Christian Wolff (Ben Affleck) ganha a vida examinando as contas de organizações criminosas, mas é uma contratação empresarial que ameaça tirá-lo do anonimato. Em “O Contador”, de 2016, dirigido por Gavin O’Connor e ambientado nos Estados Unidos contemporâneos, ele aceita investigar uma divergência financeira em uma companhia de robótica enquanto o Departamento do Tesouro tenta descobrir sua identidade. O serviço parece uma oportunidade de trabalhar dentro da lei. O problema é que há gente disposta a matar para manter aqueles números longe de uma auditoria.
Por trás de um escritório modesto, Christian mantém uma clientela que dificilmente pediria recibo para apresentar à Receita. Seu talento consiste em identificar padrões, localizar desvios e descobrir quem está tirando dinheiro de quem. Para os criminosos que o contratam, essa competência vale muito. Para ele, preservar a discrição é uma condição de sobrevivência.
Affleck interpreta o personagem com gestos contidos, fala econômica e pouca disposição para convenções sociais. Christian é autista, precisa de rotina e tem dificuldades em situações que outras pessoas atravessam sem pensar. Sua relação com os números oferece uma segurança ausente das conversas. O ator consegue tornar essa reserva interessante, sobretudo quando deixa transparecer o esforço necessário para lidar com uma aproximação inesperada.
Uma diferença de milhões nas contas
A mudança começa na Living Robotics, empresa em que Dana Cummings (Anna Kendrick) descobre uma discrepância nos registros financeiros. Christian é contratado para examinar os documentos e identificar a origem do problema. Dana participa desse trabalho porque foi ela quem encontrou a irregularidade e conhece os registros da companhia.
Essa informação faz diferença. Dana tem uma função na investigação, competência profissional e curiosidade suficiente para acompanhar o raciocínio do especialista. Kendrick dá à personagem uma espontaneidade que ajuda a arejar o ambiente de desconfiança. Ao lado dela, o silêncio de Christian deixa de ser apenas uma característica e passa a produzir pequenos desencontros nas conversas.
A aproximação dos dois rende uma graça discreta, nascida da diferença entre suas maneiras de se comunicar. Ela tenta conversar, ele responde ao que foi perguntado, muitas vezes sem perceber as intenções que acompanham a pergunta. Affleck e Kendrick acertam o ritmo dessas interações sem transformar cada encontro em uma piada. Há simpatia entre os personagens antes que qualquer possibilidade de intimidade entre em discussão.
O trabalho, porém, avança para um terreno perigoso. Examinar os balanços significa tocar em interesses que alguém prefere manter escondidos. Christian passa a lidar com ameaças que alcançam também Dana, obrigada a enfrentar os riscos de uma descoberta feita durante o expediente. A partir desse ponto, terminar a auditoria e proteger a colega tornam-se tarefas inseparáveis.
Um investigador atrás do contador
Enquanto Christian procura o destino do dinheiro, Ray King (J.K. Simmons), do Departamento do Tesouro, tenta identificar o profissional que presta serviços ao crime organizado. Ele encarrega a agente Marybeth Medina (Cynthia Addai-Robinson) de reunir as pistas disponíveis e chegar ao homem por trás de diferentes identidades.
Simmons dá ao chefe uma autoridade convincente sem precisar fazer de cada fala uma demonstração de poder. Medina assume a parte trabalhosa da busca, cruzando informações sobre alguém que passou anos dificultando esse tipo de investigação. Sua presença estabelece outra fonte de pressão. Christian precisa lidar com o perigo ligado à empresa enquanto o governo procura chegar ao seu escritório.
O roteiro de Bill Dubuque alterna essas duas investigações e acrescenta lembranças da infância do protagonista. A escolha mantém algumas respostas em suspenso, embora também interrompa a auditoria quando ela já tem elementos suficientes para prender a atenção. Há ocasiões em que seria mais interessante permanecer com Christian e Dana diante dos documentos do que sair em busca de outra explicação sobre o passado.
Uma infância marcada pela dureza
As lembranças apresentam uma educação familiar severa. O pai de Christian, militar, insiste em prepará-lo para enfrentar um mundo hostil por meio de disciplina e treinamento físico. Sua maneira de lidar com as dificuldades do filho mistura preocupação e violência, deixando pouco espaço para acolhimento.
Essas passagens ajudam a explicar por que o adulto sabe se defender tão bem. Também tornam mais incômoda a relação entre pai e filho. O treinamento tem um custo emocional que a competência posterior de Christian não apaga. O’Connor acerta quando permite perceber essa dureza sem pedir que o espectador admire todos os métodos empregados.
A representação do autismo merece uma avaliação mais cuidadosa. O personagem reúne talento matemático extraordinário, memória excepcional e habilidade com armas, combinação bastante conveniente para um suspense de ação. Esse acúmulo pode restringir a compreensão de uma experiência muito mais diversa. Affleck oferece nuances melhores nas dificuldades de convivência, no apego aos hábitos e nas tentativas de estabelecer confiança com Dana. São aspectos que dão ao protagonista uma presença humana além de suas façanhas.
Quando os documentos atraem armas
O’Connor filma a ação com atenção aos movimentos e à posição dos personagens. É possível acompanhar de onde vem a ameaça e quais recursos Christian tem para enfrentá-la. A concentração demonstrada durante o trabalho reaparece nessas situações, criando uma ligação entre o homem que examina registros e aquele que reage a uma agressão.
Ainda assim, o roteiro pede alguma tolerância com coincidências e com a quantidade de habilidades atribuídas ao protagonista. A combinação entre investigação financeira, drama familiar e violência nem sempre mantém o mesmo equilíbrio. Quando surgem muitas explicações em sequência, a curiosidade sobre o dinheiro desaparecido perde espaço para o esforço de conectar as várias histórias.
A relação entre Affleck e Kendrick ajuda a sustentar esse conjunto. Dana dá a Christian uma razão pessoal para permanecer envolvido, além da necessidade de concluir o serviço. Ele, por sua vez, precisa considerar o medo e a vulnerabilidade de alguém que entrou naquele perigo sem qualquer treinamento.
“O Contador” preserva essa proximidade. Uma funcionária encontrou uma irregularidade, um especialista foi contratado para examiná-la e alguém decidiu que ambos sabiam demais. Dessa situação simples nasce o suspense mais envolvente, com documentos que precisam ser conferidos e duas pessoas tentando continuar vivas para descobrir quem deseja interromper o trabalho.

