Heidi (Anuk Steffen) é uma menina órfã que vive nos Alpes suíços com o avô (Bruno Ganz), até ser levada pela tia para Frankfurt, onde deve fazer companhia à filha de uma família rica. Lançado no Brasil em 2016, “Heidi”, de Alain Gsponer, acompanha essa mudança imposta pelos adultos e o sofrimento de uma criança que precisa abandonar o lugar onde começou a se sentir acolhida. A adaptação do livro de Johanna Spyri ganha força ao tratar essa saudade com delicadeza, sem esquecer que sua protagonista também tem curiosidade, disposição para brincar e vontade própria.
Antes de chegar às montanhas, Heidi está sob os cuidados da tia Dete (Anna Schinz). É ela quem leva a sobrinha para morar com o avô, um homem reservado que mantém distância dos habitantes do vilarejo. A chegada da menina contraria seus hábitos. Ele terá de dividir a cabana e assumir uma responsabilidade que surge sem muita consideração por suas preferências.
Bruno Ganz dá ao personagem uma expressão fechada e uma aspereza que tornam a aproximação entre os dois especialmente bonita. O carinho cresce na convivência, sem que o avô precise abandonar de uma hora para outra seu temperamento. Anuk Steffen, por sua vez, interpreta Heidi com uma espontaneidade que impede a personagem de parecer uma pequena santa encarregada de melhorar todos ao redor. Sua curiosidade ocupa espaço naquela casa e obriga o homem a abrir lugar para ela.
Gsponer acerta ao dar tempo a essa relação. A menina começa a gostar da vida na cabana porque ali recebe atenção e pode participar do cotidiano. Para alguém que depende das escolhas alheias desde tão cedo, essa sensação de pertencimento tem um peso considerável. Quando o vínculo com o avô se firma, outra mudança passa a representar uma perda.
Liberdade entre campos e cabras
Fora da cabana, Heidi conhece Peter (Quirin Agrippi), um menino que pastoreia cabras. A amizade oferece companhia para percorrer os campos e descobrir as montanhas. Os animais, os caminhos e o tempo ao ar livre preenchem os dias dos dois, sem uma sequência de atividades organizada por adultos.
Esses trechos estão entre os mais agradáveis de “Heidi”. A beleza dos Alpes participa da experiência da protagonista, que pode correr, observar e brincar. O cenário ganha importância porque a menina vive nele, em vez de apenas aparecer diante de uma paisagem bonita. O espectador tem tempo de perceber por que ela se apega àquela rotina.
Há também uma leveza na convivência das crianças que combina com o espírito da adaptação. Gsponer não parece preocupado em transformar cada passeio numa lição. Heidi e Peter têm coisas para fazer, interesses em comum e espaço para ocupar. A amizade acrescenta outra razão para que ela queira permanecer perto do avô.
Uma mudança decidida pela tia
Dete interrompe essa vida ao levar a sobrinha para Frankfurt. Na casa dos Sesemann, Heidi poderá receber educação e viver com conforto, além de fazer companhia a Klara (Isabelle Ottmann), uma garota que usa cadeira de rodas. A tia considera as vantagens da proposta, mas dá pouca importância ao que a menina já construiu nas montanhas.
A decisão provoca uma ruptura dolorosa porque chega depois de Heidi criar vínculos. Ela perde a convivência com o avô, os passeios com Peter e a liberdade que havia aprendido a apreciar. A residência rica oferece oportunidades reais, mas nenhuma delas apaga automaticamente a falta dessas pessoas.
Esse é um dos melhores aspectos de “Heidi”. Gsponer permite reconhecer o valor da educação sem tratar a saudade da protagonista como ingratidão. Uma criança pode receber cuidados e, ainda assim, sofrer naquele ambiente. Dete escolhe o destino da sobrinha com a segurança de quem acredita estar ajudando, enquanto Heidi precisa suportar os efeitos da escolha.
Duas meninas numa casa cheia de regras
Klara recebe a visitante com interesse, e as duas se tornam amigas. Isabelle Ottmann interpreta uma menina protegida, cuja rotina oferece poucas possibilidades de convívio com outras crianças. A presença de Heidi traz companhia e experiências diferentes para dentro da residência.
A relação tem afeto dos dois lados. Klara deseja estar perto da nova amiga, e Heidi ganha alguém com quem dividir os dias longe de casa. A garota suíça chega à família para cumprir uma função, mas passa a ocupar um lugar que nenhuma contratação poderia garantir. A amizade torna sua estadia menos solitária, embora não substitua o vínculo com o avô.
A governanta Rottenmeier (Katharina Schüttler) supervisiona essa convivência e cobra um comportamento adequado aos costumes da casa. Para uma menina acostumada aos campos, adaptar-se significa prestar atenção a exigências que antes não faziam parte de sua vida. A mulher parece ter disposição inesgotável para corrigir o que considera impróprio.
Schüttler dá firmeza à personagem, ainda que Gsponer insista um pouco na oposição entre sua rigidez e a espontaneidade de Heidi. Algumas reações poderiam ser menos sublinhadas. O atrito já é suficiente para revelar o desconforto da menina, que passa a depender da aprovação de uma adulta pouco receptiva aos seus hábitos.
O afeto também chega pelos livros
A avó de Klara (Hannelore Hoger) oferece a Heidi uma atenção mais acolhedora e desperta seu interesse pela leitura e pela escrita. A aproximação nasce do incentivo, sem a cobrança constante que marca a relação com Rottenmeier. Os livros acrescentam uma descoberta importante à experiência em Frankfurt.
Essa presença impede que a casa dos Sesemann seja apresentada apenas como um lugar hostil. Heidi conhece pessoas afetuosas, aprende e constrói uma amizade valiosa. Sua saudade permanece porque essas conquistas não anulam aquilo que deixou para trás. Anuk Steffen sustenta bem essa combinação de interesse pelo novo e desejo de voltar.
“Heidi” funciona melhor quando Gsponer confia nessas relações e deixa as atitudes dos adultos revelarem seus acertos e suas falhas. Há ternura, mas também o incômodo de acompanhar uma menina cujo futuro é decidido sem que sua opinião tenha muito peso. A protagonista tenta participar da vida que lhe oferecem, enquanto continua sentindo falta da cabana, de Peter e do avô. Mesmo cercada de conforto, ela quer voltar para casa.

