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Em novembro de 1979, após militantes ocuparem a Embaixada dos Estados Unidos em Teerã, seis funcionários americanos escapam e buscam abrigo na residência do embaixador canadense Ken Taylor (Victor Garber). Cercados por uma cidade sob forte vigilância e ameaçados pela descoberta de seus nomes, eles passam a depender de Tony Mendez (Ben Affleck), especialista da CIA enviado para tirá-los do Irã sob o disfarce de uma equipe canadense de cinema. Dirigido por Affleck, “Argo” transforma essa operação real num suspense político sobre pessoas obrigadas a representar para sobreviver.

A invasão ocorre depois que os Estados Unidos concedem asilo ao antigo xá Mohammad Reza Pahlavi, deposto durante a Revolução Iraniana. Enquanto dezenas de americanos permanecem reféns, Bob Anders (Tate Donovan), Mark Lijek (Christopher Denham), Cora Lijek (Clea DuVall), Joe Stafford (Scoot McNairy), Kathy Stafford (Kerry Bishé) e Lee Schatz (Rory Cochrane) conseguem deixar o prédio antes que as saídas sejam bloqueadas.

Os seis chegam à casa de Ken Taylor, onde precisam permanecer escondidos. A permanência se estende por semanas e coloca em perigo o embaixador, sua família e os funcionários canadenses. Sahar (Sheila Vand), responsável pelos serviços domésticos, percebe que os visitantes não são exatamente os hóspedes comuns anunciados por Taylor. Ela sabe pouco sobre aquelas pessoas, mas já carrega parte do risco.

Dentro da embaixada ocupada, militantes começam a remontar fotografias e documentos que os funcionários americanos destruíram antes da invasão. Os pedaços revelam rostos, cargos e nomes. Quando o trabalho estiver completo, os invasores poderão descobrir que seis integrantes do corpo diplomático desapareceram. A casa de Taylor oferece proteção provisória, mas o tempo disponível diminui a cada fotografia recuperada.

A CIA descarta planos frágeis

Em Washington, Jack O’Donnell (Bryan Cranston), supervisor da CIA, chama Tony Mendez para avaliar as alternativas preparadas pelo governo. Entre as propostas estão entregar bicicletas aos fugitivos para que atravessem a fronteira e apresentá-los como professores estrangeiros. Tony descarta ambas. As estradas estão bloqueadas, as distâncias são enormes e as escolas internacionais já haviam encerrado suas atividades.

A ideia aproveitável surge quando Tony conversa com o filho, que assiste a uma produção de ficção científica na televisão. O agente imagina uma história capaz de justificar a presença daqueles americanos no país. Eles receberiam passaportes canadenses e assumiriam cargos numa equipe de cinema interessada em pesquisar locações no Irã. Tony entraria em Teerã como produtor e sairia acompanhado pelos seis integrantes do suposto projeto.

A proposta parece absurda, inclusive para os colegas da CIA. Ainda assim, oferece algo que os outros planos não possuem. Uma equipe cinematográfica estrangeira poderia viajar com câmeras, roupas incomuns, desenhos e documentos sem despertar a mesma suspeita de professores, missionários ou turistas. Para funcionar, porém, a produção precisaria existir fora dos arquivos secretos do governo. Uma ligação para Hollywood não poderia terminar num telefone mudo.

Hollywood dá corpo à mentira

Tony procura John Chambers (John Goodman), maquiador premiado que já prestou serviços à CIA. Chambers aceita participar, mas avisa que escritório e cartões de visita não bastam. Qualquer funcionário interessado poderia procurar anúncios, notícias, produtores e registros comerciais. A solução é montar uma empresa completa, mesmo que ela nunca filme um único minuto.

Chambers apresenta Tony a Lester Siegel (Alan Arkin), produtor veterano que conhece os hábitos e as vaidades de Hollywood. Lester recebe a missão com a serenidade de quem provavelmente já ouviu propostas piores em reuniões verdadeiras. Juntos, eles criam a Studio Six Productions, escolhem um roteiro de aventura espacial chamado “Argo” e preparam cartazes, ilustrações, anúncios e uma leitura pública para jornalistas.

