Em Portland, o empresário Earl Brooks (Kevin Costner) tenta esconder uma compulsão por assassinatos, mas uma testemunha ameaça expô-lo em “Instinto Secreto”, suspense de 2007 dirigido por Bruce A. Evans. Respeitado pela comunidade e recém-eleito Homem do Ano, ele divide os dias entre os negócios, a família e o esforço para permanecer longe dos crimes. Sua reputação começa a correr perigo quando o desejo de matar retorna e um fotógrafo registra aquilo que ninguém poderia descobrir.
Brooks tem dinheiro, prestígio e uma vida doméstica aparentemente tranquila ao lado da esposa, Emma (Marg Helgenberger). É um homem educado, discreto, acostumado a despertar confiança. Também é o criminoso conhecido pela polícia como Assassino da Impressão Digital. Costner preserva essa cordialidade mesmo nas situações mais perturbadoras, e sua atuação dá ao personagem uma característica especialmente incômoda. O homem que mata é tão capaz de gentileza quanto aquele que recebe homenagens.
Bruce A. Evans aproveita essa convivência entre afeto e crueldade sem gastar tempo escondendo a identidade do assassino. O público conhece o segredo desde o início e acompanha os esforços de Brooks para mantê-lo longe da família e da polícia. O suspense depende de quanto tempo ele conseguirá sustentar essa vida dupla quando outras pessoas começarem a interferir nos seus planos.
Uma companhia que incentiva o pior
Brooks está há dois anos sem matar e frequenta reuniões dos Alcoólicos Anônimos para tentar controlar sua compulsão. Ali, busca apoio para abandonar um comportamento cuja natureza precisa esconder. A disposição para mudar, porém, convive com um desejo que ele conhece muito bem. Basta a insistência de Marshall (William Hurt), seu alter ego, para que a promessa de abstinência comece a perder força.
Marshall é a presença que dá voz aos impulsos reprimidos do empresário. Apenas Brooks pode vê-lo e ouvi-lo. Hurt interpreta esse companheiro imaginário com malícia, prazer e uma intimidade de quem conhece todas as fraquezas do outro. Ele provoca, insiste e recebe as objeções do amigo com pouca paciência. Há um humor perverso nessas conversas, sobretudo porque Marshall trata o assassinato com a familiaridade de um sujeito sugerindo um programa para o fim de semana.
A parceria entre Costner e Hurt é o melhor motivo para acompanhar “Instinto Secreto”. Um trabalha com a reserva, o outro com a provocação. Brooks tenta resistir sem perder a compostura, enquanto Marshall demonstra satisfação diante de cada concessão. Evans transforma uma disputa íntima em diálogos que permitem observar o empresário preparando as próprias desculpas. Sua vontade de parar parece sincera, mas isso não o impede de voltar a matar.
Uma fotografia muda a situação
Ao assassinar um casal, Brooks comete uma falha e é fotografado por um homem que se apresenta como Sr. Smith (Dane Cook). O registro coloca o criminoso nas mãos de alguém que pode denunciá-lo. Para quem passou anos preservando o anonimato, a existência daquela testemunha exige mais do que dinheiro ou uma boa conversa. Smith sabe quem ele é e possui uma prova.
A exigência do fotógrafo torna a situação ainda mais desagradável. Ele quer participar de um assassinato. Fascinado pela violência, obriga Brooks a considerar a companhia de um desconhecido numa atividade que depende de cuidado e sigilo. O empresário, habituado a tomar decisões sem interferência, precisa ouvir as condições de um homem que invadiu seu segredo.
Cook dá a Smith uma inconveniência apropriada ao papel. Seu entusiasmo contrasta com a cautela de Brooks e acrescenta um desconforto que vai além da possibilidade de prisão. O fotógrafo se comporta com a ansiedade de alguém esperando realizar um desejo antigo. O assassino percebe que precisa lidar com essa expectativa sem permitir que o desconhecido comprometa ainda mais sua segurança.
Esses encontros rendem os trechos mais envolventes de “Instinto Secreto”. A cada conversa, Brooks precisa conter a irritação e avaliar quanto pode ceder. Marshall, por sua vez, acompanha a situação com interesse. A combinação é estranha, por vezes engraçada e sempre desagradável, porque o assunto discutido envolve a morte de outras pessoas. A cortesia do empresário torna essa convivência ainda mais inquietante.
A policial também está sob pressão
A detetive Tracy Atwood (Demi Moore) investiga o crime e procura o assassino enquanto enfrenta problemas que exigem sua atenção fora do trabalho. Um divórcio complicado consome parte de sua energia. Além disso, um criminoso que prometeu vingança escapa da prisão e passa a ameaçá-la. Ela precisa buscar um homicida e cuidar da própria segurança.
Moore dá firmeza à investigadora, mas o excesso de acontecimentos prejudica o espaço da personagem. Evans acrescenta ameaças, conflitos conjugais e novas urgências quando a relação entre Brooks, Marshall e Smith já sustenta o interesse. Atwood tem razões para existir além da perseguição ao protagonista. Ainda assim, algumas interrupções afastam a atenção do caso por tempo demais.
A dificuldade está na quantidade de histórias que o diretor tenta acomodar. Cada novo problema pede desenvolvimento, e nem todos recebem o mesmo cuidado. Os diálogos entre Costner e Hurt têm uma personalidade que as passagens policiais nem sempre alcançam. Quando os dois voltam a conversar, a diferença fica perceptível. A ameaça mais convincente continua sendo aquela que Brooks leva consigo.
A família fica perto do segredo
Em casa, o empresário procura preservar o vínculo com Emma e com a filha, Jane (Danielle Panabaker). O retorno da jovem da faculdade acrescenta preocupações à rotina de um pai que já está ocupado em esconder crimes e atender às exigências de uma testemunha. O carinho pela família torna o personagem mais desconfortável, porque convive com escolhas que podem destruir a segurança das pessoas que ele ama.
Costner sustenta essa contradição sem pedir absolvição para Brooks. Sua serenidade permite acompanhar um homem capaz de demonstrar afeto e, pouco depois, discutir outro assassinato. Hurt acrescenta o prazer que o companheiro tenta disfarçar. Mesmo quando o roteiro acumula histórias demais, os dois preservam o interesse por essa relação de dependência.
“Instinto Secreto” rende mais quando permanece perto do empresário e das pessoas que ameaçam seu segredo. A investigação importa, mas é a convivência forçada com Smith que põe sua cautela à prova. Brooks pode continuar recebendo cumprimentos e voltando para casa com a educação de sempre. Fora dali, existe um fotógrafo com provas e uma exigência que ele precisa enfrentar.

