Na França dos anos 1920, Mathilde (Audrey Tautou) procura o noivo, Manech (Gaspard Ulliel), dado como morto na Primeira Guerra Mundial. A notícia entregue pelo Exército não basta para convencê-la, sobretudo quando descobre as circunstâncias de seu desaparecimento. Ele estava entre cinco soldados condenados por automutilação e abandonados entre as trincheiras francesas e alemãs. Sem uma confirmação que considere suficiente, a jovem começa a procurar testemunhas. Essa busca sustenta “Eterno Amor”, de 2004, dirigido por Jean-Pierre Jeunet, um romance atravessado pela violência da guerra e pelas dificuldades de descobrir o que aconteceu com quem não voltou.
Mathilde e Manech se conhecem desde crianças, na Bretanha, e crescem com a expectativa de uma vida juntos. A convocação interrompe os planos e leva o rapaz às trincheiras do Somme, onde o medo e o desgaste substituem qualquer entusiasmo patriótico. Quando ele desaparece, ela precisa lidar tanto com a ausência quanto com uma versão oficial que deixa perguntas sem resposta. Tautou dá à personagem uma delicadeza que convive com a desconfiança. Sua Mathilde sofre, mas também pressiona, insiste e pode ser bastante inconveniente para quem gostaria de encerrar o assunto.
Uma sentença entre as trincheiras
Os cinco condenados feriram as próprias mãos para tentar sair do front. O gesto nasce do desespero de homens que já não suportam permanecer ali, embora o comando militar o trate como uma infração merecedora da pena máxima. A punição dispensa um pelotão de execução. Os soldados são expulsos da trincheira e deixados na terra de ninguém, a faixa exposta ao fogo dos dois lados. Entre eles está Manech, um jovem cada vez mais fragilizado pela experiência do combate.
Jeunet dá atenção às histórias desses homens antes de acompanhar a procura por notícias. Eles têm profissões, vínculos familiares e razões particulares para desejar o retorno. Isso torna a sentença mais dolorosa, porque cada condenado carrega uma vida que os superiores parecem dispostos a descartar. Nas cenas de guerra, a lama, os ferimentos e a proximidade dos corpos retiram qualquer conforto do espectador. A beleza das paisagens da Bretanha, presentes nas lembranças do namoro, torna ainda mais penosa a distância que separa Manech de casa.
As primeiras pistas de Mathilde
Uma conversa com Daniel Esperanza (Jean-Pierre Becker), militar que conhece os acontecimentos ligados à condenação, oferece à jovem informações que ela não tinha. Mathilde passa a procurar pessoas relacionadas aos outros quatro soldados, pois o destino de Manech depende do que ocorreu com todo o grupo. O investigador particular Germain Pire (Ticky Holgado) ajuda a localizar testemunhas e reunir pistas. A procura avança por relatos fragmentados, lembranças difíceis e perguntas que alguns interlocutores preferem deixar sem resposta.
A poliomielite que Mathilde teve na infância deixou uma limitação em sua perna, tornando os deslocamentos mais trabalhosos. Jeunet incorpora essa dificuldade ao cotidiano sem fazer dela a única característica da protagonista. A jovem sabe pedir ajuda e sabe usar a insistência quando a gentileza não basta. Há uma graça discreta nessa disposição para importunar adultos seguros de que sabem mais do que ela. Tautou preserva algo de juvenil, mas acrescenta firmeza a cada pergunta. O afeto explica por que Mathilde começou a procurar, enquanto seu trabalho de investigação permite que ela continue.
Outras mulheres também esperam respostas
Ao ouvir Élodie Gordes (Jodie Foster), Mathilde entra em contato com uma história íntima que também foi atravessada pela guerra. Foster tem uma participação breve, mas sua presença muda o ritmo da conversa. Há cansaço, constrangimento e afeto na maneira como Élodie fala de relações que ficaram ligadas ao destino dos combatentes. A cena merece o tempo que recebe. Para chegar a uma informação útil, a protagonista precisa escutar uma experiência que ultrapassa sua própria perda.
Tina Lombardi (Marion Cotillard), ligada a outro dos condenados, reage de maneira mais agressiva ao desaparecimento do homem que amava. Sua procura por responsáveis acrescenta perigo à investigação e apresenta outra forma de enfrentar a ausência. Cotillard dá a Tina uma firmeza inquietante, distante da esperança mantida por Mathilde. As duas têm perguntas semelhantes, mas fazem escolhas diferentes para obter respostas. A presença dessas mulheres impede que as famílias dos soldados sejam tratadas apenas como destinatárias de uma notícia militar.
Entre lembranças e depoimentos
Jeunet alterna o namoro na Bretanha, os acontecimentos no front e a investigação do pós-guerra. A escolha permite conhecer Manech antes que ele seja apenas um nome numa lista de desaparecidos. Ulliel interpreta o rapaz com uma fragilidade que torna compreensível o medo de perder aquela vida ainda tão recente. Quando a história retorna às trincheiras, o espectador sabe quem o espera e quais planos foram interrompidos. O romance ganha força nesses detalhes, sem precisar transformar o casal em exemplo de perfeição.
A quantidade de personagens, apelidos e depoimentos exige atenção. Em alguns trechos, uma informação mal começou a ganhar importância quando Jeunet já apresenta outro interlocutor. O excesso de acabamento nas imagens também pode incomodar, principalmente quando a devastação recebe uma composição bonita demais. São escolhas que por vezes afastam a história da simplicidade emocional alcançada por Tautou. Ainda assim, o vínculo com Mathilde permanece forte porque cada pista tem um valor concreto para ela.
“Eterno Amor” emociona mais quando acompanha o esforço da jovem para distinguir o que deseja daquilo que pode comprovar. Sua certeza íntima não elimina a necessidade de ouvir testemunhas, comparar relatos e enfrentar o silêncio de autoridades. A ternura está nessa persistência, inclusive nas ocasiões em que ela parece cansativa para todos ao redor. Mathilde não dispõe de uma visão completa dos acontecimentos, e Jeunet preserva as dúvidas que tornam sua procura tão difícil. Quando uma resposta deixa lacunas, ela volta a fazer perguntas e procura outra pessoa que tenha visto Manech.

