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No início dos anos 1980, agentes israelenses e ativistas etíopes organizam uma missão clandestina no Sudão para resgatar milhares de judeus que fugiam da perseguição em seu país. Inspirado em acontecimentos reais, “Missão no Mar Vermelho” (2019), dirigido por Gideon Raff, acompanha um grupo do Mossad que transforma um hotel abandonado às margens do Mar Vermelho em esconderijo para uma operação humanitária. Entre turistas despreocupados, militares desconfiados e famílias que arriscam a vida para atravessar fronteiras, o longa reúne espionagem, drama histórico e uma história tão improvável que dificilmente seria levada a sério caso tivesse nascido apenas da imaginação de um roteirista.

Ari Levinson (Chris Evans) trabalha para o serviço de inteligência israelense e participa de uma operação destinada a retirar judeus etíopes que tentam escapar da violência em seu país. Muitos caminham durante dias até alcançar o Sudão, onde acabam instalados em campos de refugiados, enfrentando fome, perseguição e condições precárias. É nesse ambiente que Ari conta com a colaboração de Kabede Bimro (Michael Kenneth Williams), um etíope comprometido com a segurança dessas famílias e disposto a ajudá-las a alcançar Israel.

Transportar tantas pessoas, entretanto, exige uma estrutura que permita realizar viagens clandestinas sem despertar a atenção das autoridades. Ari apresenta uma proposta bastante ousada. Alugar um antigo complexo turístico abandonado na costa sudanesa, recuperar suas instalações e utilizá-lo para organizar resgates pelo Mar Vermelho. O estabelecimento oferece uma localização privilegiada, longe dos grandes centros urbanos e com acesso ao litoral.

A ideia precisa da autorização de Ethan Levin (Ben Kingsley), superior de Ari no Mossad. Manter agentes disfarçados num país estrangeiro durante meses envolve riscos consideráveis, sobretudo porque qualquer suspeita pode comprometer a segurança dos envolvidos. Ainda assim, o projeto recebe autorização, e Ari começa a reunir profissionais dispostos a assumir uma identidade inteiramente diferente.

Turistas de verdade e funcionários disfarçados

Entre os escolhidos estão Rachel Reiter (Haley Bennett), Sammy Navon (Alessandro Nivola), Jake Wolf (Michiel Huisman) e Max Rose (Alex Hassell). A equipe assume a administração do Red Sea Diving Resort, um antigo destino turístico que precisa voltar a funcionar para sustentar a operação. Os agentes passam a desempenhar tarefas comuns de hotelaria, organizando hospedagens, atividades recreativas e passeios de mergulho enquanto preparam secretamente a retirada dos refugiados.

O detalhe mais curioso é que o empreendimento começa a receber turistas de verdade. Pessoas interessadas em praias, descanso e boas férias chegam ao estabelecimento sem imaginar que seus simpáticos anfitriões trabalham para a inteligência israelense. A equipe precisa atender aos visitantes, preservar a aparência comercial do lugar e encontrar oportunidades para realizar suas atividades clandestinas.

A situação rende passagens divertidas, especialmente pelo contraste entre as preocupações dos hóspedes e as responsabilidades dos funcionários. Enquanto uns procuram aproveitar o litoral sudanês, outros precisam pensar em rotas de fuga e na segurança de famílias inteiras. Administrar um hotel já exige paciência suficiente. Fazer isso enquanto se esconde uma missão de espionagem acrescenta algumas dificuldades ao expediente.

O resort também oferece uma vantagem importante. A circulação de estrangeiros ajuda a justificar a presença dos agentes naquela região, enquanto a proximidade do mar facilita o planejamento dos resgates. Entretanto, manter o estabelecimento movimentado significa conviver diariamente com pessoas diante das quais ninguém pode revelar sua verdadeira identidade.

Refugiados aguardam uma oportunidade de partir

Enquanto Ari e seus colegas trabalham no hotel, Kabede permanece próximo das famílias etíopes que aguardam ajuda. Sua participação é fundamental porque ele conhece a realidade dos refugiados, suas dificuldades e os perigos enfrentados durante a tentativa de alcançar o Sudão. Muitos deixaram suas casas levando poucos pertences e passaram por situações extremas antes mesmo de chegar aos campos.

Michael Kenneth Williams interpreta Kabede com uma sensibilidade que oferece ao longa algumas de suas passagens mais humanas. O personagem tem uma relação pessoal com aquelas famílias e conhece o sofrimento provocado pela espera. Para os refugiados, cada viagem representa uma oportunidade de abandonar uma situação marcada pela insegurança, embora o deslocamento até o litoral também envolva riscos.

A parceria entre Kabede e Ari sustenta boa parte da história. Chris Evans interpreta o agente israelense com energia e determinação, enquanto Williams apresenta um personagem mais reservado, cuja preocupação permanece ligada às pessoas que precisam ser resgatadas. As diferenças entre ambos enriquecem a narrativa e ajudam a estabelecer o peso das decisões tomadas durante a missão.

Apesar disso, o roteiro dedica mais atenção às aventuras dos integrantes do Mossad do que às experiências dos próprios refugiados. O público acompanha os preparativos, os desentendimentos e os perigos enfrentados pelos agentes, mas conhece relativamente pouco sobre as famílias que motivaram toda a operação. É uma escolha que favorece o suspense e deixa parte do drama histórico em segundo plano.

A presença militar ameaça o disfarce

A manutenção do hotel fica cada vez mais delicada diante da vigilância das autoridades sudanesas. O coronel Abdel Ahmed (Chris Chalk) representa uma ameaça aos envolvidos, especialmente porque uma investigação sobre as atividades do estabelecimento pode colocar toda a operação em perigo. Os agentes precisam continuar atendendo aos turistas enquanto organizam viagens clandestinas e procuram preservar o segredo.

Ari também enfrenta divergências com Sammy, que questiona sua disposição para assumir riscos. A relação entre os dois acrescenta tensão ao trabalho da equipe, já que uma escolha precipitada pode comprometer meses de preparação. Ethan, por sua vez, precisa acompanhar as implicações de manter profissionais israelenses atuando secretamente em território estrangeiro.

Gideon Raff alterna a rotina aparentemente tranquila do resort com os preparativos das retiradas. O espectador conhece as verdadeiras intenções dos funcionários enquanto os hóspedes continuam aproveitando as férias, alheios ao que acontece ao redor. Essa diferença de informações sustenta boa parte do suspense, especialmente quando a presença militar ameaça a segurança dos agentes e dos refugiados.

Inspirado na operação que utilizou o antigo resort de Arous, na costa do Sudão, “Missão no Mar Vermelho” recupera um episódio extraordinário da história contemporânea. A adaptação toma liberdades dramáticas e privilegia a aventura, mas encontra sua maior força na colaboração entre pessoas que assumiram riscos para retirar famílias de uma situação desesperadora. Entre quartos ocupados, passeios de mergulho e turistas satisfeitos, os funcionários daquele hotel continuam trabalhando secretamente para levar refugiados até Israel.


Filme: Missão no Mar Vermelho
Diretor: Gideon Raff
Ano: 2019
Gênero: Drama/História/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
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