Riley McKendry (Odessa A’zion) tenta abandonar as drogas e recuperar a confiança do irmão quando um furto coloca em suas mãos um objeto perigoso. Ambientado nos Estados Unidos contemporâneos, “Hellraiser: Renascido do Inferno”, de 2022, acompanha a busca da jovem por Matt (Brandon Flynn), que desaparece depois de entrar em contato com uma misteriosa caixa de peças móveis. Dirigido por David Bruckner, o terror parte de uma relação familiar desgastada para apresentar criaturas que tratam o sofrimento humano com uma educação assustadora.
Antes de qualquer aparição sobrenatural, Riley já enfrenta dificuldades dentro de casa. Matt a acolheu no apartamento onde mora com o namorado, Colin (Adam Faison), e a amiga Nora (Aoife Hinds). A convivência exige paciência de todos, sobretudo porque ele desconfia de Trevor (Drew Starkey), o namorado da irmã. Riley se ressente da vigilância, enquanto Matt teme assistir a outra recaída. Os dois têm razões para estar cansados, e Bruckner permite que esse desgaste apareça nas conversas sem transformar nenhum deles em vilão doméstico.
Um furto com péssimas surpresas
Trevor propõe invadir um depósito onde acredita haver bens valiosos. Riley aceita porque precisa de dinheiro, e os dois saem de lá com uma caixa que parece prometer algum lucro. Pequena, ornamentada e cheia de partes que se encaixam, ela desperta uma curiosidade compreensível. O problema começa quando suas peças se movem e revelam uma lâmina. O objeto também tem ligação com os Cenobitas, seres de outra dimensão cuja relação com dor e prazer passa longe de qualquer experiência humana tolerável.
Bruckner acerta ao fazer a caixa chegar às mãos de alguém sem conhecimento sobre ocultismo. Riley procura uma saída financeira e acaba com algo que sequer sabe avaliar. Essa distância entre o que ela espera conseguir e aquilo que leva para casa sustenta bem o início. Há uma imprudência reconhecível na decisão, mas a punição é tão desproporcional que o julgamento perde importância. Diante daquele cubo, a falta de dinheiro deixa de ser seu maior problema.
Depois de uma discussão com Matt, Riley sai de casa e mexe no objeto sozinha. O irmão vai procurá-la e, pouco depois, desaparece. Ela passa a investigar a caixa porque suspeita de uma ligação entre os acontecimentos. Para Colin, porém, aceitar essa hipótese significa confiar em alguém que já deu motivos para preocupação. A busca ganha força nessa dificuldade de comunicação. Riley precisa de ajuda, mas suas palavras chegam acompanhadas de um histórico que enfraquece qualquer pedido.
A culpa acompanha a investigação
Odessa A’zion dá à protagonista uma aspereza que favorece o papel. Riley se irrita, reage mal à preocupação alheia e toma decisões questionáveis, mesmo quando tenta reparar um erro. A atriz preserva essas características durante a procura por Matt, sem tornar a personagem mais agradável apenas porque agora está sofrendo. O medo se mistura à culpa, e a urgência de encontrá-lo nasce tanto do afeto quanto da última conversa ruim entre os irmãos.
Esse vínculo dá peso à investigação. Riley procura antigos responsáveis pela caixa e chega a Serena Menaker (Hiam Abbass), ligada ao milionário Roland Voight (Goran Višnjić). As pistas apontam para um passado de riqueza, excessos e interesse por experiências extremas. A jovem avança por um terreno em que outras pessoas já fizeram escolhas perigosas, mas precisa descobrir quais informações podem ajudá-la. Cada resposta acrescenta uma preocupação à busca pelo irmão.
O excesso de instruções, contudo, prejudica alguns trechos. Entre formatos da caixa, exigências e possibilidades, Bruckner interrompe a perseguição para esclarecer regras demais. A curiosidade continua, mas certas conversas têm o peso de um manual que ninguém gostaria de precisar ler. Quando a atenção retorna a Riley e às pessoas que tentam ajudá-la, o perigo recupera sua força. É mais angustiante acompanhar uma decisão tomada sob medo do que decorar todas as condições impostas por aquelas criaturas.
A calma perturbadora de Pinhead
À frente dos Cenobitas, a Sacerdotisa (Jamie Clayton), conhecida como Pinhead, dispensa pressa e gritaria. Sua tranquilidade torna cada aproximação desconfortável. Clayton fala com solenidade, quase com delicadeza, enquanto apresenta possibilidades que envolvem sofrimento físico. A personagem parece perfeitamente à vontade diante daquilo que apavora Riley. Essa diferença entre as duas dá às conversas uma crueldade particular, pois uma pede ajuda e a outra sequer compartilha sua ideia de alívio.
Os corpos dos Cenobitas exigem estômago. Pele aberta, cortes e intervenções anatômicas recebem atenção suficiente para que o espectador observe aquilo que preferiria deixar passar. Bruckner prolonga algumas aparições e permite que o medo venha da espera, antes de qualquer ataque. Nem todas as criaturas recebem o mesmo espaço, mas a presença de Clayton estabelece uma autoridade que dispensa demonstrações constantes de força. Quando ela fala, Riley precisa escutar, mesmo sem saber quanto pode confiar na oferta.
Uma mansão cheia de pistas
A investigação leva à propriedade de Voight, onde registros e passagens escondidas ajudam Riley a compreender a origem da ameaça. A mansão muda a escala da procura. Corredores, portas e espaços fora de vista dificultam a circulação e deixam os visitantes sem segurança sobre quem pode estar por perto. Bruckner aproveita bem essa incerteza, embora algumas separações do grupo dependam de escolhas convenientes demais para o terror continuar.
“Hellraiser: Renascido do Inferno” tem sua melhor sustentação na combinação entre a vulnerabilidade de Riley e a frieza da Sacerdotisa. A investigação poderia ter menos explicações, e os coadjuvantes mereciam mais espaço antes de serem expostos ao perigo. Ainda assim, A’zion mantém o interesse pela protagonista mesmo quando ela erra outra vez. A cada pista sobre Matt, Riley ganha uma razão para insistir e leva quem tenta ajudá-la para mais perto dos Cenobitas.

