradores de bem-estar climático. Daqueles que rompem divisas e fazem avançar as fronteiras do agro. O agro é pop. O agro é cool. Dizem.
Morreu ontem, de raiva — da raiva dos demais, da raiva daqueles que não suportavam ver direitos humanos sendo garantidos e direitos sociais sendo conquistados. Daqueles que preferiam a suserania e a vassalagem, nesta ordem, a velha ordem mundial.
De negacionismo, de terraplanismo, de não aceitação das vacinas, morreu ontem. Somou-se à memória dos 700 e tantos mil que haviam sido vítimas da covid em tempos de caos sanitário e deboches porque nem todo mundo é coveiro. Até o sarampo está voltando. Vermelho como o fantasma do comunismo.
Morreu ontem, de causas naturais — heterocisnormativas, misóginas, machistas e tóxicas —, como se o kit gay houvesse sido eliminado, mas, para isso, tivesse sido alguma vez implantado também. Causas naturais tantas quanto a família tradicional brasileira, fantasiada de comercial de margarina e festejando que bandido bom é bandido morto.
Aliás, morreu ontem, porque era preto, pobre, maltrapilho. Foi chamado de criminoso, mas ninguém pensou se aquele dinheiro era para suprir a necessidade de um prato de comida para a família. Morreu ontem. Bandido bom é bandido morto. Dizem.
Morreu ontem de seleção brasileira, camisa amarela cantando o hino, outros 7 a 1 contra neymares e afins chorando em um círculo de oração.
Morreu ontem, em local indeterminado porque onipresente, de causas artificiais. Órfãos, 214 milhões, um pouco mais. Alguns até se perguntam: como é que pode, assim, de repente, morrer um país? Os outros, a grande maioria, seguem a vida.

