O faroeste nunca precisou apenas de caubóis, duelos ao meio-dia e cidadezinhas engolidas pela poeira para dizer a que veio. Desde muito cedo, o gênero entendeu que uma terra onde a lei mal consegue fincar os pés é terreno fértil para homens e mulheres dispostos a fazer valer suas próprias regras, sobretudo quando dinheiro, propriedade e sobrevivência misturam-se até já não se saber direito onde termina uma coisa e começa a outra. Mudam os países, as armas tornam-se mais eficientes, cavalos dão lugar a caminhonetes e helicópteros, mas a velha disputa por terra, poder e algum quinhão de liberdade continua lá, inteira, como se o Oeste jamais tivesse acabado.
John Ford, Sergio Leone e Sam Peckinpah transformaram esse universo numa das grandes mitologias do cinema, cada qual a seu modo, e talvez por isso ainda se imagine o western preso à América do século 19. Não está. Uma caravana avançando por territórios hostis, uma cidade do Novo México praticamente entregue às mulheres, fazendeiros australianos dispostos a tudo para conservar seus domínios ou homens sem pátria tentando sobreviver na Manchúria ocupada pelos japoneses pertencem, afinal, à mesma família. Basta que a civilização recue alguns passos e alguém decida que aquela terra, aquele dinheiro ou aquela liberdade lhe pertencem.
“1883”, “Godless”, “Terra Indomável”, “Territory” e “Song of the Bandits” chegam ao western por caminhos bastante diferentes, e é justamente aí que a seleção ganha graça. As épocas mudam, as paisagens também, mas nenhuma delas perde de vista o que sempre fez o gênero funcionar. Há gente acuada, territórios cobiçados e uma violência à espreita, esperando apenas que alguém atravesse uma fronteira real ou imaginária. Sobreviver, nesses lugares, quase nunca significa somente continuar respirando. Às vezes é preciso escolher um lado quando nenhum deles parece grande coisa.
1883

O Oeste costuma ser lembrado depois que as cercas foram erguidas, as cidades apareceram e os homens armados ganharam nome. Taylor Sheridan prefere voltar ao instante anterior, quando atravessar uma planície já era uma aposta contra a morte. James e Margaret Dutton deixam o Tennessee com os filhos e juntam-se a uma caravana que pretende alcançar o Oregon, levando consigo pouco além da esperança de que exista alguma terra menos hostil adiante. O capitão Shea Brennan, vivido por Sam Elliott, conhece melhor que todos o preço dessa travessia e não alimenta ilusões sobre o caminho. Rios, doenças, ladrões e a absoluta ausência de lei transformam cada parada num teste. A série encontra sua melhor voz em Elsa Dutton, a jovem interpretada por Isabel May, que observa aquele mundo brutal com um encantamento que os adultos já perderam. Tim McGraw e Faith Hill dão ao casal Dutton uma sobriedade preciosa, mas é por Elsa que a marcha ganha poesia. Sheridan filma a conquista do Oeste sem saudade fácil: antes da lenda havia lama, medo e gente tentando chegar viva ao dia seguinte.
Godless

Há cidades que nascem do ouro e outras que quase morrem por causa dele. La Belle, no Novo México, pertence ao segundo grupo. Um acidente numa mina mata boa parte dos homens do lugar e deixa mulheres, crianças e alguns poucos sobreviventes diante da tarefa de manter a comunidade de pé, até que a chegada de Roy Goode rompe a frágil ordem. Ele foi criado entre criminosos e acaba de abandonar Frank Griffin, o chefe da quadrilha que o tratava como filho. A deserção transforma Roy em presa, e o caminho de Griffin até La Belle passa a carregar uma ameaça que Scott Frank administra sem pressa. Michelle Dockery dá a Alice Fletcher a dureza de quem aprendeu a não esperar salvadores, enquanto Jack O’Connell faz de Roy um pistoleiro menos interessado em glória que em encontrar algum lugar onde não precise fugir. Jeff Daniels, por sua vez, compõe um vilão que mistura fanatismo, paternalismo e crueldade. O resultado é um faroeste de vingança e sobrevivência em que a ausência masculina, longe de esvaziar a cidade, revela quem sempre soube mantê-la viva.
Terra Indomável

