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A pobreza tem zonas brumosas. Alguém pode nascer sob condições tão desfavoráveis que vai deixando-se entorpecer por essa atmosfera, como se toda a sua história já viesse escrita e o final não reservasse diferença alguma sobre o que se viu no início. Entretanto, tipos como Ludvig Kahlen (1700-1774), o personagem central de “O Bastardo”, fazem dessas circunstâncias o combustível para dobrar a vida a sua vontade — malgrado nunca torne-se tão próspero e venturoso quanto deseja e merece. O dinamarquês Nikolaj Arcel confere natureza épica a uma das páginas mais nebulosas de seu país, urdindo seu filme com análises políticas argutas e certo tom de sátira. Mudanças aconteceram, não porque ignorou-se o passado, mas por ter-se convencido gerações a rever ideias arcaicas.

Dividir para governar

“O Bastardo” é menos uma trama sobre ter um pedaço de chão para chamar de seu do que sobre o desejo meio insano de se acessar um mundo sem espaço para todos, estrutura pensada sob o único propósito de segregar. Capitão da reserva do exército da Dinamarca, Kahlen tenta furar a bolha mirando a Jutlândia, território na fronteira com a Alemanha onde só as urzes conseguem florescer, depois que vencem uma grossa camada de adobe e areia. Arcel e o corroteirista Anders Thomas Jensen tiram do romance de Ida Jessen cenas com o óbvio potencial cinematográfico que a fotografia de Rasmus Videbæk trata de materializar, frisando o ar agreste da charneca. O capitão propõe à Coroa explorar a área com recursos próprios, em troca de um título de nobreza, mas não contava sofrer a oposição algo irracional de Frederik de Schinkel, um aristocrata que, sabe-se mais tarde, é seu meio-irmão, uma vez que Kahlen nasceu do estupro de uma serva pelo pai de De Schinkel. O filme equilibra-se entre uma cadência eminentemente homérica e a abordagem intimista das relações de Kahlen, numa estimulante triangulação de Mads Mikkelsen, Simon Bennebjerg e Amanda Collin na pele de Ann Barbara, a redentora do velho soldado. Essa era a riqueza de que ele tanto precisava.


Filme: O Bastardo
Diretor: Nikolaj Arcel
Ano: 2023
Gênero: Ação/Drama/Épico
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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