“Sobrenatural: A Porta Vermelha” tenta encerrar uma das franquias de terror mais populares das últimas décadas apostando menos nos sustos e mais nas feridas emocionais que a família Lambert carrega desde o primeiro filme. Lançado em 2023 e dirigido por Patrick Wilson, que também retorna ao papel de Josh Lambert, o longa reencontra personagens conhecidos quase dez anos depois dos eventos de “Sobrenatural: Capítulo 2”. Agora, o foco está na relação desgastada entre pai e filho e nos fantasmas, literais e figurados, que continuam rondando os dois.
Quando a história começa, Dalton Lambert (Ty Simpkins) está deixando a casa da família para iniciar a vida universitária. O momento deveria representar independência, amadurecimento e novas experiências. O problema é que Dalton chega ao campus carregando uma sensação constante de vazio. Sua relação com Josh se tornou fria ao longo dos anos e nenhum dos dois consegue explicar exatamente por quê. Existe um incômodo permanente entre eles, uma distância que parece ter sido construída por acontecimentos esquecidos.
Ao mesmo tempo, Josh enfrenta seus próprios problemas. Separado de Renai (Rose Byrne) e emocionalmente abalado após a morte da mãe, ele tenta manter uma rotina normal enquanto lida com lapsos de memória, estranhas sensações de presença e uma crescente dificuldade para se conectar com o filho. A família parece ter sobrevivido aos eventos sobrenaturais do passado, mas a verdade é que apenas empurrou aquelas experiências para algum canto da mente.
Uma porta que nunca foi fechada
O filme gira em torno justamente desse esquecimento. Anos antes, Josh e Dalton tiveram suas memórias apagadas para impedir qualquer ligação com o Além, a dimensão sombria conhecida pelos fãs da franquia como The Further. A medida funcionou por um tempo. O problema é que aquilo que foi enterrado começa a reaparecer.
Na universidade, Dalton se matricula em uma aula de artes. Durante um exercício aparentemente comum, ele começa a desenhar imagens perturbadoras sem compreender sua origem. Os traços revelam figuras assustadoras, corredores escuros e elementos ligados aos acontecimentos dos filmes anteriores. Cada desenho funciona como uma pequena rachadura na barreira que mantinha aquelas lembranças escondidas.
Enquanto isso, Josh passa a ser perseguido por aparições cada vez mais frequentes. Algumas delas surgem em momentos cotidianos, transformando situações banais em experiências inquietantes. O que parecia ser apenas estresse ou luto ganha contornos muito mais ameaçadores.
O peso das memórias esquecidas
Um dos aspectos mais interessantes de “Sobrenatural: A Porta Vermelha” é como o roteiro aproxima trauma e sobrenatural. Os personagens não estão apenas fugindo de espíritos. Eles também tentam lidar com lembranças que nunca foram realmente processadas.
Dalton acredita que o afastamento do pai nasceu de abandono e falta de interesse. Josh, por sua vez, sente que perdeu o controle da própria vida sem saber exatamente quando isso aconteceu. Os dois observam a mesma história por ângulos diferentes e acabam presos a ressentimentos que cresceram durante anos.
Essa camada emocional traz uma dimensão mais humana do que a encontrada em alguns capítulos anteriores da série. Os sustos continuam presentes, mas existe uma preocupação maior em mostrar como aquelas experiências deixaram marcas permanentes na família.
Patrick Wilson demonstra familiaridade com esse universo ao privilegiar momentos de convivência e tensão emocional. Em vários trechos, o medo surge menos da presença de fantasmas e mais da incapacidade dos personagens de conversar honestamente sobre o que sentem.
O retorno ao Além
À medida que as lembranças retornam, Dalton percebe que existe apenas uma maneira de descobrir a verdade. Ele precisa voltar ao Além.
Esse mergulho representa o núcleo da narrativa. O lugar continua sendo um espaço perturbador, habitado por entidades hostis e figuras conhecidas pelos admiradores da franquia. A diferença é que agora o objetivo não está ligado apenas à sobrevivência. Dalton busca respostas sobre si mesmo, sobre sua família e sobre acontecimentos que permanecem incompletos desde a infância.
Josh também acaba sendo puxado novamente para esse universo. O reencontro com antigas ameaças obriga o personagem a enfrentar medos que acreditava ter deixado para trás. A cada nova descoberta, pai e filho ficam mais próximos de compreender o que realmente aconteceu com eles.
O filme cria algumas imagens interessantes nesse percurso. Corredores silenciosos, portas escondidas e ambientes mergulhados na escuridão reforçam a sensação de que qualquer lembrança esquecida pode esconder algo perigoso.
Mais drama do que terror
Quem espera a intensidade dos primeiros filmes talvez saia da sessão com sentimentos mistos. “Sobrenatural: A Porta Vermelha” funciona melhor quando investe na história da família Lambert do que quando tenta competir com os momentos mais assustadores da franquia.
Isso não significa que o terror desapareça. Existem sequências eficientes e algumas aparições conseguem provocar desconforto genuíno. Ainda assim, a prioridade está na despedida desses personagens.
Ty Simpkins entrega uma atuação segura ao retratar um jovem dividido entre o desejo de seguir em frente e a necessidade de compreender o passado. Patrick Wilson também encontra bons momentos interpretando um homem consumido pela culpa e pela sensação constante de que algo importante lhe foi arrancado.
Rose Byrne aparece menos do que muitos espectadores gostariam, mas sua presença continua importante para manter a ligação emocional com os capítulos anteriores.
Uma despedida marcada pela nostalgia
“Sobrenatural: A Porta Vermelha” dá um encerramento coerente para personagens que acompanham o público há mais de uma década.
A produção aposta na memória como elemento central da narrativa e transforma lembranças esquecidas em combustível para o suspense. Em vez de apresentar uma ameaça totalmente nova, prefere revisitar feridas antigas e mostrar que alguns fantasmas permanecem à espera do momento certo para voltar.
Para os fãs da franquia, a experiência funciona como um reencontro com velhos conhecidos. Para quem busca apenas uma sessão de terror, talvez faltem momentos realmente memoráveis. Ainda assim, existe algo sincero na forma como o filme procura concluir a história da família Lambert, encerrando um ciclo que começou em 2010 e que sempre teve menos relação com espíritos malignos do que com pais e filhos tentando encontrar um caminho de volta um para o outro.

