Na Argentina contemporânea, o psicanalista Ulises Verón (Ricardo Darín) começa a interferir na vida dos pacientes porque perdeu a confiança nos resultados da terapia tradicional. Famoso, requisitado e acostumado a dar conselhos na televisão, ele acredita que escutar já não basta. Essa insatisfação dá início a “A Terapia Certa”, comédia de 2026 dirigida por Hernán Goldfrid, na qual um profissional cheio de certezas recebe um paciente com problemas que resistem às suas soluções.
O recém-chegado é Martín Bouchard (Diego Peretti), escritor reconhecido que atravessa um bloqueio criativo e tem uma relação prejudicial com o álcool. Ele procura tratamento para voltar a escrever, mas associa a bebida à capacidade de produzir literatura. Abandonar um hábito que compromete sua saúde significa, em sua cabeça, arriscar também o trabalho que lhe trouxe reconhecimento. Para alguém acostumado a interferir nos problemas alheios, Verón acaba de receber uma questão bastante inconveniente.
Um terapeuta cansado de escutar
Antes da chegada de Bouchard, o médico já demonstra desconforto com a própria carreira. Ao rejeitar um prêmio, admite a distância entre o prestígio acumulado e aquilo que acredita ter feito pelos pacientes. A homenagem deveria confirmar seu sucesso. Para ele, porém, aceitar o reconhecimento seria ignorar as pessoas que continuaram sofrendo apesar das consultas.
É uma boa abertura porque dá alguma humanidade a um sujeito que poderia ser apenas um especialista arrogante. Verón deseja ajudar e tem dúvidas legítimas sobre os resultados do trabalho. O problema começa quando transforma essa frustração em licença para agir por conta própria. Convencido de que sabe o que precisa mudar, passa a manipular situações da vida dos pacientes sem que eles saibam.
Darín tem material de sobra nesse personagem. A segurança com que Verón se expressa ajuda a explicar por que tanta gente deposita confiança nele. Suas participações na televisão reforçam a imagem de um homem capaz de resolver assuntos que, para os outros, parecem insolúveis. Só que falar com convicção é uma coisa. Ter conhecimento suficiente sobre a vida de quem pede ajuda exige bem mais do que uma boa presença diante das câmeras.
O paciente quer continuar escrevendo
Bouchard se interessa pelo estilo pouco convencional do terapeuta e procura seu consultório com uma expectativa específica. Quer recuperar a escrita. A bebida faz parte do problema, mas também ocupa um lugar na ideia que construiu sobre o próprio talento. Tratar esse homem exige considerar o medo de perder a profissão, o reconhecimento e uma parte importante de sua identidade.
Peretti oferece um bom contraponto à autoridade de Darín. Seu personagem chega precisando de ajuda, mas isso não o torna disposto a aceitar qualquer recomendação. Ele tem argumentos, vaidade e uma imagem de si mesmo que pretende preservar. A consulta reúne dois homens habituados a ser ouvidos, agora obrigados a lidar com alguém que pode contestá-los.
As melhores passagens nascem dessa convivência. Verón quer apresentar resultados, enquanto Bouchard deseja melhorar sem abrir mão daquilo que considera indispensável para criar. Existe uma graça incômoda na expectativa de resolver tamanho impasse com um conselho certeiro. Quanto mais simples parece a solução oferecida, maior fica a distância entre a confiança do terapeuta e a dificuldade de colocá-la em ação.
Darín e Peretti sustentam a conversa
O humor de “A Terapia Certa” é ácido, apoiado em ironia, impaciência e pequenas disputas de autoridade. A piada depende menos de situações espalhafatosas do que da maneira como esses homens defendem suas razões. O profissional pode soar razoável até deixar escapar a própria presunção. O escritor pode despertar simpatia e, pouco depois, revelar quanto deseja preservar os hábitos que o levaram ao consultório.
A dupla é o principal motivo para acompanhar essa relação. Darín e Peretti dão interesse a conversas que poderiam ficar pesadas nas mãos de atores menos à vontade com as contradições dos personagens. Há espaço para rir da autoconfiança de Verón sem esquecer que suas intervenções envolvem pessoas vulneráveis. Também é possível reconhecer o sofrimento de Bouchard sem comprar todas as justificativas que ele apresenta.
O roteiro de Emanuel Diez parte, portanto, de uma situação rica. Um homem procura tratamento porque não consegue trabalhar. Outro, insatisfeito com a profissão, acredita ter descoberto uma maneira mais eficiente de exercê-la. Cada um espera que o encontro confirme alguma coisa sobre si. Essa expectativa já seria suficiente para sustentar uma comédia desconfortável sobre vaidade e dependência.
Quando a consulta perde espaço
Goldfrid, porém, acrescenta suspense, investigação e complicações que disputam espaço com o atendimento. A combinação desperta curiosidade, mas nem sempre favorece o vínculo entre os protagonistas. Algumas questões promissoras recebem menos atenção do que mereciam, enquanto novas situações pedem um envolvimento que o roteiro ainda não conquistou.
O problema está nessa dispersão. Quando Verón e Bouchard discutem tratamento, criação e responsabilidade, existe uma dificuldade humana reconhecível em jogo. À medida que outras surpresas ganham importância, o interesse por essas questões enfraquece. A sensação é de acompanhar boas ideias que começam a ser desenvolvidas e logo cedem lugar à próxima mudança de direção.
“A Terapia Certa” continua agradável pela presença dos atores e pela acidez de algumas conversas, mas deixa a impressão de que poderia ter confiado mais neles. O encontro entre Darín e Peretti promete uma comédia capaz de incomodar enquanto diverte. O resultado é mais irregular, com passagens saborosas e desvios pouco convincentes. Bouchard entra no consultório querendo voltar a escrever. É quando permanece perto desse pedido, e das dificuldades de Verón para atendê-lo, que Goldfrid consegue prender a atenção.

