O argumento de seres que sequestram domínios sobre os quais o homem exercia a posse inquestionável ainda ronda o cinema. Febre a partir do fim dos anos 1970, produções com essa temática vieram para ficar e à medida que a tecnologia se aprimorava, os roteiros tornavam-se mais e mais inteligentes. No que toca às particularidades dos monstros de “Depois do Apocalipse”, esse detalhe já foi igualmente bem explorado em marcos do cinema do século 20, sendo “Duna” (1984), dirigido por David Lynch (1946-2025), o melhor. Ainda que a ideia não prime pela originalidade, Mathieu Turi confere a seu primeiro longa todo o estilo que pode, valendo-se de referências ao descaso do homem para com o mundo, a imensa casa que deixa ruir à falta de manutenção, e ao respeito ao outro, especialmente aos mais vulneráveis. Sobrevivência aqui é um estado de espírito.
Sobra a esperança
O roteiro de Turi avança expondo as memórias felizes de Juliet, a solitária sobrevivente do que parece um cataclismo do qual sabe-se pouco. Essas lembranças afloram enquanto ela tenta livrar-se do morto-vivo cinzento e esquálido que a persegue, talvez no esforço de seduzi-la, momento em que crescem as suspeitas de que, por trás daquele belo rosto há um passado vil. Vai ficando claro que Juliet foge é de si mesma e que o futuro que jamais nascerá é o seu, imagem que o diretor-roteirista explora abusando de cenas em que a moça injeta heroína e recebe um maço de dólares de senhores de meia-idade depois do jantar. Evidentemente, há um príncipe encantado nesta fábula. Jack, artista plástico e dono de galeria, é a figura que amarra e sobrepõe esses dois estratos da jornada da protagonista; desse ponto em diante, Brittany Ashworth e Grégory Fitoussi fazem de “Depois do Apocalipse” um amálgama psicodélico de “Romeu e Julieta” com o mito de Orfeu. O onipresente amarelo cromo da soberba de Vincent Vieillard-Baron lembrou-me Gauguin — e não, não estou chapado.

