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Os poetas da Grécia pré-helênica eram chamados também de vates, termo que, além de significar poeta, significa vidente, aquele que prediz, profeta. Ou seja: previam o futuro. E é menos difícil do que parece, pois que os que se propõem à tarefa tentam manter alta sensibilidade aos fenômenos do mundo real e, assim como na matemática são precisos apenas dois pontos num plano para descrever uma tendência linear, conhecendo um pouco de história e um pouco de presente, dá para estimar um futuro com alguma precisão.

O “Graça Infinita” faz isso muito bem, nos anos 1990, quando imagina o entretenimento com total autonomia da escolha do espectador, como é hoje com os streamings, ou como seriam os serviços de entrega de mercado. Mas não é sobre antecipar o futuro que eu gostaria de falar. É sobre antecipar o passado sem querer.

A principal característica do “Graça” é sua hiper-honestidade, a transcendência da ironia, colocando elementos tão deliberados, excessivos e despropositais que geraram até o problema social da virulência da pós-verdade. Cito o exemplo da nota de rodapé número 145, que explica a metamorfose no estilo cinematográfico do personagem Cegonha Demente/Sipróprio/Incandenza sr.:

David Foster Wallace
David Foster Wallace

Depois do fracasso de crítica dos seus primeiros filmes de retroguarda, ele funda uma nova escola artística ultrarrealista chamada de “Drama Achado”, que consiste em segurar uma página de lista telefônica (isso é tão anos 90) na parede e jogar um dardo do outro lado da sala para acertar um nome aleatório, para daí especular o que aquele fortuito cidadão estaria fazendo (provavelmente as coisas mais banais, como ir ao mercado ou trocar uma lâmpada) sem gravar nada, sem nem investigar de fato o que aquele predestinado de fato estava fazendo. Rola um burburinho entre os artistas; o assunto surge em vernissages; por se tratar de um conceito inovador, o criador acaba por ganhar algumas bolsas de incentivo financeiro. E mas, sem nenhum registro material da obra, os concessores pedem que ele devolva o dinheiro, coisa que ele não faz, até porque já o tinha distribuído entre outros artistas mais jovens.

De uma perspectiva modernista, é uma puta crítica social foda, já que essa prática mais pesada para o conceitual se assemelha bastante à irritância da arte pós-moderna, da qual se convencionou que um dos embriões seja o ready-made, lá com o Duchamp e sua “Fonte”. E mas, do ponto de vista pós-moderno, que já está mais preparado para assimilar essa loucura “só para iniciados”, David Foster Wallace teria tido uma grande ideia. O conceito é, no mínimo, interessante: brinca com o hipotético e a impermanência, como a arte do alemão Joseph Beuys dos anos 60, necessária e fugidia por utilizar material perecível nas instalações, ou a daquele artista mascarado que grafitava com uma caneta laser e que, quando não era filmado, não deixava vestígios de sua presença.

E mas não estamos na modernidade nem na pós-modernidade. O que alguns críticos enxergaram no “Graça” como ponto fulcral da mudança para a metamodernidade é seu ato tão deliberado que torna indiferente escolher uma das duas interpretações anteriores: as duas ocupam o mesmo espaço hierárquico no campo das possibilidades. Tanto faz. Um aperto de mãos com o devir heideggeriano. Acontece que a crítica que percebeu essa sutileza chegou alguns séculos atrasada.

O grande responsável por redescobrir Machado de Assis como o maior que temos, Roberto Schwarz, teve uma sacada genial sobre um capítulo esquisito entre tantos capítulos esquisitos do “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. O capítulo LXXII/72 é, como um todo, uma das quebras na linearidade da narrativa, uma reflexão metalinguística sobre um suposto capítulo anterior do livro que o narrador Brás Cubas estava considerando suprimir. E surge o personagem hipotético do bibliômano, que procuraria nesse capítulo, cuja presença no livro ainda está indecidida, procurando exatamente o motivo da dúvida sobre a supressão: “[…] uma frase muito parecida com um despropósito, e eu não quero dar pasto à crítica do futuro”. Esse personagem é descrito de maneira pejorativa, talvez para incutir no leitor a vontade de se sentir mais capaz que esse “sujeito magro, amarelo, grisalho, [sic] que não ama nenhuma outra cousa além dos livros”, e voltar aonde já havia lido para procurar com mais êxito — ou não — a frase despropositada, excessiva, deliberada, se ainda está lá.

