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Não sei, só sei que foi assim. Era uma santa de mentira, uma falsidade só, pau oco mesmo. Mas encarnou a compadecida das mazelas todas e veio para o debate. Como se vestir o manto fosse envergar a bandeira com o sofrimento todo do nosso povo, meu amigo João Grilo.

Aqui quem escreve é Chicó e você sabe muito bem que não sei, só sei que foi assim. A fé que temos na compadecida é tamanha que ela pode vir toda fake mesmo, história mal contada, pau oco louco na beira sem eira. Não sou bobo, não. Sou muito mais contador de lorota do que acreditador de lorota — e quem me inventou foi o falecido Suassuna, rogai por nós.

Mas na santa eu acredito. Porque eu sei que tem problema de tudo que é lado, política tá que tá uma sujeira. Tá que tá, não, né, João Grilo? Sempre foi. Semprinha. Semprícima. Mas o que não dá é para fechar os olhos se qualquer santa vier com a promessa de salvar a democracia. Foi isso que disseram, João.

Que ela viria, que era urgente, que só ela podia nos salvar.

Não sei quem foi que descobriu a santa. Hoje em dia, na tal internet, tem tudo. Eu só sei que não fui, que meu celular tá aqui com os gigabytes contadinhos, pacote pré-pago no limite do cartão. Só sei que tá assim. Quem primeiro botou a fotografia da compadecida fake na internet, sei não também.

Sei que, de repente, estava em toda parte: grupo da família, zap da firma, viralizando, que se diz, até nos grupos que não são nem de trabalho nem de parente e a gente nem sabe como foi parar lá. Toda aparecida ela, manto azul-marinho, olhar piedoso, frase de consolação e esperança: se tem ameaça, confia.

Confiar em quem a essa altura, meu amigo João? Em quem? Em quê?

Tinha gente já canonizando a santa outra vez, tinha gente pagando promessa. Compadecida ou não, se afeta pesquisa, as pessoas já vão acendendo um maço de vela. É a santa da urna, a santa da cédula, a santa do voto eletrônico. Eita, João Grilo, eu não esperava uma dessas, não sei como aconteceu, como acontecem essas coisas. Só sei que foi assim.

Eu não acredito em mentira que não fui eu que inventei. Também faz tempo que perdi a fé em milagre. Mas, se é a compadecida outra vez, João, você sabe que eu não resisto às bondades dela, né?

É a santinha da democracia e o povo todo dizendo amém.

Edison Veiga

Edison Veiga é escritor e jornalista e vive em Bled, na Eslovênia, desde 2018. Publicou oito livros, entre eles ‘Titereiro’ e ‘O Menino que Sabia Colecionar’.

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