Quando cheguei à casa do Alcebíades, ele comia um prato de merda. Comentava-se que andava felicíssimo, a cantar louvores, desde a fragorosa derrota do partido dos torneiros mecânicos, nas últimas eleições.
— O que é isso, Alcebíades? Tutu de feijão?
— Antes de mais nada, bom dia. Pessoas educadas dizem bom dia antes de começar uma prosa.
— Tem razão. Me desculpe. Bom dia, Alcebíades.
— Merda. Eu como merda. Aceita um pouquinho?
Senti o estômago se condoer de mim.
— Caramba, Alcebíades! Não é normal que uma pessoa se alimente de fezes. Isso não está certo.
— Me apetece, doc. Não consigo evitar.
— Da última vez que eu o vi, você comia raspas de tijolo, o que já era um comportamento errático. Alimentar-se com fezes é demais.
— Não me sinto incomodado.
— Pica.
— O quê?
— O nome disso é pica?
— Quer tomar um tiro, doc? Eu possuo uma arma em casa.
— Calma, Alcebíades, você não entendeu. A prática de se alimentar com coisas esquisitas chama-se pica. Síndrome de pica. Ou picamalácia.
— Sei…
— Tô falando sério. Pode dar um Google aí no seu celular. Pica é o nome de um transtorno alimentar, uma espécie de perversão do paladar, em que o indivíduo afetado se alimenta de substâncias não comestíveis, não nutritivas, como giz, cabelo, carvão, cera, sabão, barro, plástico, papel picado etc.
— Não tem merda na sua lista.
— Comer excrementos foge do conceito de pica, meu caro. É outro patamar, um distúrbio ainda mais grave. Chama-se coprofagia. É mais frequente em animais; cães, por exemplo. Quando afetados, eles comem os próprios dejetos ou dejetos de outros canídeos.
— Nome invocado, doc.
— Isso precisa ser tratado, Alcebíades. Não pode continuar comendo excremento como se fosse uma coisa natural.
— Se os animais comem — e os animais são da natureza —, deve ser uma coisa natural, doc.
— Você não é um animal, Alcebíades.
— O senhor que pensa. Verifique com cuidado.
— Alcebíades…
— Tem muita gente que toma café com bosta de jacu. Vai dizer que não.
— Não é bem assim, Alcebíades. Nesse caso, o jacu se alimenta com grãos de café maduros, in natura, os quais são maturados e digeridos dentro do seu aparelho digestivo. Após a defecação da ave, os grãos são recolhidos, selecionados, higienizados, torrados e disponibilizados para o consumo humano. Bem diferente.
— Já tomou café de jacu?
— Felizmente, não. Eu passo.
— Dizem que esse café vale uma nota.
— Sim. Não é barato.
— Merda é de graça.
— Alcebíades, preste atenção, ninguém come cocô.
— A vida é minha. A merda é minha. Faço com elas o que eu bem entender. Se fosse bosta de outra pessoa, eu até lhe daria razão. Certa vez, conheci um cara na igreja que bebia a própria urina. Olha só que interessante. Era uma espécie de depurativo. Evitava várias doenças. Nem vacinas o sujeito tomava. E era forte como um touro. Infelizmente, teve uma morte trágica.
— Morreu de quê?
— De coice. Tomou um coice de touro na cara.
Somente ele sorriu.
— Preciso ir, Alcebíades. Apareça lá no postinho. Você deve estar com solitária, com lombriga de porco e com algum probleminha na cabeça.
— Probleminha de cabeça…
— Sim. Coisa pouca. Vamos resolver isso. Tem remédio, meu caro.
— Não estou doente, doc. Aliás, nunca me senti tão bem em toda minha vida.
— Sempre se pode melhorar, Alcebíades.
— Antes de o senhor pegar descendo, me diga: votou em quem, doc?
— O voto é secreto, Alcebíades. Não posso revelar.
— Eu sei em quem o senhor votou nas últimas eleições.
— Então, por que a pergunta?
— Queria ouvir da sua boca. Tiramos a corja do poder, doc. Acabou a mamata. O Brasil vai ficar rico. Vamos faturar um milhão.
— Acho que já ouvi isso antes. São versos do Renato Russo.
— Hein?!
— Nada. Não é nada, Alcebíades. Pensei alto. Vou-me embora. Mantenho o convite, apesar de tudo. Se mudar de ideia, apareça no consultório. Como é que vai arrumar namorada com a boca cheirando a cocô?
— Estou bem com o meu prato de merda, doc. Além do mais, ainda prefiro ficar sozinho. Mulher é bicho traiçoeiro.
— Passe bem, Alcebíades.
— Obrigado, doutor. Vai pela sombra. Eu sei que o senhor não acredita nessas coisas, mas, de todo modo, lá vai: nunca se esqueça das palavras ditas pelo mito: Deus, pátria e família.

