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Em Fall River, Massachusetts, no fim do século 19, Lizzie Borden (Ella Beatty) vive sob as ordens de uma família que exige obediência e oferece pouco afeto. O pai, Andrew Borden (Charlie Hunnam), mal se interessa por ela. A madrasta, Abby Borden (Rebecca Hall), transforma a convivência em uma sucessão de humilhações. Quando a empregada Bridget Sullivan (Vicky Krieps) chega à casa, Lizzie ganha uma confidente e começa a desejar uma vida além daqueles cômodos. Essa aproximação sustenta “Monstro: A História de Lizzie Borden”, temporada de 2026 da série criada por Ryan Murphy e Ian Brennan, com direção de Max Winkler. O romance nasce dentro de um lar opressivo e se mistura ao caso criminal que tornou o sobrenome Borden conhecido.

Antes da chegada de Bridget, Lizzie ocupa um lugar desconfortável na própria família. Andrew mantém a autoridade de pai, mas deixa o cuidado emocional por conta de ninguém. Abby preenche esse vazio com hostilidade. A jovem passa boa parte do tempo sozinha e se apega às aves que cria, uma das poucas fontes de companhia em sua rotina.

O ambiente ajuda a perceber por que uma conversa ou um gesto de atenção podem ter tanto valor para ela. Bridget chega para trabalhar, mas sua presença logo ultrapassa as tarefas domésticas. Ela escuta Lizzie, conta histórias e apresenta experiências que a filha dos patrões desconhece. Dentro de uma casa em que quase todos parecem ter uma opinião sobre seu comportamento, finalmente alguém demonstra interesse pelo que ela sente.

Essa mudança dá ao início da temporada sua força. O afeto surge em pequenas aproximações, cercado por diferenças de posição social e pela vigilância familiar. Lizzie pertence à família que paga o salário de Bridget, embora também esteja submetida às regras dos adultos. As duas compartilham o mesmo endereço, mas dependem dos Borden de maneiras distintas.

A amizade desperta outros desejos

A convivência entre Lizzie e Bridget ganha intimidade e se transforma em uma relação amorosa. Para a protagonista, o vínculo traz descobertas afetivas e sexuais que sua criação havia mantido longe. Para a empregada, a companhia também oferece uma possibilidade de escapar da solidão. O desejo de liberdade passa a aproximá-las tanto quanto a atração.

Vicky Krieps dá vida a essa relação com uma presença que desperta curiosidade. Sua Bridget possui uma experiência de mundo que falta a Lizzie, e essa diferença torna os encontros interessantes. Há carinho, mas também influência. A jovem começa a imaginar outras possibilidades porque alguém lhe apresenta um horizonte maior que o permitido pelo pai e pela madrasta.

Ella Beatty, por sua vez, interpreta Lizzie com vulnerabilidade suficiente para conquistar simpatia. A atuação faz o público reconhecer a carência daquela mulher antes de pensar no nome associado ao crime. É uma escolha compreensível, mas Murphy e Brennan insistem tanto em protegê-la que acabam prejudicando a personagem.

Andrew e Abby acumulam atitudes cruéis, enquanto Lizzie recebe sucessivas razões para despertar compaixão. A distribuição deixa pouco espaço para dúvidas sobre seus sentimentos. Uma mulher envolvida em um caso tão controverso poderia reunir fragilidade, ressentimento, egoísmo e desejo sem precisar ter cada impulso acompanhado de uma justificativa. Aqui, o sofrimento frequentemente chega antes e já prepara sua defesa.

Outras mulheres atravessam a história

Bridget também lê para Lizzie relatos sobre Elizabeth Báthory, a nobre húngara associada a histórias de assassinatos e banhos de sangue. Nessas passagens, Krieps assume outro papel, e a temporada abandona temporariamente a residência dos Borden para visitar castelos iluminados por velas. A mudança de ambiente dá ao horror uma intensidade que falta em alguns trechos da história principal.

Essas incursões têm personalidade e despertam interesse por uma figura cercada de relatos macabros. O problema é que elas também deixam a impressão de que existe outra série, talvez mais instigante, disputando espaço com Lizzie. Quando a ação retorna a Fall River, a curiosidade pelas mulheres apresentadas nas leituras nem sempre desaparece junto com a mudança de cenário.

Sarah Paulson acrescenta outra presença marcante ao interpretar Aileen Wuornos em passagens ambientadas décadas depois. A participação permite aproximar mulheres de épocas diferentes, todas associadas a crimes que atraíram atenção pública. Essa ligação pertence à construção ficcional da temporada e não deve ser confundida com uma relação histórica comprovada entre Wuornos e Borden. 

Paulson aproveita o espaço e dá a Aileen uma energia capaz de renovar o interesse. Sua participação tem força própria, assim como as aparições de Báthory. São personagens que chegam, ocupam a tela e deixam uma ausência perceptível quando saem. Lizzie, embora permaneça no centro da produção, nem sempre recebe material tão estimulante.

O crime fica atrás do romance

A aproximação amorosa oferece uma leitura possível para a vida de Lizzie, mas passa a carregar uma responsabilidade excessiva. O relacionamento precisa explicar sua transformação, sustentar a expectativa pelo crime e justificar a busca por liberdade. Sob esse peso, a protagonista perde parte das contradições que poderiam torná-la mais interessante.

Charlie Hunnam e Rebecca Hall contribuem para o desconforto da convivência familiar, porém seus personagens ficam presos a funções estreitas. Ele negligencia, ela maltrata. Ao repetir essas características, os criadores tornam previsíveis os atritos dentro da casa. A tensão depende cada vez mais da espera pelo rompimento daquela rotina.

Ainda há bons motivos para continuar assistindo. O elenco mantém o interesse mesmo quando a história demora a avançar. Os ambientes de época ajudam a compor o isolamento, e as músicas de The Doors e The Runaways acrescentam uma ousadia que combina com a liberdade assumida pela adaptação.

“Monstro: A História de Lizzie Borden” ganha quando permite que suas personagens expressem desejo, raiva e curiosidade sem explicar cada sentimento. Perde quando transforma o sofrimento de Lizzie em defesa permanente. A relação com Bridget oferece o vínculo mais importante da temporada, mas o cuidado em conquistar a simpatia do público deixa uma pergunta incômoda. Depois de tantas justificativas, ainda falta conhecer melhor a mulher que vive naquela casa.


Filme: Monstros: A História de Lizzie Borden
Diretor: Ian Brennan e Ryan Murphy
Ano: 2026
Gênero: Crime/Drama/Terror
Avaliação: 4/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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