Desejamos o que nos parece inestimavelmente distante porque sabemos que as chances de o alcançar são mínimas. Acatando essa ideia, sufocamos aspirações racionais porque elas não se nos mostram instigantes o suficiente, não nos encantam, não conseguem achar espaço num cérebro tomado pelas vontades mais loucas e pensamentos os mais absurdos. Um discreto guia de museu que se apresenta aos amigos como membro de uma tradicional família aristocrática pode simbolizar um vasto rol de ponderações acerca da decadência que cerca as sociedades em várias frentes, algumas delas vistas por Jöns Jönsson em “O Impostor”. Em seu segundo longa, o diretor faz reflexões sobre o prolífico mal-estar da nossa civilização pós-moderna com sequências de humor cínico, centradas num protagonista sôfrego por ser compreendido, aceito, amado. Ninguém pode ficar indiferente a isso.
Mentiras sinceras
Mesmo em constante silêncio, Julius é notado. Quando pode falar, sempre tem um argumento para convencer alguém de alguma coisa, como faz com Erik, o novo colega de trabalho, a quem também convida a fazer um passeio de barco, seu barco, programa que já havia sido obrigado a adiar por uma ou outra razão. Aos poucos, Jönsson enche seu roteiro de situações nas quais os privilégios de indivíduos brancos — inclusive o de mentir descaradamente sem jamais serem submetidos a contestações — espelham a patética realidade, que o diretor sabe verter num pastelão, grave, mas delicioso. Só depois de transcorridos cinquenta minutos, vem na tela o nome original do filme, “Axioma”, postulado que não admite questionamentos, verdade absoluta a que não se pode opor. Desfiando expressões faciais entre o histrionismo e a introspecção mais brutal, Moritz von Treuenfels encabeça um elenco muito acima da média e leva um filme chocante. E necessário.

