Carly (Elisha Cuthbert) viaja com cinco amigos para assistir a uma partida de futebol americano quando uma parada para dormir compromete os planos do grupo. Seu irmão, Nick (Chad Michael Murray), e a amiga Paige (Paris Hilton) estão entre os passageiros dessa excursão pouco organizada. Em “A Casa de Cera”, de 2005, dirigido por Jaume Collet-Serra, os jovens precisam escapar de uma cidade onde buscar ajuda os aproxima de uma ameaça. Antes disso, porém, há um problema bastante reconhecível para quem já viajou em turma. Basta alguém criar confusão para todos perderem a tranquilidade.
Durante o acampamento, um motorista estaciona uma caminhonete com os faróis apontados para os amigos e permanece ali, sem oferecer explicação. Nick reage atirando uma garrafa contra um dos faróis, encerrando o encontro com uma provocação desnecessária. Murray dá ao personagem a arrogância de quem confunde coragem com disposição para arrumar briga. Collet-Serra prolonga a presença daquele veículo até o desconforto contaminar uma situação inicialmente banal. Pela manhã, Wade (Jared Padalecki), namorado de Carly, encontra a correia do carro danificada. A discussão da noite anterior deixa de ser o único aborrecimento, porque parte do grupo agora depende de transporte e de uma peça de reposição.
Ambrose oferece ajuda e silêncio
Lester (Damon Herriman), um homem que recolhe animais mortos na estrada, oferece uma carona para Carly e Wade. O destino é Ambrose, onde o casal espera encontrar o necessário para consertar o veículo e retomar a viagem. Aceitar o transporte tem uma razão compreensível, embora a companhia esteja longe de inspirar sossego. Há certa maldade divertida nessa escolha. O sujeito com a ocupação mais desagradável da região acaba sendo a alternativa disponível para dois turistas sem carro. Ao deixarem os amigos para trás, os namorados também perdem a proteção de circular acompanhados por pessoas conhecidas.
Em Ambrose, as ruas vazias tornam qualquer gentileza mais importante do que deveria. Carly e Wade encontram Bo (Brian Van Holt), um mecânico que oferece a possibilidade de conseguir a correia. Ele está ocupado com um funeral, o que obriga os visitantes a esperar. Van Holt sustenta uma cordialidade áspera, suficiente para manter o casal por perto sem dissipar a desconfiança. O roteiro escrito por Chad Hayes e Carey W. Hayes exige alguma tolerância com essa sucessão de esperas. Ainda assim, a necessidade da peça dá uma razão concreta à permanência dos dois. Sair andando significaria abandonar a única perspectiva de reparo encontrada até então.
O museu prende a atenção
Enquanto aguardam, Carly e Wade visitam a Casa de Cera de Trudy, a atração turística que dá alguma identidade ao lugar. As figuras reproduzem pessoas com um cuidado perturbador, sobretudo numa cidade onde quase ninguém aparece para receber visitantes. Collet-Serra permite que o casal observe as esculturas antes de apressar a ameaça, ou melhor, deixa os dois gastarem o tempo da espera examinando rostos imóveis cuja aparência começa a tornar aquela visita menos confortável do que parecia na entrada. A curiosidade os leva para dentro de um espaço desconhecido. A distância até o acampamento passa a pesar mais.
Diante das esculturas, Cuthbert dá a Carly uma atenção inquieta, que ajuda a sustentar o desconforto sem exigir sustos a cada corredor. O diretor demora um pouco além da conta para colocar todas as peças em movimento. A visita, entretanto, prende os namorados em Ambrose enquanto o restante da turma continua sem notícias deles.
A distância separa os amigos
Nick e Dalton (Jon Abrahams) acabam indo atrás dos companheiros, enquanto Paige e Blake (Robert Ri’chard) permanecem ligados ao acampamento. A separação distribui os jovens por lugares onde cada um conhece apenas parte do que está acontecendo. É nessa diferença de informação que Collet-Serra encontra seus melhores momentos de suspense. Quem procura os amigos pode interpretar uma orientação como ajuda, enquanto o espectador já tem razões para desconfiar. Hilton recebe uma personagem com pouco espaço para ganhar espessura, assim como outros integrantes da turma. Quando precisam reagir, porém, a distância entre eles impede que qualquer pedido de socorro reúna todos.
Carly sustenta melhor o interesse porque Cuthbert transforma desconforto em atenção e medo em esforço físico, sem fazer da personagem uma especialista em sobrevivência. Collet-Serra também merece crédito por aproveitar a presença material da cera. Os rostos imóveis e as superfícies cuidadosamente moldadas tornam desagradável até a vontade de olhar mais perto. As conveniências do roteiro continuam perceptíveis, especialmente quando alguém insiste em permanecer onde qualquer visitante já procuraria a saída. Mas a busca pela correia estabelece uma dependência convincente o bastante para iniciar o pesadelo. O jogo fica para depois, enquanto os amigos tentam encontrar uns aos outros e recuperar o caminho até a estrada.