Schwarz sugere destacar do capítulo anterior o que ele chama de enigma difícil, referente ao trecho “folhas misérrimas do meu cipreste, heis de cair, como quaisquer outras belas e vistosas”, que poderia ser encarado como um despropósito do capítulo LXXI, posto que o cipreste tem a copa perene, não se desfolha, e suas folhas nem parecem folhas, já que sua venação é rudimentar, sendo escamiformes (Roberto confunde cipreste com pinheiro e com suas folhas aciculares). Contudo, Machado deixa pistas de que tem consciência disso, enfatizando “como quaisquer outras belas e vistosas” como se houvesse a preposição “até” antes das “folhas misérrimas”, chegando à solução metafórica de que nada é para sempre: as folhas dos ciprestes de cemitério que perduram além do defunto autor e as folhas do livro que resistem ao mesmo hão de cair.

Se essa parte não configura despropósito, no XCVIII há nova ameaça de supressão de capítulo e, dessa vez, se não o suprime, não o termina. Quando está para começar, decide: “[…] não; definitivamente suprimo este capítulo”. Essa autorreferência seria muito pós-moderna; essa luta do autor/narrador com o livro teria antecipado o clima de fim do século 20/começo do século 21, se não fossem apenas gracejos muito sérios.

Com 44 anos, Machado começa seus estudos da língua alemã, mas desde antes já conhecia Goethe, cujo humor de pH baixo impingido no personagem Mefistófeles (que não era nada aristofânico na lenda original) parece ter influenciado demais o Bruxo do Cosme Velho. Porém, seria fácil demais associar a “Graça Infinita” e ao despropósito machadiano o que Mme. de Staël chamou de “ironia infernal” no Mefisto da segunda parte do “Fausto”, compará-la aos “eus líricos” propositadamente lascivos e capciosos dos elegíacos romanos como Propércio. Então fui buscar quando Goethe ficou, não simplesmente intuitivamente, mas consolidadamente, pós-irônico.

Com 65 anos, Goethe começa seus estudos da língua árabe; ele já conhecia alguns poetas persas, só que foi nesse período que ele mergulha de vez na cultura oriental, o que culmina na produção do “Divã Ocidento-Oriental”, aos 70. O principal poeta que o inspira é Hafez, que não é um nome, mas um epíteto, um título honorífico dado a quem decora o “Corão”. Agora imagine que, numa cultura em que grande parte das pessoas decora o livro, escolheram este poeta para o chamarem assim, de modo que seu verdadeiro nome passasse a ser mera curiosidade, já que, ao falar de Hafez, todos sabem a quem se referem. Ironicamente, essa é a referência menos dogmática a que recorrer, não só entre as dos poetas orientais, mas entre todas. Isso porque, enquanto professor, Hafez até pode ter levado a sério o que ensinou sobre teologia e gramática, mas seus poemas preservam ceticismo até sobre o que ele teria decorado no “Corão”. Por exemplo: a despeito de o “Corão” desaconselhar qualquer substância que cause intoxicação, Hafez enaltece a embriaguez de vinho como “consciência cósmica”. Essa postura o teria colocado em maus lençóis com as autoridades cambiantes da época, no século 14. Ao escrever que daria duas das cidades mais importantes do Império Timúrida por apenas uma pinta do rosto de uma moça, tamanha sua beleza, Hafez foi convocado a dar satisfações ao imperador. Tamerlão conquistava outros territórios através da violência e os pilhava para embelezar suas cidades preferidas: com que direito o poeta sugeria que fossem trocadas por um ponto numa moça? Ao que Hafez teria respondido que era tão gastão que, por isso, vivia na miséria. Safou-se. Por essas e outras, não parece que os erros deliberados dos poetas sejam mera subversão.

Em algum ponto de seu livro “Autobibliografias”, o português Abel Barros Baptista insta para que o fenômeno seja chamado por um nome. Emprestado das memórias de Brás, o termo errata pensante é tomado como provisório. Mas não sei se gosto de nomes compostos e, para completar, estou dividido entre duas alternativas simples. Minha primeira sugestão seria seguir o padrão maior de invocar um termo latino ou grego e carregá-lo de sufixo adequado:

Atética — substantivo feminino

1. Arte ou técnica relativa ao erro na escrita.

2. Errar de propósito.

(Origem grega que se refere a Ate, deusa ctônea do erro e da fatalidade, que pousa nos ombros dos homens, imperceptível, sem peso, induzindo-os ao erro.)

Mas aí seria muito colonizado.

Então pensei em Errorex.

Enfim, “Graça Infinita” antecipou que a sociedade tivesse sólida consciência desse fenômeno do passado em algumas décadas, permanecendo seu modelo mais bem-acabado “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.

Imagine alguém pedindo para você segurar uma caixa de mistura de bolos, que representa a literatura. A caixa vem com instruções na lateral que qualquer criança pode ler. Não faz diferença se você acredita que vai ou não sair um bolo dali. É só seguir as instruções, talvez pedir ajuda de uns confeiteiros um pouco mais experientes, só para garantir que está seguindo as instruções direito. Não precisa entender a química do processo para sair um bolo. Vai sair um bolo.

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