Muito do que acontece nos intestinos do poder nunca vem a público. Os conchavos, o tráfico de influência, os acordos espúrios, as fortunas transportadas em malas rumo a paraísos fiscais de onde raramente voltam, tudo bancado com dinheiro do contribuinte, usado para tapear esse mesmo pobre contribuinte: tudo isso oculta-se na nuvem das insinuações em “Sobrevivência”, o novo filme de Ben Affleck. Por trás do enxovalho tão banal da política, Affleck conta uma história de cinismo refinado, que escala ao limite do caos narrativo, mas que encontra um eixo e deságua em violência crua. Com uma produção que junta elenco afinado e técnica, o diretor expõe um rol de misérias humanas que vêm à superfície num golpe seco. Longe da unanimidade, Affleck sempre chega aonde quer.
O preço da honra
Só Mark Kimball pode salvar a América. Procurador do estado da Califórnia, Kimball mergulha de cabeça na campanha à prefeitura de Los Angeles, já almejando a eleição à presidência num futuro próximo, e está disposto a fazer o diabo para vencer. Juntamente com os corroteiristas Connor O. McIntyre e Billy Ray, Affleck vai cascavilhando todos os muitos podres desse homem acima do bem e do mal, e tira uns esqueletos do armário, deixando o pior para a iminência do desfecho. Enquanto isso, o candidato, vivido pelo próprio Affleck, passa por um inferno particular quando Denny, seu filho com Abigail, é sequestrado. Essa parece ser sua prova de fogo, mas ele ainda amarga a revelação do adultério de Abigail, e tem de tratar do resgate do menino com Dayle Burton, uma mistura de Connie Corleone e Catherine Tramell. O filme segue por um ligeiro nonsense ao saber-se que Denny está em segurança; o calvário de Kimball não se encerra aí, mas ele é um predador. E sobrevive, claro.

