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A literatura brasileira teve uma mutação nos últimos 20 anos. Notadamente se percebe a maior produção de obras literárias de autores e autoras negros, indígenas, LGBTQIA+ e, principalmente, mulheres. Eles e elas das minorias entraram em definitivo no jogo, antes comandado por homens brancos de classe média, e estão mudando a cara da cena cultural. Houve, porém, uma reação a esse fenômeno que muda os eixos. Uns saudaram o passo dado rumo à inclusão, outros apelaram para queixas sobre os efeitos negativos da transposição da lógica identitária para o campo literário.

Noves fora a competição existente em qualquer campo social, o fato é que a literatura acompanhou a transformação maior do país. Não se sabe se a mudança foi boa ou ruim; isso são outros quinhentos, mas tal reconhecimento de que as coisas se movem é elucidativo. Numa característica bem brasileira, a produção literária ainda é um ponto de observação privilegiado do país, e diria até de antecipação do que ainda está em estado embrionário antes de se manifestar na sociedade.

Uma História da Literatura Brasileira Contemporânea — A Narrativa
Uma História da Literatura Brasileira Contemporânea — A Narrativa, Regina Dalcastagnè (Todavia, 608 páginas)

Nos últimos anos, como se vê nessa virada inclusiva, também mudaram as leituras a respeito do que se escreve no Brasil. O olhar sobre formas e conteúdos sofreu alterações que são aqui um ponto de partida.

A vida nas cidades é um dos aspectos centrais da produção literária no Brasil. Trata-se da escrita que se voltou para a passagem histórica do mundo rural para o urbano nos últimos 50 anos. Nada poderia ficar no mesmo lugar com a transição. Surge uma nova imaginação — de novo, sem juízo de valor, ela pode ser boa ou má. Esse peso da urbanização na ficção é importante, por exemplo, no livro “Uma História da Literatura Brasileira Contemporânea — a Narrativa” (2026), de Regina Dalcastagnè, que fez um mapeamento exaustivo de romances e contos desde os anos 1970 até a atualidade.

A relação entre literatura e sociedade tornou-se mais complexa quando se pensa no retorno da questão rural no Brasil. O país caminhou rumo à industrialização ao longo do século 20 e retornou ao universo rural nas últimas décadas — agora renomeado de agronegócio. Uma leitura em conjunto da produção literária de hoje deve, portanto, se ater a essa retomada da relação campo-cidade. É uma imaginação cultural que já está presente na música popular, por exemplo, nas canções sertanejas e gospel.

Esquemas de leitura

Mas por onde desbravar o novo terreno literário no século 21?

Um bom caminho de partida é o trabalho de Luís Augusto Fischer, que lançou uma provocação e tanto no livro “Duas Formações, uma História — das Ideias Fora do Lugar ao Perspectivismo Ameríndio” (2021). Sua proposta é ampliar a leitura da literatura brasileira que, segundo ele, coloca no centro a obra de Machado de Assis e a interpretação histórica de Caio Prado Jr. sobre o “sentido da colonização”. Entende-se a ficção machadiana como a tradução literária do antigo regime de “plantation”, da escravidão e do país centrado na então capital Rio de Janeiro.

A provocação de Fischer é para que se dê centralidade também ao sertão, com uma abertura para outras formas de ler a ficção. Assim, Machado de Assis passaria a dividir espaço com Guimarães Rosa, o decifrador do imenso interior do Brasil. Trata-se de pensar em duas formações brasileiras, paralelas, que explicam o país a partir da literatura. Mesmo que se discorde e se cobrem provas para o modelo de Fischer, a visão de dois registros traz novos elementos para a compreensão literária no Brasil.

Duas Formações, Uma História — Das Ideias Fora do Lugar ao Perspectivismo Ameríndio
Duas Formações, Uma História — Das Ideias Fora do Lugar ao Perspectivismo Ameríndio, Luís Augusto Fischer (Arquipélago Editorial, 400 páginas)

Para exemplificar o “relato rural provincial ou sertanejo”, Fischer cita uma série de autores e autoras contemporâneos: Luiz Sérgio Metz, Milton Hatoum, Francisco Dantas, Cristovão Tezza, Wilson Bueno, Juremir Machado da Silva, Marilene Felinto, Paulo Ribeiro, Antônio Carlos Viana e Miguel Sanches Neto. Como se pode ver na listagem, o espaço do sertão não é uma retomada do velho regionalismo literário, presente ao longo da história cultural brasileira. A conversa é outra.

Antes de entrar em obras recentes, vale acrescentar duas interpretações das ciências sociais que podem dar corpo à hipótese de Fischer. De que sertão ou interior do país se fala, o espaço longe da cultura das cidades litorâneas? A primeira análise vem de Luiz Werneck Vianna, que apontou para uma dualidade brasileira no campo político. De um lado, a racionalidade de inspiração norte-americana que divide o Brasil em dois grupos, sendo um focado nas questões de mercado e outro nas sociais. Um modelo interpretativo para se compreender um tipo de polarização nacional.

