Discover

É impossível rotular figuras como Tove Jansson (1914-2001). A sensibilidade corajosa de Jansson permitiu-lhe ir além do que a sociedade de seu tempo autorizava, principalmente para as mulheres e, escandalosa, ela incomodou. Zaida Bergroth traz à luz uma parte das ideias e das polêmicas de uma artista visionária, mas também hábil em agradar o público em “A Vida de Tove Jansson”, biografia fértil em graça, lirismo e crueza. Bergroth rememora passagens da vida e da carreira de Jansson — que não separava muito bem uma da outra —, sublinhando seu talento e sua inconformidade quanto a corresponder aos anseios de quem quer que seja, e dessa forma enxerga alguém que não pode ser esquecido.

Arte e subversão

Tove foi uma menina arteira. A filha de Viktor Jansson (1886-1958) logo aprendeu a contornar as expectativas (e a opressão) do pai, escultor famoso que não admitia a hipótese de ter seu nome manchado por ninguém, muito menos por quem pretendia seguir trajetória semelhante. Os roteiristas Jarno Elonen e Eeva Putro dão ênfase a essa permanente tensão entre Tove e Viktor, mostrando a independência e a evolução artística da jovem ilustradora, sempre atenta ao mundo que a cerca e, claro, a sua própria alma e cria os Mumins, seres meio fantasmagóricos que lembram hipopótamos brancos, inspirados nos trolls, os colossos de pedras e líquen do desconhecido folclore de sua Finlândia natal. Ela poderia ter se dado por satisfeita, mas queria mais; aí é que entram Atos Wirtanen (1906-1979) o político casado de quem vira amante, e a artista gráfica Tuulikki Pietilä (1917-2009), seu verdadeiro e longevo amor. Como em “Um Dia e Meio” (2023), do libanês-sueco Fares Fares, Alma Pöysti galvaniza mesmo os trechos mais herméticos, compondo uma parceria repleta de nuanças com Shanti Roney e Joanna Haartti. Bem ao gosto de Tove Jansson, um mito sem mistérios.

Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

Leia Também