John Constantine (Keanu Reeves) caça demônios em Los Angeles enquanto tenta garantir um lugar no céu. Em “Constantine”, lançado em 2005 e dirigido por Francis Lawrence, esse exorcista de poucas palavras recebe a visita da policial Angela Dodson (Rachel Weisz), que procura ajuda para esclarecer a morte da irmã gêmea. Isabel, também interpretada por Weisz, caiu do alto de um hospital psiquiátrico. A polícia considera o caso um suicídio, mas Angela desconfia dessa conclusão. A busca pelas circunstâncias da morte aproxima os dois de uma ameaça que ultrapassa os limites de uma investigação criminal.
John tem seus próprios motivos para aceitar o trabalho. Desde criança, consegue enxergar seres sobrenaturais entre os humanos, uma habilidade que lhe trouxe sofrimento antes de lhe dar alguma utilidade. Depois de uma tentativa de suicídio na juventude, passou pelo inferno e foi reanimado. Agora, acredita que está condenado a voltar para lá quando morrer. Expulsar demônios se tornou sua maneira de tentar escapar desse destino. O problema é que um câncer de pulmão encurtou o prazo para obter o perdão que tanto deseja.
Um homem com pressa de ser perdoado
Reeves dá ao personagem uma mistura bem dosada de desgaste, arrogância e mau humor. John conhece criaturas capazes de aterrorizar qualquer pessoa, mas costuma recebê-las com a disposição de quem foi chamado para resolver um vazamento fora do expediente. Essa familiaridade rende algumas das melhores passagens de “Constantine”. O absurdo ganha graça porque ele tem pouca paciência para demonstrar espanto, mesmo quando precisa arriscar o pescoço.
O cigarro ajuda a compor esse retrato pouco lisonjeiro. Apesar da doença, John continua fumando, preso a um hábito que agrava sua condição. Existe algo de patético nesse homem que dedica tanto esforço à vida depois da morte e cuida tão mal do corpo que ainda possui. Reeves preserva essa contradição sem pedir simpatia. Seu exorcista ajuda pessoas, mas também espera que cada serviço conte a seu favor.
Quando procura Gabriel (Tilda Swinton), John recebe uma avaliação desagradável de suas intenções. Sua disposição para combater demônios está ligada ao medo da condenação, e o interesse pessoal compromete o valor dos gestos que apresenta como boas ações. Swinton interpreta Gabriel com uma serenidade incômoda. Diante daquela calma, a impaciência do exorcista fica ainda mais evidente. Ele quer uma garantia de salvação, mas descobre que trabalhar mais talvez seja insuficiente.
Uma irmã que deixou perguntas
Angela entra nessa história carregando uma dor que dispensa qualquer conhecimento religioso. Ela perdeu a irmã e precisa saber o que aconteceu. A fé católica de Isabel pesa em sua resistência à hipótese de suicídio, embora sua busca também envolva culpa e questões familiares que ficaram sem resposta. Pedir auxílio a John significa admitir que os recursos habituais de sua profissão talvez não deem conta daquele caso.
Rachel Weisz torna essa passagem convincente porque mantém a policial ligada a uma necessidade humana. Angela cobra explicações, desconfia do que escuta e tenta preservar algum controle sobre a investigação. A atriz deixa o luto aparecer sem transformar cada conversa numa demonstração de sofrimento. Por trás da postura profissional, existe uma mulher que teme descobrir quanto desconhecia sobre a própria irmã.
A parceria ganha força nesse atrito. John está acostumado a saber mais do que as pessoas que o procuram e faz pouco esforço para ser agradável. Angela, por sua vez, tem experiência suficiente para questionar sua autoridade. Os dois precisam colaborar, mas a confiança demora a surgir. Essa resistência dá peso às descobertas, porque cada informação exige que a policial abandone uma certeza na qual se apoiava.
As regras de um mundo clandestino
Ao acompanhar o exorcista, Angela conhece um ambiente em que seres ligados ao céu e ao inferno circulam entre os humanos. Existem regras para essa convivência, e a suspeita de que alguém esteja desrespeitando esses acordos torna a morte de Isabel ainda mais preocupante. John reconhece sinais que a polícia não saberia interpretar, mas seu conhecimento também o coloca na mira de adversários que sabem quem ele é.
Papa Midnite (Djimon Hounsou) ocupa um lugar importante nesse circuito. Dono de um clube que preserva a neutralidade entre os dois lados, ele protege o próprio território e tem pouco interesse em assumir os problemas alheios. Hounsou estabelece essa autoridade sem precisar elevar a voz. John pode conhecer a casa e seus frequentadores, mas isso não lhe assegura ajuda. Para avançar, precisa enfrentar a resistência de alguém que tem bastante a perder ao participar da busca.
Francis Lawrence aproveita esses espaços para tornar Los Angeles menos familiar. Apartamentos, ruas e estabelecimentos comerciais escondem ameaças que parte dos moradores sequer consegue enxergar. O horror nasce dessa convivência e da diferença entre aquilo que Angela vê e aquilo que John reconhece. Quando ele identifica um perigo, ela ainda precisa descobrir de onde poderá vir o ataque.
Keanu Reeves sustenta o sobrenatural
“Constantine” perde algum ritmo quando os personagens precisam explicar as regras religiosas e sobrenaturais que sustentam a investigação. Certas conversas acumulam informações demais, interrompendo uma busca que vinha funcionando pelo atrito entre a policial e o exorcista. A presença de Reeves ajuda a atravessar essas passagens. Sua atuação econômica mantém John desagradável o suficiente para despertar interesse, sem transformá-lo num sujeito incapaz de se importar com alguém.
Lawrence também acerta ao preservar o desgaste físico do protagonista durante a ação. John dispõe de ferramentas, experiência e contatos, mas está doente e pode falhar. A necessidade de proteger Angela acrescenta uma responsabilidade que seus exorcismos habituais não resolvem. Quanto mais os dois investigam a morte de Isabel, maior fica o risco para a irmã que sobreviveu. Com o próprio tempo se esgotando, ele precisa buscar respostas e mantê-la viva.

