Há uma discussão atual a respeito das causas da violência e, por consequência, do que seria a maldade humana. Para quem se liga em questões religiosas, o autor de um crime (roubo, homicídio) tem sobretudo motivações de origem individual. Pesam mais nessa visão as ideias de caráter, índole, natureza da pessoa. De outra parte, sobressaem as formas sociais, os contextos do ato violento, as influências do mundo. O ambiente molda as ações das pessoas e, principalmente, as estimula.

O livro “O Adversário” (2000), de Emmanuel Carrère, é uma investigação das formas do mal numa sociedade contemporânea, no caso a França. A obra foi relançada este ano no Brasil, na onda de boa repercussão do autor por aqui. O ponto de partida é o assassinato brutal cometido por um médico chamado Jean-Claude Romand, no ano de 1993, na região de Lyon, na França. Ele matou a esposa, os dois filhos e os próprios pais. Ficou a suspeita de haver matado o sogro, o que não foi provado.
Ele sobreviveu ao incêndio que provocou na própria casa para acobertar os assassinatos e foi a julgamento na Justiça – naqueles casos indefensáveis. A sentença foi a de prisão perpétua, e ele foi posto em liberdade condicional em 2019. Hoje, segundo dizem a internet e as IAs, ele vive anonimamente na França.
O caso seria mais uma notícia de jornal banal (sempre à sombra das banalidades do mal) que se esgota com a ocorrência de outro crime. Em sentido contrário ao fluxo moderno de informação, Carrère investiu na escrita para remoer a história escabrosa. Descobriu ao fim de tudo um mentiroso contumaz. O assassino criou um personagem que trabalharia na Organização Mundial da Saúde (OMS), na Suíça. Suas viagens ditas internacionais davam a ele a aura de um sujeito respeitável para os amigos.
Mas a teia de histórias e mentiras, criadas por Romand, precisava de financiamento. Quando ocorreu o crime, especulou-se que ele poderia ser espião ou traficante de armas. Ao longo da investigação policial e do julgamento, porém, houve a descoberta bem mais simples. Ele convencia pessoas de sua família e da esposa a entregar dinheiro para ele administrar em bancos suíços. As economias dos pais e do sogro acabaram consumidas na fantasia do médico internacional bem-sucedido.
A ficção de si mesmo
A prosa realista de Carrère reconstrói o processo usado pelo assassino para criar uma ficção enorme. Uma ficção de si mesmo, na acepção do termo. Sempre fica a pergunta para o leitor e a leitora: por que matar a própria família de maneira tão brutal? Simplesmente, o motivo era o dinheiro e a necessidade de manter um modo de vida. Havia a vergonha de ser desmascarado, o que levaria por terra o narcisismo extremo de Jean-Claude. Para enfrentar seu problema, ele decide matar a família.
O livro trabalha a tradicional visão de que as aparências revelam mais do que as essências – algo bem conhecido para quem lê Machado de Assis ou Slavoj Žižek. O que move essa história revelada por Carrère é tão somente a importância do dinheiro para um sujeito insignificante em busca de atenção. É a partir dos recursos financeiros que Romand pode fabricar um médico renomado (tudo é mentira na história), incluída até uma amizade fictícia com o fundador da instituição Médicos sem Fronteiras, Bernard Kouchner.
A descoberta de Carrère é o papel do dinheiro na engrenagem da vida contemporânea, que se torna o centro da vida de um homem comum e alimenta um narcisismo assassino. O círculo de convívio social de Romand jamais poderia imaginar a existência daquele “adversário”. Alguém que se dedicava à vida comunitária na escola dos filhos e a frequentar a igreja católica. Mesmo sob alguma desconfiança, as pessoas próximas do assassino queriam acreditar naquela figura estranha e com discreto charme.
Pelo que narra Carrère, a forma do mal hoje está no dinheiro que constrói a fantasia social em torno de um assassino brutal. Não existe caráter corrompido de um indivíduo chamado Jean-Claude Romand nos assassinatos cometidos. Os crimes são a tentativa de solucionar o “problema” de que ele seria finalmente descoberto em suas mentiras e, isso sim, nos crimes financeiros contra seus próprios parentes. Nada muito diferente do que fazem os mais famosos golpistas financeiros da atualidade.
O livro de Carrère evita, ainda bem, uma abordagem meramente psicológica dos crimes. Pode-se dizer que a motivação de Romand estava no bolso, e não em sua alma. Disso emerge a forma nova de “banalidade do mal”, mais contemporânea do que a investigação de Hannah Arendt sobre o Holocausto judeu. No final dos anos 1990, surgiu uma provocação interessante: o que é o ato de um terrorista perto dos operadores das bolsas de valores? O mal maior está hoje, na verdade, no dinheiro.
Banalidade do mal
Arendt chocou o mundo ao acompanhar o julgamento de um nazista e buscar as formas do mal da época, a partir do gestor dos campos de concentração. Seu relato virou o famoso livro “Eichmann em Jerusalém” (1963). A filósofa alemã não viu um monstro ou demônio no corpo de um homem. Na visão dela, Adolf Eichmann era apenas alguém que havia deixado de pensar e assim repetia que cumprira ordens numa máquina burocrática. Matar, ou melhor, exterminar, era uma tarefa a ser cumprida com eficiência.
A banalidade de Jean-Claude Romand parece algo bem mais corriqueiro, até mesmo isolado naquele mundo do interior francês. Não havia ordens a cumprir, apenas um sujeito que se realizava no consumo de artigos de luxo, nos encontros com uma amante em Paris (que ele tenta matar e fracassa) e na fantasia de ser um profissional bem-sucedido. Fica a impressão de que esse narcisismo encontrou um destino maior com a cobertura da mídia em seu julgamento e até no livro de um renomado escritor (Emmanuel Carrère).
A parte final de “O Adversário” ganha ingredientes mais curiosos e complexos. O autor conhece uma dupla (Marie-France e Bernard) que visita Romand com frequência na prisão. Surge então um movimento de conversão do assassino a um misticismo cristão. Mais interessante para um leitor ou uma leitora de hoje é encontrar o mantra “a verdade vos libertará” na boca do protagonista dessa história macabra. Ele ainda se torna membro de um grupo de orações chamado de Os Intercessores.
Mais de 20 anos após o lançamento, “O Adversário” pode constar de qualquer biblioteca de “true crime”. Trata-se de uma obra perturbadora, comparável a “A Sangue Frio” (1965), de Truman Capote. Talvez seja um vício de olhar que os psicopatas apareçam quase sempre como gênios de altas habilidades nas obras de “true crime”. Mas Romand é a prova de que essas figuras são extremamente deploráveis e banais, presentes tanto na época da Segunda Guerra Mundial como no mundo financeirizado da atualidade.

