John Doyle tinha uma livraria em Nova York e queria vender “Stoner”. O livro estava no catálogo da editora da Universidade do Arkansas e era difícil de encontrar. Doyle comentou isso com Mike Johnson, da revista “The New York Review of Books”, e lhe entregou três romances de John Williams. Johnson levou os livros para casa. Edwin Frank, editor da coleção NYRB Classics, ouviu a recomendação do colega.
Frank quis ler. Johnson disse que ele teria de esperar a mulher acabar a leitura. Depois os livros foram emprestados a outras pessoas. Frank contou a demora numa entrevista publicada em 2016. Quando conseguiu ler o romance, decidiu que a editora deveria publicá-lo. “Stoner” havia saído em 1965. Williams morreu em 1994. A edição da NYRB chegaria às livrarias em 2006.

Na primeira publicação, o romance vendeu cerca de 2 mil exemplares. Saiu de catálogo no ano seguinte. Williams já era professor de literatura inglesa na Universidade de Denver e ainda publicaria “Augustus”, com o qual ganhou o National Book Award de ficção em 1973. O prêmio, dividido com John Barth, veio por um romance sobre um imperador romano. “Stoner” acompanhava a vida de um professor.
No romance, William Stoner chega à Universidade do Missouri em 1910, aos 19 anos. Filho de agricultores, vai estudar agronomia. Leva 25 dólares que o pai conseguiu emprestados com um vizinho, dando como garantia a colheita de trigo. O terno preto fora comprado com o dinheiro dos ovos vendidos pela mãe.
Numa entrevista concedida em 1985 ao jornalista Bryan Woolley e publicada no ano seguinte, Williams disse que Stoner tivera uma vida muito boa. O professor gostava de dar aulas, explicou, e tinha confiança no valor do seu trabalho. John McGahern recuperou a declaração na introdução da edição da NYRB.
Nancy Gardner Williams conheceu o futuro marido na Universidade de Denver, em 1959. Numa entrevista à “The Paris Review”, contou que ele reservava as férias de verão para escrever. Começava entre 7h30 e 8h. À tarde, fazia anotações para o dia seguinte. Às vezes interrompia o trabalho e ia mexer no jardim. Ela achava que isso acontecia quando ele não conseguia avançar no texto. Williams permaneceu na universidade até se aposentar, em 1985.
A escritora Anna Gavalda traduziu o romance para o francês. A edição saiu em 2011. Para Frank, o público que ela tinha na França ajudava a explicar a boa recepção do livro. O editor contou que o sucesso europeu fez crescer também a procura pela edição americana.

Em dezembro de 2013, a rede britânica de livrarias Waterstones escolheu “Stoner” como livro do ano. Tinham se passado 48 anos desde a publicação. Entre os concorrentes estavam livros novos de Julian Barnes e Kate Atkinson. Segundo Barnes, o romance vendeu 164 mil exemplares no Reino Unido até o fim de novembro daquele ano. No Brasil, a Rádio Londres publicaria o livro em 2015, com tradução de Marcos Maffei.
A consagração teve seus dissidentes. Em 2015, Elaine Showalter contestou a representação das mulheres e a transformação de Stoner em mártir. Michelle E. Crouch, numa resenha para a revista “Cleaver”, fez uma ressalva à caracterização de Katherine Driscoll, a amante do professor. Achava a personagem perfeita demais para ele. É um reparo justo. Quanto mais Katherine oferece a Stoner exatamente o que ele deseja, mais difícil fica vê-la fora das necessidades dele.
Edith já havia causado dúvidas antes de o livro chegar às livrarias. Segundo Crouch, Marie Rodell, agente literária de Williams, pediu que ele esclarecesse as motivações da personagem. Williams acrescentou páginas. Rodell também tinha reservas sobre as possibilidades comerciais do romance. O escritor, numa carta à agente, admitiu que dificilmente teria um best-seller. Continuava convencido de que havia escrito um bom livro.
Na entrevista a Bryan Woolley, Williams disse ainda que ler sem alegria era uma estupidez. Essa alegria aparece na descoberta dos livros pelo rapaz que fora estudar agronomia. A literatura lhe interessa antes que tenha condições de explicar esse interesse. Numa aula, um professor lê um soneto de Shakespeare e lhe pede uma interpretação. Ele não consegue responder. Ficará na universidade, mudará de curso e passará a vida ensinando. É uma decisão importante para aquele filho de agricultores, de quem se esperava a volta à fazenda. O curso de agronomia deveria ajudá-lo no trabalho com a terra. Stoner acaba encontrando uma profissão que os pais não haviam imaginado para ele. Quando Williams fala da boa vida do personagem, leva em conta essa possibilidade de escolher um trabalho e gostar dele, apesar do que acontece no casamento e na universidade.
Antes do sucesso europeu, Dan Wakefield foi um dos leitores que procuraram dar outra chance ao romance. Escreveu sobre “Stoner” na revista “Ploughshares”, em 1981, e se empenhou para que a editora da Universidade do Arkansas o reeditasse. Havia elogios anteriores, de Irving Howe, em 1966, e de C. P. Snow, em 1973.
Williams anuncia a morte de Stoner na primeira página. O professor morreu em 1956, e seus colegas pouco falam dele. Doaram à biblioteca da universidade um manuscrito medieval em sua memória. O romance recua então à infância do personagem, na fazenda dos pais. Há muita coisa a saber sobre esse homem antes de concordar com a pouca importância que lhe deram. O leitor pode achar que ele deveria ter enfrentado a mulher, cuidado melhor da filha, reagido de outra maneira no trabalho. Pode até discordar de Williams sobre a vida boa que levou. São discussões que o romance permite ter com alguma intimidade, depois de acompanhar Stoner durante tantos anos.

