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Um candidato costuma prometer que cuidará dos filhos dos outros. Mark Kimball ainda não precisou descobrir quanto lhe custaria cumprir essa promessa, e “Sobrevivência” (2026) aproveita o intervalo entre a declaração pública e a despesa privada para submetê-lo a um suplício bastante oportuno. Às vésperas da eleição para a prefeitura de Los Angeles, o político interpretado por Ben Affleck recebe a notícia de que seu menino foi sequestrado. A exigência de sete milhões de dólares encontra uma família de boa aparência e contas muito menos saudáveis: Mark vinha consumindo as reservas do casal para manter a campanha em movimento. O dinheiro que deveria garantir o futuro da casa fora empregado na promoção de seu chefe.

Affleck, também diretor e corroteirista, dá ao personagem uma habilidade sua, a fluência em espanhol, e a emprega de maneira reveladora. Mark pode conversar com eleitores latinos sem depender de tradução, o que reforça a imagem de um homem capaz de atravessar distâncias sociais. O ator concebeu essa desenvoltura como uma qualidade que o candidato sabe exibir em benefício próprio. A escolha ganha peso à medida que a história sai do círculo dos Kimball e alcança pessoas cuja relação com aquela cidade é muito mais precária. Falar a língua de alguém, afinal, deixa bastante espaço para não escutá-lo.

A casa já estava mal antes do telefonema. Abigail, a esposa de Kerry Washington, participa da carreira do marido com um cansaço que o retrato de família não comporta, e ambos mantêm em circulação versões incompletas do que fazem. O sequestro obriga-os a negociar sem a possibilidade de adiar outra vez a conversa. Washington encontra matéria nesse acúmulo: a urgência materna convive com a descoberta de que o homem ao seu lado tomou decisões que comprometem a capacidade dos dois de reagir. A confiança, de que tanto se fala em campanhas, torna-se um recurso escasso justamente onde ele julgava poder contar com crédito ilimitado.

Uma casa oferecida em garantia

Há um bom suspense no movimento de pessoas entrando numa residência rica para oferecer soluções que os donos já não conseguem comprar. Dayle Burton, a articuladora de Gillian Anderson, assume a crise com uma tranquilidade quase ofensiva. Exige informações, estabelece condições e sabe atribuir valor ao desespero. A atriz evita o prazer espalhafatoso da vilã que saboreia a vantagem; sua Dayle trabalha, e a secura com que trabalha torna mais desagradável a transação. A escritura de uma casa pode mudar de mãos enquanto seus moradores ainda tentam entender o que aconteceu. É um dos detalhes mais incisivos do filme: a propriedade tão capaz de impressionar visitas passa a ser avaliada por alguém interessada em quanto poderá extrair dela.

O assessor Sam, vivido por Steven Yeun, conserva os compromissos eleitorais no horizonte mesmo quando parece indecente lembrar que haverá votação. Essa insistência ajuda a compreender o ambiente ao qual Mark se habituou. Tudo comporta um cálculo de repercussão; uma aparição pode ser decisiva, uma ausência pode alimentar suspeitas. Affleck não precisa transformar o candidato num demônio para mostrar o estrago. Seu rosto conhecido, a familiaridade com que ocupa uma sala e a prontidão para explicar-se já oferecem um homem plausível, inclusive na capacidade de acreditar nas justificativas que produz. O filme encontra sua aspereza quando deixa que esse sujeito continue funcionando como político em circunstâncias nas quais se esperaria outra coisa.

Ramón e o preço de pedir ajuda

Ramón, de Luis Gerardo Méndez, e Cecilia, a governanta interpretada por Adriana Paz, ampliam o alcance da noite. A vulnerabilidade do trabalhador sem documentos modifica o sentido de providências que, para os Kimball, pareciam disponíveis desde o começo. Recorrer à polícia, por exemplo, tem consequências muito distintas para quem vive sob risco de deportação. O desespero de Ramón precisa atravessar também a barreira do idioma e o desconforto de pedir ajuda num lugar onde as decisões são tomadas por outras pessoas. Méndez dá à aflição um destino concreto, o filho; por isso, a presença dele incomoda mais do que os momentos em que o roteiro procura anunciar a crueldade de toda a sociedade.

Affleck nem sempre resiste a esse anúncio. “Animals”, o título original, oferece uma metáfora que o filme tem demasiada vontade de explicar, e certas falas diminuem a dúvida ao entregar a interpretação junto com o acontecimento. O choque entre a casa dos Kimball e o desamparo de Ramón já permite perceber o que está em jogo. Insistir na brutalidade escondida sob as boas maneiras torna o argumento mais previsível do que as pessoas. Ainda assim, há um mal-estar que sobrevive à explicação, concentrado na facilidade com que a campanha recupera sua importância. O filho de alguém continua em perigo, e o candidato tem uma agenda a cumprir.


Filme: Sobrevivência
Diretor: Ben Affleck
Ano: 2026
Gênero: Crime/Drama/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
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