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Uma mulher vai ao zoológico tentar aprender a odiar o homem que ainda ama. Outra, diante de um cego mascando chiclete, perde a segurança da rotina que construiu em torno da família. Em “O búfalo” e “Amor”, Clarice Lispector explora tanto a persistência de um afeto doloroso quanto os limites da proteção que a vida familiar oferece. Fleur Jaeggy, Silvina Ocampo, Amparo Dávila, Hilda Hilst e Leonora Carrington também encontram na intimidade motivos de perturbação. Seus livros permitem reconhecer esse desconforto em outras formas de narrar, do relato contido de uma paixão adolescente ao humor de uma velha que contraria os planos da família.

  1. 01

    Os Suaves Anos do Castigo

    Fleur Jaeggy · Edição de 2024

    Âyiné
    Capa de Os Suaves Anos do Castigo, de Fleur Jaeggy

    Em “Os Suaves Anos do Castigo”, uma interna de 14 anos passa a imitar a letra de uma colega. O hábito sobrevive à convivência das duas. Quando conta a história, anos depois, a narradora ainda escreve como Frédérique. Fleur Jaeggy faz caber nesse detalhe uma relação que seria fácil empobrecer chamando de amizade. A menina observa a outra, quer se aproximar dela, aprende seus modos. Há desejo e há uma disputa que a lembrança adulta não torna mais gentil. O leitor de “O búfalo”, de Clarice, já esteve perto dessa dificuldade de separar afeição e hostilidade. No conto, uma mulher procura nos animais o ódio que gostaria de sentir pelo homem que a rejeitou. Continua apaixonada. Jaeggy é uma boa indicação para quem ficou pensando nessa mulher.

  2. 02

    A Fúria e Outros Contos

    Silvina Ocampo · Edição de 2019

    Companhia das Letras
    Capa de A Fúria e Outros Contos, de Silvina Ocampo

    Cristina tem medo de morar numa casa que já tenha sido habitada. O marido sabe disso, aluga uma e diz que é nova. A mudança, em “A casa de açúcar”, de Silvina Ocampo, começa com essa mentira. Depois chegam um telefonema e visitas procurando outra mulher, Violeta, e Cristina passa a se comportar de uma maneira que o marido não reconhece. É ele quem narra o conto, reunido em “A Fúria”. Sua perplexidade merece desconfiança: além de ter enganado Cristina, ele considera absurdas as superstições dela enquanto se preocupa com seus próprios presságios. A situação permite uma aproximação com “A imitação da rosa”, de Clarice. Nesse conto, a contemplação de um ramalhete perturba Laura, que tenta retomar a rotina doméstica depois de um período de adoecimento. Armando chega em casa e percebe a mudança de Laura. O leitor, que acompanhou os pensamentos dela, já sabe quanto esforço havia na tentativa de voltar à rotina. Em Ocampo, é o marido quem escolhe o que contar de Cristina. Ele desconfia da mulher, e o leitor tem razões para desconfiar dele.

  3. 03

    Cuentos Reunidos

    Amparo Dávila · Edição em espanhol de 2022

    Páginas de Espuma
    Capa de Cuentos Reunidos, de Amparo Dávila

    Outro marido decide o que a mulher deve suportar em “O hóspede”, de Amparo Dávila. Ele volta de viagem com um hóspede que a aterroriza e se recusa a mandá-lo embora. A narradora tem dois filhos, vive num povoado isolado e não dispõe de dinheiro para partir. O visitante agride uma criança. Nem isso convence o marido, que continua a considerá-lo inofensivo e acusa a mulher de histeria. É uma confiança que custa caro aos outros. Não se esclarece que espécie de criatura é aquela, e procurar uma resposta pode desviar a atenção do homem que exige sua permanência na casa.

    Em “Amor”, de Clarice, a visão de um cego mascando chiclete perturba a rotina que Ana havia organizado em torno do marido e dos filhos. No fim do conto, o marido a conduz pela mão, “afastando-a do perigo de viver”. A frase torna ambíguo um gesto de carinho: o amparo familiar também a afasta da experiência que a abalou naquela tarde. A narradora de Dávila já era infeliz quando o hóspede chegou e nem sequer dispõe da casa como refúgio. Lidos em conjunto, os contos permitem perguntar o que uma mulher precisa suportar ou esquecer para que a vida doméstica continue. “O hóspede” está disponível gratuitamente em espanhol, com o título “El huésped”, na coleção “Material de Lectura”, da UNAM.

  4. 04

    A Obscena Senhora D

    Hilda Hilst · Edição de 2020

    Companhia das Letras
    Capa de A Obscena Senhora D, de Hilda Hilst

    Hillé quer saber como Deus pode estar no corpo de Ehud, seu marido morto. Em “A Obscena Senhora D”, Hilda Hilst faz a pergunta passar pelas unhas que ele escovava, pelo esôfago, pela língua, pelo sexo. Se Deus está em tudo, terá de estar também ali. No meio dessas indagações, reaparece a voz de Ehud, recomendando que Hillé caminhe e cuide do corpo. Ela quer saber o que é o corpo. Não é uma conversa que se resolva aconselhando exercício.

    Há uma proximidade com “A Paixão segundo G.H.” nesse esforço de pensar a existência a partir da matéria que causa repulsa. Hillé cobra de Deus as obrigações de um pai, enquanto procura Ehud nas conversas que recorda. Numa delas, reaparece um passeio: ela viu um brilho no alto de uma colina, subiu para descobrir o que era e encontrou uma tampinha de garrafa. Chorou. O marido tenta fazê-la esquecer o episódio, mas a lembrança volta, com o vestido e o colar que usava. Ehud quer dormir. Hillé pergunta como passa o tempo no lugar em que ele está enterrado.

  5. 05

    A Corneta

    Leonora Carrington · Edição de 2023

    Alfaguara
    Capa de A Corneta, de Leonora Carrington

    Marian Leatherby tem 92 anos e ouve mal. Quando uma amiga lhe dá uma corneta auditiva, ela consegue escutar os planos do filho, da nora e do neto para mandá-la a um asilo. A melhora da audição não vem acompanhada de boas notícias. “A Corneta”, de Leonora Carrington, pode interessar a quem se lembra de dona Anita, cercada de parentes em “Feliz aniversário”, de Clarice. Nas duas histórias, acompanhar o olhar da mulher idosa expõe o pouco que a família deseja saber a seu respeito. Dona Anita percebe a mesquinharia dos descendentes; Marian descobre que sua presença se tornou um problema a resolver. Carrington manda sua personagem para uma instituição com construções em forma de cogumelo, iglu e bolo de aniversário. No refeitório, o retrato de uma freira parece piscar para ela. O casal que dirige o lugar pretende disciplinar as moradoras. Marian, que ainda sonha em conhecer a Lapônia, tem outros interesses. O humor nasce também dessa curiosidade que os parentes desconsideram. Eles planejam onde acomodá-la; o romance acompanha tudo o que ela ainda quer descobrir. A edição brasileira é da Alfaguara, com tradução de Fabiane Secches.

Carlos Willian Leite

Carlos Willian Leite é poeta, jornalista e editor, fundador da Revista Bula e da Bula Livros. Escreve sobre literatura, cinema, streaming e vinhos.

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