Em 1857, seguir rumo ao Oeste americano significava entrar numa região em que religião, dinheiro, território e sobrevivência podiam justificar qualquer atrocidade. Sara Rowell atravessa esse mundo com o filho Devin, perseguida por um passado que a série vai revelando aos poucos, e precisa encontrar alguém capaz de conduzi-los até Crooks Springs. O homem que aceita a tarefa é Isaac Reed, figura áspera e quase selvagem interpretada por Taylor Kitsch, conhecedor de povos indígenas, trilhas e perigos que nenhum mapa registra. Peter Berg conduz a história como uma longa marcha pelo inferno, aproximando a jornada de Sara dos conflitos envolvendo Fort Bridger, soldados, mórmons e comunidades nativas num território convulsionado pela Guerra de Utah. Betty Gilpin evita transformar a protagonista numa vítima passiva, dando-lhe a obstinação de quem já percebeu que sobreviver pode exigir escolhas moralmente ruins. O cenário é grandioso, mas nunca acolhedor. Neve, lama, fogo e sangue fazem parte da mesma paisagem, e a civilização prometida pelos homens que avançam sobre aquelas terras parece, a cada episódio, apenas outra modalidade de barbárie.
Song of the Bandits

A Manchúria dos anos 1920 é um território de fronteiras instáveis, exércitos, mercenários e coreanos expulsos de sua própria terra durante a ocupação japonesa. Lee Yoon chega a Gando carregando culpa suficiente para uma vida inteira e procurando um homem ligado a seu passado, mas logo percebe que naquela região ninguém sobrevive sozinho por muito tempo. O antigo soldado torna-se parte de um grupo de bandidos que protege comunidades coreanas enquanto enfrenta tropas japonesas, caçadores de recompensa e interesses que se cruzam num pedaço de mundo onde a lei muda conforme a arma mais próxima. Kim Nam-gil sustenta o protagonista com a contenção de quem parece sempre a um passo de acertar contas consigo mesmo, enquanto Seohyun, Yoo Jae-myung, Lee Hyun-wook e Lee Ho-jung ampliam uma história em que lealdades raramente são simples. Han Jung-hoon e Hwang Jun-hyuk revestem o western de referências históricas coreanas, espadas, rifles e perseguições a cavalo. A paisagem pode ser asiática, mas o coração da narrativa é reconhecível: gente sem pátria transformando um território hostil no último lugar onde ainda pode lutar por alguma forma de liberdade.
Territory

No interior australiano, terra significa dinheiro, poder e uma espécie de soberania que famílias inteiras passam a considerar direito de nascimento. Marianne Station, uma gigantesca fazenda de gado, fica sem um herdeiro evidente depois da morte de Daniel Lawson, e o vazio aberto dentro da família rapidamente atrai vizinhos, empresários, criadores rivais e gente interessada em abocanhar parte do império. Graham Lawson, o filho marcado pelo alcoolismo e pelas frustrações, tenta ocupar um lugar que o pai nunca pareceu disposto a lhe conceder, ao passo que Emily, sua mulher, entende melhor que ele como se sobrevive num ambiente em que afeto e negócio se confundem. Anna Torv e Michael Dorman conduzem esse núcleo sob a sombra do patriarca Colin, interpretado por Robert Taylor com a brutalidade de quem mede pessoas pela utilidade. Timothy Lee e Ben Davies transplantam o faroeste para o Top End australiano sem precisar de diligências ou saloons. Há helicópteros, motocicletas e milhões em jogo, mas o impulso continua o mesmo dos velhos westerns: conquistar terra, defendê-la e descobrir quanto sangue se aceita derramar para continuar chamando-a de sua.

