Se arrumar um amor para a vida inteira está cada vez mais duro, é melhor deixar de lado aquelas estratégias mirabolantes e ir com toda a calma possível, sem nenhuma grande ilusão. O mais humano dos sentimentos, como se sabe, não obedece a regras e, assim, sempre há a chance de uma brincadeira tola ir longe. Essa é a premissa em torno da qual move-se “Todos Menos Você”, uma comédia romântica formulaica, como sói acontecer num gênero conhecido pela sobreposição de chavões, mas respaldada por um portento da literatura universal com quatro séculos de história. Will Gluck busca inspiração no xará William Shakespeare (1564-1616) para descrever os estranhos laços entre duas figuras geniosas, obtendo as conclusões de que não enjoamos nunca. Em sua adaptação de “Muito Barulho por Nada” (1598), Gluck e a corroteirista Ilana Wolpert provam que o amor é mesmo uma guerra, irracional e furioso, mas divertido.
Assim é (se lhe parece)
Uma das características que definem os clássicos é tirar os véus que escondem as semelhanças entre os personagens e o espectador, e por essa razão “Todos Menos Você” consegue oferecer boas surpresas. Gluck começa expondo as suscetibilidades e rancores de Ben, um investidor muito bom em ganhar dinheiro e péssimo com emoções, as suas e as dos outros. Ele vaga por Boston sem nenhum gosto especial, mas despreza o acaso, e talvez esse seja o segredo para viver lances peculiares feito o que o empurra para Bea, também cheia de inseguranças, tanto no que concerne às aulas na faculdade de direito, como no que alude ao futuro que pode não vir.
Eles se apaixonam, se separam, voltam a se ver na Austrália, em circunstâncias que o enredo não esclarece de todo, e esse vaivém adquire um compasso particularmente saboroso com as doses de comédia física, melodrama e muito nonsense que Glen Powell e Sydney Sweeney sabem juntar, com método, mas relaxados. Powell e Sweeney entenderam direitinho a lição do Poeta dos Poetas.

