Se a natureza divina se faz presente em rigorosamente todos os seres, animados ou inanimados, racionais ou não, como pensou Spinoza, o Criador também seria capaz de apresentar-se sob uma forma ambígua. Manifestações satânicas que vêm à luz encarnadas num recém-nascido são a definição mesma dos labirintos da alma humana, e por aí segue “O Bebê Maldito”, premissa absurda demais para ser ignorada. Andy Crane e Nathan Shepka demonstram empenho ao juntar símbolos religiosos, personagens excêntricos e um lugar inóspito para contar uma história cruel de inadequação. Pena que não consigam evitar a caricatura.
Haja fé!
Em 1944, o tal bebê é acolhido por freiras de um convento na Escócia durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e, claro, não demora para que fatos estranhos sucedam. Agnes, uma das sorores, acompanha o caso com particular curiosidade, observa a criança de perto e conclui que existe nela um poder mágico, e essa postura divide opiniões. Espíritos, fantasmas e que tais não são exatamente o assunto favorito por ali, argumento do qual Shepka e o corroteirista Tom Jolliffe valem-se para destrinchar o arco da mulher que renuncia a sua individualidade em nome de um propósito que julga maior, porém deve confrontar-se com a dúvida. Amber Doig-Thorne confere o frescor que redime os tantos clichês, embora a comédia involuntária seja um desafio massacrante até para fãs incondicionais do gênero.

