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Vive bem no fundo de cada um de nós uma criatura feita a nossa imagem e semelhança, que quase não conhecemos e contra a qual podemos muito pouco, lembrando-nos de que não somos tão perfeitos quanto imaginamos. Sempre que tentamos desprezar essa natureza torturada e vendemos a falsa ideia de que lhe somos superiores, ela toma conta de tudo. Jaume Collet-Serra fala como poucos sobre nossas deformidades mais hediondas, envoltas nas brumas que ocultam o que parece inegável. Em “A Órfã”, o diretor junta drama e suspense num enredo inspirado que desemboca no clímax inventivo que arrebata, e emulando a estética dos grandes nomes do gênero. Collet-Serra provoca um desconforto opressivo ao mirar uma família supostamente perfeita, mas que esfacela-se de uma vez por todas diante de uma ameaça feita real e crescente. Um mal que, na verdade, já estava ali.

O silêncio dos inocentes

John e Kate Coleman são felizes com Daniel e Max, e têm a certeza de que o terceiro filho vai coroar a plenitude de um lar já harmonioso. Essa, porém, é uma sensação que jamais poderão experimentar, uma vez que Kate enfrenta complicações no parto, perde o bebê e se aflige buscando respostas para sua dor. Como se o universo a escutasse, algum tempo depois, aparece a chance de adotar Esther, uma menina superdotada que sobreviveu à tragédia que matou seus pais na Rússia, boa-nova celebrada como a promessa de redenção de que todos estavam precisando. Tudo numa ordem tão impecável que desperta suspeitas, e por aí segue o roteiro de David Leslie Johnson-McGoldrick e Alex Mace, decifrando os enigmas na filha substituta. Conforme a história ganha corpo, o público sabe que haverá a ruptura entre Kate e Esther, mas é impossível prever como chega-se a ela. Esse é o grande trunfo do diretor, que o talento de Vera Farmiga e Isabelle Fuhrman corrobora à larga.


Filme: A Órfã
Diretor: Jaume Collet-Serra
Ano: 2009
Gênero: Mistério/Suspense/Terror
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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