Mas a contribuição reveladora de Werneck está no contraponto do esquema interpretativo: o emaranhado barroco no nível local das cidades, estados e regiões do país. As misturas políticas sem a lógica nacional dão o tom do que se passa no interior brasileiro. Podemos pensar na pequena cidade, movida à produção agrícola, pecuária, mineração, mesclada a uma moldura católica com seus ritos e crenças. É um universo que vai dos romances de Autran Dourado ao livro “Tudo É Rio”, de Carla Madeira.

Nas pequenas localidades, as posições políticas e sociais ficam bem menos nítidas em relação ao plano nacional. São mais ambivalentes e até contraditórias. Os elementos barrocos tornam-se uma chave para entender a vida no atual grande interior brasileiro. Antes, era um local preservado das agitações da metrópole do Rio de Janeiro, sobretudo em Minas Gerais. Hoje, é um espaço conectado ao mundo em dimensões variadas, vistas, por exemplo, na hegemonia do sertanejo e das festas de São João na indústria cultural.

A segunda interpretação que pode interessar é a de André Singer, que também recorre ao olhar da política. Ele apontou a existência do “Partido do Interior”. Essa formulação permite ver um tipo de identidade política das pessoas que vivem fora dos grandes centros urbanos. Segundo o autor, os ambientes mais urbanizados foram o berço histórico no passado para o trabalhismo, a produção industrial e o conservadorismo da classe média. Isso tudo implicou a formação de uma cultura própria.

A partir da posse do dinheiro e da riqueza, o passo seguinte do interior brasileiro foi a produção de sua própria cultura e de seus próprios representantes de poder. Uma visão de mundo, interiorana, entrou no jogo nacional, em disputa com o projeto industrial e urbano dos anos 1930. O interior do país construiu ao longo das últimas décadas a identidade sertaneja, distante do velho caipira ou do regionalismo. Virou o centro dinâmico da economia, graças às exportações de soja e carne, e passou a ter a “cultura do agro”, visível na canção popular e nas formas comportamentais. As etiquetas sociais estão no consumo ao estilo norte-americano (condomínios fechados, roupas de caubói, automóveis SUV).

Figurações do real

A partir do esquema de Fischer, junto com as interpretações sociológicas, é possível propor uma leitura para essa nova matéria brasileira e sua transposição para a produção literária. O convite é para que se juntem as peças do quebra-cabeça que mistura traços urbanos e rurais do país hiperconectado ao mundo. Metrópoles violentas, com aspectos históricos de desigualdade social, e o interior que absorve de uma maneira peculiar a modernização. O tráfico de drogas, por exemplo, faz parte da realidade das favelas cariocas e também da “rota caipira” descrita por Allan de Abreu.

Anos de Chumbo e Outros Contos
Anos de Chumbo e Outros Contos, Chico Buarque (Companhia das Letras, 168 páginas)

Dois contos ajudam a dar uma cara para o novo Brasil que surge no século 21. Um aborda o contexto urbano das grandes metrópoles, e o outro captura a cidade do interior. O primeiro conto é de Chico Buarque, “Meu tio”, publicado no livro “Anos de Chumbo e Outros Contos” (2021). O compositor das famosas canções mergulhou no universo da cidade do Rio de Janeiro. Uma jovem narradora descreve a figura de um tio, irmão de sua mãe. O jeito carioca de circular pela cidade atual, com o carro da moda, e as relações de favor/exploração que ele mantém com a família.

A habilidade de Chico Buarque é apresentar esse tio aos poucos, como se descascasse as camadas de uma cebola. A narradora revela que eles têm um caso amoroso, incluindo as mais radicais experiências sexuais. Tudo dentro da imagem brasileira já conhecida em nosso imaginário. O ponto de virada é o momento em que o personagem se mostra nada mais, nada menos, do que um miliciano. Trata-se de um brasileiro que vive na órbita dos mercados ilícitos. E o relacionamento com a sobrinha banca as contas daquela família.

O horror brota da escrita límpida e realista de Chico. Nem é preciso narrar fantasias de monstros, pois a relação tio-sobrinha condensa os movimentos perversos do Brasil contemporâneo. Sem recorrer a pautas identitárias (ou o que venha a ser isso), leitores e leitoras enxergam pela ficção o novo país que se apresenta de forma desassombrada. A metrópole não é o espaço iluminista para substituir o atraso rural. As relações diárias se organizam por meio da violência. São exemplares da forma de vida urbana os romances “O Matador” (1995), de Patrícia Melo, e “O Invasor” (2011), de Marçal Aquino.

Erva Brava
Erva Brava, Paulliny Tort (Fósforo, 104 páginas)

O ambiente rural modernizado é uma novidade da produção literária. Como diz Paulo Arantes, não se espera um ciclo memorialístico do agronegócio de hoje, à maneira do romance regional dos anos 1930, com seus engenhos de açúcar. O campo atual está conectado ao universo urbano. No livro “Erva Brava” (2021), Paulliny Tort traz o segundo conto mencionado, “Má sorte”. A narrativa é centrada num episódio do personagem Ezequiel, que trabalha num silo de armazenagem de soja, na localidade de Buriti Pequeno.

