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No Japão do século 17, os padres portugueses Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver) procuram seu mentor desaparecido, Cristóvão Ferreira (Liam Neeson). Os dois querem descobrir se há verdade nos rumores de que ele abandonou o catolicismo durante a perseguição aos cristãos. Essa busca dá início a “Silêncio”, drama de 2016 no qual Martin Scorsese acompanha homens preparados para defender sua religião, mas pouco familiarizados com o sofrimento de quem precisa praticá-la escondido.

Rodrigues e Garupe têm dificuldade para aceitar que Ferreira tenha renunciado à fé. A notícia abala a imagem do homem que participou da formação dos dois e os leva a uma viagem perigosa. Quando chegam ao Japão, o cristianismo está proibido, os sacerdotes são perseguidos e os moradores que os acolhem também podem ser castigados. Procurar o mentor exige, portanto, depender de pessoas que arriscam a própria vida para ajudá-los. 

Uma chegada cercada de medo

O acesso ao país depende de Kichijiro (Yōsuke Kubozuka), japonês que os religiosos conhecem em Macau. Ele os acompanha na travessia e ajuda a estabelecer contato com comunidades cristãs. É uma companhia inquieta, assustada, distante da segurança com que os estrangeiros falam de suas convicções. Kubozuka dá ao personagem uma fragilidade que merece atenção. Seu medo tem razões muito concretas, num lugar onde ser reconhecido como cristão pode significar uma sentença. 

Os moradores recebem os visitantes com uma alegria que precisa permanecer discreta. Depois de tanto tempo sem sacerdotes, querem confessar, receber os sacramentos e compartilhar suas dificuldades. Para Rodrigues e Garupe, a recepção confirma a importância da missão. Para os anfitriões, ela acrescenta um perigo à rotina. Basta que alguém descubra o esconderijo para que a presença dos padres comprometa toda a comunidade.

Scorsese dá peso a essa diferença. Os portugueses chegam com a expectativa de ajudar, enquanto os japoneses já conhecem as punições que podem sofrer. A gratidão dos fiéis comove, mas também deixa os visitantes numa posição desconfortável. Eles oferecem amparo espiritual e, ao mesmo tempo, precisam aceitar comida, proteção e abrigo de gente que possui muito pouco.

O preço de acolher os padres

Garfield interpreta Rodrigues com delicadeza, sobretudo quando ele escuta os moradores e atende seus pedidos. Há ternura no sacerdote, acompanhada de certa satisfação por se sentir necessário. O ator permite observar as duas coisas sem transformar o personagem numa figura arrogante ou irrepreensível. Rodrigues quer fazer o bem. A dificuldade está em reconhecer quando sua presença aumenta o perigo para aqueles que deseja proteger.

Garupe tem uma postura mais severa. Adam Driver dá ao padre uma firmeza que torna dolorosas as divergências entre os companheiros. Ambos compartilham a mesma formação e vieram procurar Ferreira, mas nem sempre concordam sobre o que aconselhar aos fiéis ameaçados. A experiência no Japão exige decisões que a preparação religiosa dos dois parece incapaz de resolver sem hesitação.

A pergunta ganha um peso terrível quando as autoridades exigem que os suspeitos pisem numa imagem cristã. O gesto deve demonstrar que abandonaram a religião. Para os agentes, basta um movimento do pé. Para quem considera aquela imagem sagrada, obedecer pode significar trair tudo aquilo que sustenta sua vida. Scorsese permanece diante dessa hesitação e permite que o medo apareça antes do castigo. A ameaça já está presente na ordem, nos homens que a impõem e na falta de liberdade para recusá-la. 

A cortesia de quem manda punir

Inoue (Issei Ogata), responsável pela perseguição, fala com uma tranquilidade que torna sua presença especialmente desagradável. Ele pode discutir religião, demonstrar boas maneiras e ordenar crueldades sem parecer perturbado pela convivência entre essas atitudes. Ogata dispensa a fúria ostensiva. Seu personagem dispõe de autoridade suficiente para falar baixo e continuar sendo temido.

O intérprete (Tadanobu Asano) participa das conversas com Rodrigues, que depende dele para compreender os argumentos e apresentar sua defesa. O sacerdote tenta sustentar a validade de sua crença diante de homens que questionam a presença dos missionários no Japão. Entretanto, o debate acontece sob condições impostas pelos perseguidores. São eles que mantêm os cristãos presos e decidem quais pressões aplicar. 

As conversas interessam porque nascem de uma situação concreta. Rodrigues pode argumentar, rezar e insistir, mas nenhuma dessas atitudes lhe garante poder sobre o destino dos prisioneiros. Scorsese aproxima o espectador dessa impotência. Algumas discussões se alongam além do necessário e repetem pontos já apresentados, embora o desconforto da espera permaneça ligado à condição do padre. Ele tem palavras para defender sua fé e poucos recursos para proteger os outros.

A fé diante do sofrimento alheio

A busca por Ferreira perde a simplicidade que tinha antes da viagem. Os dois discípulos partiram querendo esclarecer uma notícia sobre o mentor. No Japão, precisam lidar com pessoas para quem sobreviver até o dia seguinte pode exigir esconder uma oração ou cumprir uma ordem humilhante. Julgar uma renúncia à distância parecia mais fácil do que conviver com as circunstâncias em que ela é exigida.

“Silêncio” é particularmente forte quando Scorsese permanece junto dos moradores e Garfield deixa transparecer a insegurança de Rodrigues. O sacerdote escuta pedidos, oferece consolo e tenta preservar suas convicções, enquanto Inoue faz do sofrimento dos fiéis uma pressão sobre ele. A aflição está nessa distância entre desejar ajudar e conseguir impedir a violência. Rodrigues continua procurando uma resposta, mas os prisioneiros permanecem nas mãos dos homens que ordenam os castigos.


Filme: Silêncio
Diretor: Martin Scorsese
Ano: 2016
Gênero: Drama/Épico/História
Avaliação: 4/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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