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Roger (Stanley Tucci) resolve reunir os filhos para uma tarefa que dificilmente entraria no planejamento de um almoço de domingo. Ele quer roubar a Mona Lisa do Museu do Louvre, em Paris, e precisa das habilidades dos dois para executar o assalto. Em “Masterplan”, comédia criminal de 2026 dirigida por Thomas Vincent, o encontro acontece durante os preparativos do crime. Chiara (Simona Tabasco), especialista italiana em crimes cibernéticos, e Jay (Victor Belmondo), francês que trabalha com explosivos, são recrutados sem saber que têm o mesmo pai. Antes de colaborar, terão de lidar com a notícia e com as cobranças que ela provoca.

A premissa é boa. Um ladrão experiente tenta comandar dois jovens que possuem razões pessoais para desconfiar dele. Para Roger, conseguir a participação dos filhos exige mais do que apresentar um plano atraente. Para os irmãos, aceitar o trabalho significa conviver com um pai ausente e com um parente recém-descoberto. Há espaço para ressentimento, competição e situações engraçadas, sobretudo porque ninguém dispõe de tempo para assimilar tudo isso. O problema é que o roteiro prefere empilhar provocações a desenvolver essas relações.

Um pai cheio de planos

Tucci dá a Roger a elegância de um homem acostumado a pedir coisas absurdas sem perder a compostura. Ele fala com segurança e trata o roubo de uma das pinturas mais famosas do mundo com uma tranquilidade quase ofensiva. Seu comportamento tem graça porque os filhos precisam resolver duas questões de uma vez. Devem avaliar a proposta do ladrão e decidir quanto estão dispostos a ouvir daquele pai.

O ator sustenta boa parte do interesse pela aventura. Há prazer em acompanhá-lo interpretando alguém tão satisfeito com a própria esperteza, mesmo quando suas decisões merecem desconfiança. Roger espera obediência, mas Chiara e Jay carregam perguntas que atrapalham essa pretensão. Seria uma boa oportunidade para dar aos jovens alguma vantagem sobre ele. As conversas, porém, frequentemente terminam em outra frase espirituosa, e o pai continua no comando sem precisar enfrentar todas as cobranças que sua presença desperta.

Belmondo e Tabasco ficam com personagens definidos principalmente pelas especialidades e pelo temperamento. Jay tem autoconfiança de sobra. Chiara responde às provocações e assume as tarefas digitais. Os dois precisam parecer capazes de participar de um crime ambicioso, mas recebem poucas oportunidades de demonstrar essa competência durante a preparação. Saber o que cada um faz ajuda a acompanhar a história. Ver como trabalham faria uma diferença maior.

O relógio corre depressa demais

Roger dispõe de sete dias para preparar o assalto. O prazo deveria tornar cada escolha mais difícil, obrigando o trio a estudar a segurança do Louvre e calcular os riscos de suas intervenções. Vincent, entretanto, passa pelos preparativos com tanta pressa que deixa pouco espaço para o espectador acompanhar o raciocínio dos envolvidos.

Esse é um problema importante em uma história de roubo. Parte da diversão está em conhecer uma dificuldade e observar alguém elaborar uma solução engenhosa. Quando os detalhes ficam pelo caminho, qualquer sucesso pode parecer conveniente demais. Chiara e Jay são apresentados como especialistas, mas os termos técnicos e a agitação não bastam para convencer de que o grupo sabe o que está fazendo.

O Louvre também exige mais atenção do que recebe. A fama do museu e da Mona Lisa torna a ambição de Roger compreensível sem grandes apresentações. Ainda assim, é necessário estabelecer algumas condições para que a invasão tenha peso. Quais dificuldades exigem as habilidades dos filhos? Quanto depende da experiência do pai? A preparação oferece poucas referências para avaliar essas questões. Durante o assalto, fica difícil distinguir um imprevisto de uma falha que já deveria ter sido considerada.

Piadas que passam do ponto

A convivência entre Chiara e Jay traz outro incômodo. Antes de descobrirem o parentesco, os dois flertam. A situação poderia render uma reação constrangida e dar lugar a uma nova maneira de se relacionarem. A entonação sedutora, porém, permanece nas provocações mesmo depois da revelação. A insistência desgasta uma brincadeira que já havia cumprido sua função.

Roger também participa desse esforço constante para arrancar risadas. Suas maneiras refinadas contrastam com comentários vulgares, numa repetição que perde força ao longo das conversas. Tucci consegue dar algum sabor às falas, mas o talento do intérprete tem alcance limitado quando quase toda interação pede outra tirada atrevida.

Faz falta uma pausa para que alguém escute o outro. Os filhos têm motivos para cobrar explicações, enquanto o pai depende da colaboração deles para chegar ao quadro. Essas necessidades deveriam interferir nas tarefas e nas decisões do grupo. Em vez disso, muitas discussões familiares ficam restritas a comentários que pouco mudam a convivência. O trio segue trabalhando junto, mas a confiança necessária para sustentar essa parceria permanece pouco desenvolvida.

Muito movimento, pouca precisão

Thomas Vincent aposta em cortes frequentes e mudanças de situação para manter a aventura movimentada. Durante o roubo, entretanto, a velocidade cobra o preço dos preparativos superficiais. As surpresas se acumulam sem que todos os detalhes anteriores tenham recebido a atenção necessária. O espectador acompanha a correria, mas nem sempre tem informações suficientes para apreciar a suposta engenhosidade de Roger.

A lembrança de “Onze Homens e um Segredo” surge pela combinação de charme, especialistas e um alvo difícil. A diferença está no cuidado com as pequenas informações. Uma boa artimanha ganha força quando algo aparentemente secundário passa a ter utilidade. Em “Masterplan”, o excesso de atalhos enfraquece esse prazer e faz o trio depender demais das facilidades oferecidas pelo roteiro.

Resta o carisma de Tucci, que preserva alguma simpatia por um pai com uma maneira bastante questionável de retomar contato com os filhos. A reunião familiar poderia ter dado personalidade ao assalto, sobretudo se Chiara e Jay tivessem mais espaço para cobrar Roger enquanto trabalhavam com ele. Entre piadas repetidas e preparativos apressados, os três chegam ao Louvre sem que a convivência tenha recebido o mesmo investimento dedicado à correria pelos corredores.


Filme: Masterplan
Diretor: Thomas Vincent
Ano: 2026
Gênero: Ação/Comédia/Crime/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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