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Em uma comunidade às margens do lago Caddo, na divisa entre o Texas e a Louisiana, uma adolescente procura a irmã de oito anos que desapareceu, enquanto um jovem investiga a morte da mãe. Essas duas buscas sustentam “Os Horrores do Caddo Lake”, suspense de 2024 escrito e dirigido por Celine Held e Logan George. Ellie (Eliza Scanlen) quer trazer Anna (Caroline Falk) para casa. Paris (Dylan O’Brien) tenta descobrir o que provocou a convulsão que fez sua mãe perder o controle do carro e cair de uma ponte. Entre famílias abaladas e percursos de barco, os três personagens estão ligados a um lugar que guarda mais perigos do que seus moradores imaginam.

A premissa desperta curiosidade, mas são os vínculos familiares que dão peso à investigação. Antes de qualquer acontecimento estranho, já existem motivos suficientes para o desconforto. Ellie tem uma relação difícil com a mãe, Celeste (Lauren Ambrose), e não aceita bem a família que ela formou com Daniel (Eric Lange). Paris carrega a lembrança de ter sobrevivido ao acidente sem conseguir salvar a mulher que o criou. Os dois procuram respostas para ausências que continuam interferindo em suas vidas.

Uma casa cheia de assuntos pendentes

Ellie cresceu sem conhecer o pai e questiona o que lhe contaram sobre seu desaparecimento. A falta de informações alimenta as discussões com Celeste, que tampouco demonstra muita disposição para conversar. A filha insiste, a mãe se irrita, e qualquer tentativa de aproximação parece chegar na hora errada.

Eliza Scanlen faz dessa adolescente alguém reconhecível, inclusive quando ela é desagradável. Sua Ellie fala com a dureza de quem quer ferir antes de admitir que está magoada. A atriz preserva a vulnerabilidade por trás das provocações, sem transformar cada discussão em um pedido explícito de compreensão. É possível se solidarizar com a garota e, ainda assim, perceber o quanto suas palavras machucam quem está perto.

Daniel tenta manter a convivência, mas esbarra na resistência da enteada. Sua filha, Anna, tem uma relação mais afetuosa com Ellie. As meninas são irmãs pelo casamento dos pais, e o carinho entre elas sobrevive às desavenças da casa. Esse detalhe importa porque a criança procura a companhia da adolescente mesmo depois de uma briga familiar. Quando Anna sai para segui-la e desaparece, a discussão perde importância diante da necessidade de encontrá-la.

A procura muda as prioridades

O desaparecimento mobiliza buscas pelo lago e coloca Ellie diante de uma situação que ela não pode resolver com outra discussão. A adolescente parte à procura de Anna, levando para a água a inquietação que antes ocupava as conversas com a mãe. Sua disposição para agir é compreensível, embora conhecer a região não garanta que consiga atravessá-la em segurança.

A relação entre as duas meninas dá à busca uma dimensão afetiva que faz diferença. Anna tem importância para Ellie antes de se tornar uma pessoa desaparecida. Por isso, o medo da adolescente merece atenção por si só, mesmo quando o roteiro começa a acumular perguntas sobre o lago.

Lauren Ambrose também contribui para essa proximidade com os personagens. Celeste pode ser ríspida, impaciente e pouco receptiva, mas a atriz não a transforma numa mãe incapaz de sentir afeto. O problema está na maneira de expressá-lo e na dificuldade de escutar a filha. Durante a emergência, essas limitações permanecem. Uma criança desaparecer não apaga, por encanto, os ressentimentos de uma família.

Um sobrevivente preso às perguntas

Paris enfrenta outra forma de perda. Ele estava no carro quando a mãe sofreu a convulsão que provocou o acidente e não conseguiu resgatá-la. Desde então, procura uma explicação para os episódios que ela apresentava. Ao investigar, passa a observar uma possível relação entre as crises e os períodos de baixa no nível da água.

Dylan O’Brien interpreta o rapaz com uma contenção adequada ao desgaste de quem revisita a mesma lembrança. Paris não precisa falar o tempo inteiro sobre sofrimento para que sua dificuldade de seguir a vida seja perceptível. A insistência na investigação já revela quanto daquele acidente permanece presente em sua rotina.

Esse núcleo exige alguma paciência. A busca por respostas avança aos poucos, e Paris fica tão concentrado na morte da mãe que sobra menos espaço para conhecer outras partes de sua personalidade. O’Brien sustenta o interesse, mas o personagem poderia ganhar com mais oportunidades de existir fora da própria dor. Ainda assim, há uma razão convincente para acompanhá-lo. Ele sobreviveu a uma tragédia cuja causa continua sem compreender.

O perigo também está no caminho

A seca modifica as condições de circulação pelo lago. Trechos antes submersos ficam expostos, e os deslocamentos exigem cuidado. Entre árvores, raízes e áreas alagadas, Ellie e Paris precisam prestar atenção ao caminho enquanto procuram pistas. O cenário interfere nas decisões dos personagens, em vez de ficar restrito a uma paisagem bonita e ameaçadora.

Held e George aproveitam bem essa dificuldade de orientação. A vegetação limita o que pode ser visto, e a distância entre os moradores torna a ajuda menos acessível. O suspense cresce quando alguém precisa avançar sem saber exatamente o que encontrará adiante. Há uma sensação incômoda de isolamento, mesmo num lugar que os protagonistas conhecem.

A alternância entre as duas buscas, porém, nem sempre favorece o ritmo. Algumas perguntas permanecem suspensas por tempo demais, enquanto outras aparecem antes que o espectador tenha conseguido se situar. A reserva de informações alimenta a curiosidade, mas também pode causar impaciência. Os melhores trechos são aqueles em que a incerteza sobre o lago acompanha uma preocupação humana bem definida, encontrar Anna ou compreender a morte da mãe de Paris.

“Os Horrores do Caddo Lake” merece atenção pela maneira como associa o mistério às dificuldades dessas famílias. Scanlen, O’Brien e Ambrose oferecem razões para se importar com pessoas que nem sempre sabem pedir ajuda ou conversar sem se ferir. Mesmo quando o roteiro demora a entregar informações, o desaparecimento da menina preserva a urgência. Ellie precisa encontrá-la, e cada percurso pelo lago a afasta da segurança de casa.


Filme: Os Horrores do Caddo Lake
Diretor: Logan George e Celine Held
Ano: 2024
Gênero: Drama/Ficção Científica/Mistério/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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