O cenário é alguma localidade no Centro-Sul brasileiro, hoje a ponta de lança do neoextrativismo global. O ouro do momento atende pelo nome de soja, vendida para engordar porcos e vacas na Europa e fazer tofu na China. Nessa cadeia alimentar, está esse homem brasileiro que vai desentupir os dutos de soja no silo gigante. Um cenário rodeado de tecnologia, com um calor insuportável e mau cheiro. Tudo corre normalmente até Ezequiel ser soterrado na montanha de toneladas de grãos.

O conto de Paulliny Tort traz assim o outro lado da modernidade brasileira, bem menos glamoroso e menos ainda pop. A riqueza da soja carrega riscos reais de vida, no que os franceses chamam de “trabalho sujo”, algo que nenhuma pessoa deveria fazer. O mesmo trabalho sujo está presente de forma abundante nos romances de Ana Paula Maia, que evita nominar o Brasil em sua obra, mas tudo se passa aqui. A sujeira pode ser a atividade num matadouro para produzir carne ou a coleta de animais mortos em estradas.

Pontos cegos

As narrativas que expõem o mundo urbano e rural convergem para um sentimento comum: a visão de colapso do país. Não foi por acaso que inúmeras distopias foram a base de romances brasileiros nos últimos anos, principalmente na pandemia. Um caso exemplar é “A Extinção das Abelhas” (2021), de Natalia Borges Polesso. A história se passa numa cidadezinha no Sul do país. As pessoas estão desamparadas, não há mais empregos, as “zonas livres” abrigam gays e imigrantes, e a comida vem contaminada pela empresa que restou na produção agrícola.

Caminhando com os Mortos
Caminhando com os Mortos, Micheliny Verunschk (Companhia das Letras, 144 páginas)

As cidades aparecem como espaços altamente distópicos mesmo na ficção realista. Os romances “Cidade de Deus” (1997), de Paulo Lins, e “Estorvo” (1991), de Chico Buarque, são representativos desse modo de ver o país. Ao mesmo tempo, o que surge de novidade é a expansão do olhar negativo para cenários além dos grandes centros (São Paulo e Rio de Janeiro). Exemplo disso é a série de narrativas de Edyr Augusto, com sotaque paraense, em “Pssica” (2015) e “Belhell” (2020), que apresentam a brutalidade de Belém do Pará e seus arredores amazônicos.

O percurso da nova ficção mostra uma imagem dos tempos atuais, do campo e das cidades, próxima do que Paulo Arantes tem chamado de “a cara feia do Brasil”. Uma estética marcada pela brutalidade, por certo horror social. Nesse quadro, há um aspecto ainda embrionário na elaboração cultural: a transformação religiosa da sociedade, com a expansão do mundo evangélico que tem efeitos no campo cultural.

Arantes aponta a dificuldade dos autores e autoras em encarar a presença da religião. O evangélico aparece como ser estranho, desencaixado, como se fosse uma anomalia sem lugar de estar. A experiência religiosa estaria no lado oposto da racionalidade e da estética socialmente legitimadas pela formação cultural que se inspirou em modelos iluministas de modernidade. Na ficção de Chico Buarque, por exemplo, essa nova figura evangélica causa incômodo. A dificuldade de incorporá-la à narrativa diz algo sobre os limites do olhar de quem procura compreender o país.

Estela sem Deus, Jeferson Tenório (Companhia das Letras, 184 páginas)

Por outro caminho, segundo Arantes, o encontro de Caetano Veloso com o pastor Kleber Lucas, na canção “Deus cuida de mim”, traz uma possibilidade de aproximação com o universo religioso. Mas como o tropicalista, ligado às rupturas estéticas, comportamentais e políticas, se encaixa no mundo evangélico contemporâneo? Nada é trivial, sem dúvida. O encontro deles recoloca a questão de uma estética vista como rudimentar, popular, que se mistura no mercado cultural e provoca desconforto nos intelectuais.

A literatura brasileira ainda busca uma abordagem para imaginar essa transformação religiosa, na mesma medida em que já pensa o mundo do agronegócio. A religiosidade evangélica ou protestante surge em obras recentes como “Caminhando com os Mortos” (Micheliny Verunschk), “Mulher de Pouca Fé” (Simone Campos), “Memória do Chão” (Marcelo Labes), “Cancún” (Miguel del Castillo) e “Estela sem Deus” (Jeferson Tenório). São narrativas ricas e que tratam de diferentes aspectos da questão.

O desafio para escritores e escritoras é ver o campo evangélico para além da representação corriqueira da mídia e da política que centra o olhar nos irracionalismos e nas falsas consciências. Não é algo simples para quem veio de uma linhagem cultural da formação social e histórica brasileira, marcada pelo catolicismo e por tradições de origem africana. A presença evangélica permanece como um aspecto a ser resolvido para uma literatura que procura dar conta do Brasil atual.

Enio Vieira

Jornalista, mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília (UnB) e consultor na área de comunicação.

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