Às vésperas de uma entrevista de estágio, J.D. Vance (Gabriel Basso), estudante de direito em Yale, volta a Middletown, no Ohio, para ajudar a mãe após uma overdose. Bev (Amy Adams) enfrenta dependência química, e sua filha, Lindsay (Haley Bennett), já não consegue cuidar dela sozinha. O retorno acontece quando o rapaz tenta garantir uma oportunidade profissional necessária para pagar os estudos. Em “Era uma Vez um Sonho”, de 2020, Ron Howard acompanha esse impasse entre atender uma emergência familiar e preservar a possibilidade de uma vida diferente.
Baseado nas memórias de Vance, o longa alterna a viagem do universitário com episódios de sua infância. A família tem raízes nos Apalaches, no Kentucky, mas vive no Ohio, onde o menino cresce cercado por dificuldades financeiras e brigas domésticas. A entrada numa universidade prestigiada lhe permite sair daquele ambiente. O telefonema da irmã lembra que a distância entre duas cidades pode ser vencida de carro, enquanto os vínculos familiares exigem bem mais trabalho.
O filho volta e a irmã permanece
J.D. chega disposto a procurar tratamento para Bev, mas logo percebe que sua presença não basta. Há despesas, resistência da mãe e uma entrevista que continua marcada, apesar da emergência. Ele precisa tomar providências sem saber quanto tempo cada uma exigirá. Essa combinação de preocupação e pressa dá consistência ao drama. Quem já tentou cuidar de um familiar enquanto atendia às próprias obrigações reconhecerá o desgaste de estar num lugar com a cabeça em outro.
Lindsay acrescenta uma diferença importante à situação. Ela mora perto de Bev e participa dos cuidados cotidianos, além de criar os próprios filhos. Para o irmão, voltar significa interromper os planos por alguns dias. Para ela, a convivência com a mãe faz parte da rotina. Haley Bennett interpreta esse cansaço com sobriedade e oferece uma das presenças mais convincentes do elenco. Sua atuação lembra que, quando alguém consegue partir, outras pessoas ficam encarregadas do que foi deixado em casa.
Uma mãe entre carinho e agressividade
Nas lembranças de infância, J.D. é interpretado por Owen Asztalos. Bev trabalha como enfermeira e demonstra afeto pelo filho, mas suas mudanças de humor tornam a convivência insegura. Discussões crescem, gestos de proximidade dão lugar à hostilidade, e o menino passa a prestar atenção ao comportamento da mãe antes de responder. Asztalos transmite essa cautela de quem aprende cedo a escolher palavras dentro da própria casa.
Amy Adams assume um papel difícil, que reúne dependência química, frustração e necessidade de afeto. Seus melhores momentos surgem quando Bev procura aprovação no rosto do filho ou deixa transparecer o medo de perdê-lo. Nessas passagens, a personagem ganha uma vulnerabilidade que as brigas nem sempre permitem conhecer. Há uma mulher querendo ser amada por trás das exigências que faz aos outros.
Howard, porém, insiste tanto nos acessos de raiva que oferece pouco espaço para Bev existir fora das crises. Adams acompanha essa intensidade, às vezes com gestos e alterações de voz excessivos. A repetição acaba limitando uma personagem que poderia ser mais complexa. Sabemos bastante sobre o sofrimento que ela causa aos filhos, mas conhecemos menos a mulher que trabalha, cria expectativas e se decepciona consigo mesma.
A avó assume a criação
Mamaw (Glenn Close), a avó de J.D., interfere quando a situação do neto ameaça seus estudos e sua segurança. Ela lhe oferece uma rotina mais estável e cobra dedicação à escola. Tem poucos recursos, pouca paciência e um repertório de palavrões que dispensa qualquer cerimônia familiar. Close dá à personagem uma autoridade que se sustenta tanto nas broncas quanto na disposição de assumir responsabilidades.
A maquiagem e o figurino chamam atenção, mas a atuação tem mais interesse quando Mamaw está ocupada com o garoto. Sua preocupação aparece nas tarefas que exige, no dinheiro que precisa administrar e na insistência para que ele continue estudando. A avó reconhece os riscos da vida que o cerca e tenta garantir ao neto opções que faltaram a outros parentes. O carinho vem acompanhado de cobrança porque ela sabe que não poderá sustentá-lo para sempre.
Essa relação concentra boa parte da emoção de “Era uma Vez um Sonho”. Há afeto, irritação e sacrifício numa convivência que não depende de conversas delicadas para parecer verdadeira. O problema surge quando Howard atribui às advertências de Mamaw um peso quase suficiente para solucionar dificuldades acumuladas durante anos. A firmeza da avó ajuda o menino, mas dependência química e falta de dinheiro mereciam um tratamento menos preso à força de vontade.
Yale também exige ajuda
Na universidade, J.D. precisa aprender hábitos sociais que não vieram junto com seu bom desempenho acadêmico. Sua namorada, Usha (Freida Pinto), oferece apoio diante de situações ligadas ao recrutamento profissional. Essas passagens têm uma leveza bem-vinda. O rapaz sabe estudar direito, mas ainda pode se sentir perdido numa conversa à mesa com pessoas acostumadas àquele ambiente.
Gabriel Basso interpreta esse desconforto com discrição. Sua atuação combina com alguém que observa e procura não revelar insegurança, embora ele por vezes fique apagado diante de Adams e Close. Usha também recebe pouco espaço além da função de apoiá-lo. A relação dos dois poderia ganhar mais intimidade, especialmente porque representa uma convivência em que J.D. consegue pedir ajuda sem precisar antecipar uma discussão.
Howard mantém o interesse quando se aproxima dessas necessidades específicas. Conseguir tratamento, pagar os estudos, atender à irmã e comparecer a uma entrevista são tarefas que tornam o enredo compreensível e dão peso às escolhas. A emoção perde força quando as brigas se repetem ou quando as cobranças sugerem soluções fáceis para problemas difíceis. Enquanto Bev precisa de atendimento no Ohio, J.D. continua com uma oportunidade à espera em outra cidade, e cada hora dedicada à mãe diminui o tempo disponível para chegar à seleção.

