Cada década tem os filmes de terror que merece e consegue. Houve o tempo dos bonecos endemoninhados, das casas com fantasmas malditos, dos palhaços furiosos. Entretanto, de uns tempos para cá diretores têm reinventado o gênero martelando a tecla do mal como uma condição indissociável da natureza humana, refervendo sob mil camadas de sentimentos malresolvidos e obsessões que revestem-se de uma aura de verdade absoluta. Não é uma coincidência que muitos desses filmes jamais cheguem às salas de projeção, lançados diretamente nas plataformas de streaming, como é o caso de “Sem Saída”, punição que acaba por beneficiar o público. Seria bem mais difícil absorver a mensagem que o diretor Damien Power deseja transmitir diante de uma tela gigantesca — e em meio a plateias nem sempre silenciosas —, e no fim das contas mesmo quem acha que os cinemas são o ambiente perfeito para apreciar essas histórias reconhece que o sacrifício vale a pena.
Confiar para não morrer
A mãe de Darby Thorne dá baixa ao hospital. Ela poderia ir até lá e saber o que aconteceu, se não estivesse internada numa clínica de reabilitação, e esse é o ponto de partida de uma jornada que reserva-lhe uma surpresa nada agradável, embora livre-se do enrosco. Darby atravessa as montanhas da Califórnia, depara-se com uma nevasca, deixa a estrada principal e decide que é melhor estacionar até que a tormenta cesse e não corra tanto risco. Andrew Barrer e Gabriel Ferrari adaptam o livro de Taylor Adams destacando a alma selvagem e o feroz pendor para a inconsequência da anti-heroína, fundamentais quando se acha frente a frente com Ash, Lars, Ed e Sandi, quatro viajantes em apuros, mas que vão deixando escapar o segredo que move o filme. Power é hábil em explorar o nonsense imanente da história, imprimindo algum estilo ao exagero. Tal façanha também é possível graças a Havana Rose Liu e Danny Ramirez, assustadores cada um à sua maneira.

