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Os monstros de “Hellraiser: Renascido do Inferno” (2022) parecem ter uma opinião muito elevada sobre os serviços que oferecem. A dor que infligem pode ser recebida como uma dádiva, e o desacordo das vítimas não abala a convicção de quem se considera capaz de ampliar os limites da experiência humana. David Bruckner encontra nessa serenidade horrenda a melhor razão para retornar ao universo de Clive Barker. Sua reinvenção tem uma jovem em recuperação da dependência química no centro, mas os Cenobitas continuam convencidos de que sabem atender a desejos que nós mesmos desconhecemos. A polidez de Jamie Clayton, na figura da Sacerdotisa conhecida como Pinhead, torna bastante difícil antecipar o que virá depois de uma pergunta.

A origem está em “The Hellbound Heart”, a novela de Barker que o próprio escritor levou ao cinema em 1987. Bruckner preserva a caixa enigmática e a confusão entre prazer e sofrimento, enquanto desloca o interesse para a compulsão de Riley, interpretada por Odessa A’zion. Essa mudança corresponde a uma decisão de adaptação assumida pelo diretor: diante da dificuldade de reunir o erotismo e a violência do original numa produção americana contemporânea, a dependência lhe ofereceu outro modo de investigar a relação entre desejo e responsabilidade. A solução tem consequências. O filme ganha proximidade com a desordem cotidiana da protagonista, embora perca parte do desconforto sexual que tornava as criaturas de Barker tão distintas dos assassinos habituais do gênero.

Riley vive sob a vigilância preocupada do irmão, Matt, de Brandon Flynn, e reage às tentativas de proteção como se todas fossem ingerências intoleráveis. Trevor, o namorado vivido por Drew Starkey, oferece uma oportunidade de conseguir dinheiro que termina com a descoberta da caixa. A’zion mantém a moça num estado de irritação que às vezes afasta o espectador, mas que faz sentido para alguém cansada de ter cada gesto examinado. O desaparecimento do irmão altera esse regime. A culpa acrescenta urgência à busca, e o objeto passa a conter a promessa de desfazer uma perda. Há algo cruel em oferecer justamente a Riley mais um atalho, depois de tudo o que ela já comprometeu tentando evitar a parte penosa da vida.

O corpo de Jamie Clayton

O desenho dos Cenobitas sustenta boa parte do fascínio. As vestes de couro associadas à franquia dão lugar a uma anatomia cortada e reorganizada, na qual a própria pele parece ter sido transformada em traje cerimonial. Clayton trabalhou sob próteses e uma peça de silicone que lhe restringiam a respiração e os movimentos; a imobilidade resultante combina com uma criatura que não precisa correr para exercer autoridade. Seu rosto conserva uma atenção quase clínica, e os gestos chegam sem o alvoroço de quem teme perder o controle. Bruckner deixa que se admire a precisão dessas formas antes de lembrar de que matéria foram feitas. É um espetáculo desagradavelmente bonito, sobretudo quando a arquitetura também começa a perder suas garantias e um espaço comum se abre para passagens que não deveriam caber nele.

O percurso humano é menos inventivo. Há momentos em que a investigação da caixa se torna uma sequência de instruções, deslocamentos e sacrifícios, com personagens secundários à espera de descobrir qual será sua função na próxima atrocidade. O milionário Roland Voight, de Goran Višnjić, oferece um contraponto produtivo à precariedade de Riley: ele teve meios de perseguir sensações sem aceitar que houvesse um limite para a compra. A mansão amplia o espetáculo, mas também prolonga uma trama que já expôs seus mecanismos. Explicar o funcionamento do inferno pode torná-lo administrável demais. Bruckner recupera a estranheza quando deixa que a segurança de Voight vacile diante do alcance literal de seu desejo.

O que ainda prende Riley ao filme é Matt. A possibilidade de recuperá-lo dá aos oferecimentos da Sacerdotisa uma força que nenhuma demonstração isolada de tortura teria, e o encontro entre as duas funciona porque Clayton parece sinceramente contrariada com a resistência da jovem. A criatura não precisa fingir que acredita naquilo; é Riley quem terá de decidir o que consegue suportar. O desfecho preserva o peso dessa decisão sem lhe devolver a inocência. Mesmo depois de largar a caixa, ela continua sendo a irmã que saiu de casa zangada e já não pode retomar aquela discussão.


Filme: Hellraiser: Renascido do Inferno
Diretor: David Bruckner
Ano: 2022
Gênero: Fantasia/Terror
Avaliação: 3.5/5 1 1
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