As passagens por Los Angeles dão leveza à história sem tratar o perigo como brincadeira. Chambers e Lester sabem que a farsa precisa obedecer às regras da indústria. Compram os direitos do roteiro, divulgam a produção e deixam uma equipe disponível para atender telefonemas. O projeto falso ganha escritório, endereço, cobertura da imprensa e gente suficiente para parecer mais organizado que muito filme realmente produzido.

Ben Affleck usa essa diferença de ambientes com inteligência. Em Hollywood, homens experientes fabricam credibilidade usando papel, publicidade e lábia. Em Teerã, seis pessoas dependem desses materiais para continuar vivas. Uma notícia plantada numa revista de cinema deixa de ser simples propaganda e passa a proteger pessoas a milhares de quilômetros.

Seis diplomatas precisam atuar

Tony entra no Irã usando o nome de Kevin Harkins e recebe de Ken Taylor os passaportes canadenses destinados aos hóspedes. Cada fugitivo ganha uma identidade profissional, uma biografia e uma função dentro da equipe. Eles precisam decorar onde trabalham, por que escolheram o Irã, qual história pretendem filmar e o que fazem numa produção cinematográfica.

Joe Stafford desconfia do plano e teme colocar Kathy em perigo ainda maior. Sua resistência dá ao grupo uma reação bastante humana. A ideia de atravessar controles iranianos fingindo interesse por cenários espaciais parece quase ofensiva diante da gravidade da situação. Tony admite que a proposta está longe de ser segura, mas insiste que permanecer naquela casa também deixou de oferecer proteção.

O treinamento expõe a fragilidade dos seis. Eles são funcionários diplomáticos, não agentes clandestinos. Precisam controlar o nervosismo, adotar comportamentos profissionais e responder sem hesitação. Um passaporte falso pode enganar os olhos, mas não salva quem esquece o próprio cargo durante uma pergunta simples.

Para sustentar a cobertura, a equipe participa de uma visita ao Grande Bazar de Teerã. Câmeras, desenhos e comentários sobre locações justificam a presença dos estrangeiros, mas também atraem atenção. Comerciantes observam o grupo, guias fazem perguntas e a barreira do idioma deixa os americanos dependentes das identidades que acabaram de memorizar. A pesquisa de cenários passa a valer como ensaio público, cercado por testemunhas e guardas.

O suspense cabe num passaporte

A montagem de William Goldenberg alterna Teerã, Washington e Los Angeles sempre que uma autorização, passagem ou informação precisa atravessar fronteiras. Jack tenta manter a operação autorizada, enquanto Chambers e Lester preservam a Studio Six disponível para qualquer verificação. Tony, por sua vez, precisa preparar seis pessoas antes que os documentos remontados na antiga embaixada revelem quem está faltando.

Affleck administra bem essas informações e raramente confunde o espectador. O público sabe o que precisa estar pronto, quem pode impedir a saída e por que uma ligação telefônica possui tanto peso. A tensão nasce de objetos comuns. Passaportes, fotografias, bilhetes aéreos e um roteiro de ficção científica carregam mais perigo que armas.

A representação dos iranianos, entretanto, permanece limitada. Muitos surgem como guardas, integrantes de multidões ou funcionários desconfiados, enquanto a perspectiva americana domina quase toda a história. A participação canadense também recebe menos espaço que Tony e a CIA. Ken Taylor assume riscos enormes, oferece abrigo e documentos, mas a produção prefere manter o agente americano no centro das decisões.

Essas escolhas não anulam a eficiência de “Argo”, embora deixem a reconstrução histórica mais estreita do que poderia ser. Affleck entrega um suspense ágil, compreensível e surpreendentemente divertido, sustentado por personagens que precisam vender uma produção inexistente a homens autorizados a prendê-los. Na hora de deixar a casa de Taylor, os seis levam passaportes canadenses, biografias decoradas e a obrigação de atuar sem direito a uma segunda tomada.


Filme: Argo
Diretor: Ben Affleck
Ano: 2012
Gênero: Biografia/Drama/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
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