No verão de 1979, em uma pequena cidade de Ohio, Joe Lamb (Joel Courtney) ajuda os amigos a fazer um filme de zumbis para participar de um festival. A ocupação também lhe oferece alguma companhia depois da morte da mãe, que deixou a casa silenciosa e a convivência com o pai ainda mais difícil. Durante uma gravação noturna, os adolescentes testemunham um desastre ferroviário. Nos dias seguintes, desaparecimentos e acontecimentos inexplicáveis perturbam os moradores. Lançado em 2011, “Super 8”, de J.J. Abrams, acompanha essa turma enquanto a diversão das férias se transforma numa investigação perigosa.
Joe é responsável pela maquiagem da produção comandada por Charles Kaznyk (Riley Griffiths), um pequeno diretor de grandes ambições. Charles quer terminar seu curta, inscrevê-lo num festival e conseguir que todos levem suas ordens a sério. A última tarefa talvez seja a mais trabalhosa. Entre discussões, improvisos e recursos escassos, os meninos tratam cada tomada com uma solenidade que dá graça às filmagens. Abrams observa esse entusiasmo com carinho, sobretudo quando a vontade de fazer cinema esbarra na dificuldade de manter os colegas concentrados.
Uma atriz muda os planos
A chegada de Alice Dainard (Elle Fanning), convidada para interpretar a esposa de um detetive, deixa Joe especialmente interessado nas gravações. Ele gosta da garota, mas tem pouca habilidade para disfarçar ou falar sobre isso. A maquiagem oferece uma oportunidade de aproximação, com a vantagem de manter suas mãos ocupadas enquanto procura alguma coisa para dizer.
Fanning dá a Alice uma segurança que contrasta com o acanhamento do colega. Quando começa a atuar, surpreende os meninos e interrompe por alguns instantes a agitação do grupo. Fora das cenas, porém, a adolescente carrega preocupações que não costuma dividir. A convivência com o pai, Louis Dainard (Ron Eldard), impõe restrições e constrangimentos. Joe também tem assuntos demais guardados, e a afinidade entre os dois cresce nessas conversas hesitantes.
Courtney faz um protagonista convincente porque permite que a tristeza conviva com a curiosidade e a paixão. Joe continua interessado em maquiagem, cinema e garotas, embora sinta falta da mãe. A perda aparece em seus silêncios e na dificuldade de conversar com Jackson Lamb (Kyle Chandler), seu pai, um policial que se refugia no trabalho. Os dois vivem sob o mesmo teto, mas raramente conseguem oferecer ao outro a companhia de que precisam.
A madrugada nos trilhos
Durante a filmagem na estação, Charles vê na passagem de um trem a chance de conseguir uma cena mais caprichada. Manda todos aproveitarem a oportunidade, sem imaginar o que está prestes a acontecer. O descarrilamento espalha vagões e destroços, obrigando os adolescentes a abandonar a encenação e procurar abrigo.
Abrams prolonga a destruição além do necessário. A quantidade de perigos dos quais as crianças escapam cobra alguma tolerância do espectador, especialmente porque os corpos parecem pequenos demais para atravessar tamanho desastre sem ferimentos graves. Ainda assim, a sequência muda o rumo da história com eficiência. A câmera permanece ligada durante parte da confusão e pode ter registrado algo que ninguém conseguiu observar enquanto corria.
O medo de admitir a saída noturna leva os amigos a esconder o que testemunharam. Essa escolha os deixa numa situação complicada quando a cidade começa a acumular ocorrências estranhas. Eles possuem informações importantes, mas contar tudo significa revelar também a própria participação naquela madrugada.
Os adultos guardam seus segredos
Jackson procura esclarecer os desaparecimentos e os danos relatados pelos moradores, enquanto os militares assumem o controle da área do acidente. As respostas são escassas. Quem chegou para cuidar dos destroços demonstra pouco interesse em prestar esclarecimentos à polícia local, e o pai de Joe passa a investigar sem acesso ao que deveria saber.
Chandler dá peso a essa frustração sem transformar Jackson num homem insensível. Ele se preocupa com o filho, mas costuma expressar cuidado por meio de proibições. O problema aparece quando tenta decidir quais amizades são aceitáveis, especialmente a aproximação com Alice. Um ressentimento entre as famílias interfere numa relação que os adolescentes mal começaram a construir.
Essa parte de “Super 8” merece atenção porque mantém os conflitos domésticos dentro da aventura. Joe precisa lidar com o desconhecido nas ruas e com um pai que não sabe ouvi-lo em casa. Alice enfrenta uma dificuldade semelhante. Os adultos têm razões para estar feridos, mas os filhos acabam submetidos a restrições que nasceram antes deles poderem escolher qualquer coisa.
Uma aventura com gente de verdade
O suspense cresce enquanto os garotos tentam descobrir o que aconteceu com o trem e o que pode estar ameaçando a cidade. A película registrada naquela noite ganha importância, mas examiná-la exige uma espera que seria estranha para adolescentes acostumados ao celular. Abrams aproveita esse intervalo para deixar os amigos discutirem possibilidades sem ter todas as informações à mão.
A melhor companhia continua sendo a turma. Charles insiste em terminar seu curta, Joe se distrai com Alice e os colegas reclamam, discordam e se assustam. Há uma familiaridade gostosa nessas conversas, inclusive quando algum deles tenta assumir uma coragem que ainda não possui. As brincadeiras preservam a idade dos personagens, mesmo quando o perigo exige decisões para as quais nenhum está preparado.
“Super 8” perde um pouco dessa intimidade quando Abrams aumenta o volume da ação. Algumas relações familiares também recebem soluções apressadas diante do cuidado dedicado à sua apresentação. Ainda assim, Joel Courtney e Elle Fanning sustentam o interesse por Joe e Alice com uma combinação delicada de curiosidade, afeto e insegurança. Antes de qualquer resposta sobre o desastre, já existe uma boa razão para acompanhá-los. São dois adolescentes tentando ficar próximos enquanto os pais impõem distância e a cidade deixa de oferecer segurança.

