O Rijksmuseum colocou na internet 800 mil obras de arte e 500 mil livros. Vale repetir os números porque eles são, neste caso, a própria notícia: 800 mil obras, 500 mil livros, todos reunidos numa plataforma que pode ser consultada de qualquer lugar e que continua crescendo à medida que entram novos documentos, informações de pesquisa e material dos arquivos do museu.
Não se trata apenas de uma sequência interminável de fotografias de quadros famosos, o que já seria bastante. Na Collection Online estão pinturas, desenhos, gravuras, esculturas, objetos históricos, fotografias e uma biblioteca de proporções pouco domésticas. Rembrandt e Vermeer naturalmente funcionam como chamariz — difícil competir com “A Ronda Noturna” e “A Leiteira” —, mas cinco minutos de busca bastam para o visitante esquecer os cartões-postais e começar a se perder em coisas que provavelmente jamais procuraria por iniciativa própria.
Essa é uma das graças do negócio. Pode-se buscar um artista, um período, uma personagem, um tipo de objeto ou simplesmente passear pelas páginas temáticas produzidas a partir das informações do acervo. Há ferramentas para colocar duas obras lado a lado, ampliar detalhes, guardar descobertas em coleções particulares e montar uma Galeria de Honra virtual. O museu acrescentou ainda mecanismos de inteligência artificial para sugerir relações entre peças e, mais recentemente, uma busca visual capaz de encontrar trabalhos semelhantes por cor, forma, estilo ou tipo de objeto.
A abertura desse material não começou ontem. Em 2012, o Rijksmuseum lançou o Rijksstudio oferecendo 125 mil imagens em alta resolução gratuitamente, quantidade então extraordinária para um museu. Oito vezes 125 mil dá um milhão; não é exatamente a conta que interessa, mas ajuda a perceber o tamanho do salto. Hoje são cerca de 800 mil obras de arte na Collection Online, e o acervo digital já deixou de ser uma espécie de catálogo eletrônico para ganhar vida própria.
Em muitos casos, “aberto” quer dizer aberto mesmo. Obras em domínio público e sem outras restrições podem ser baixadas em alta resolução e reutilizadas, inclusive comercialmente. O museu também oferece seus dados de maneira estruturada para pesquisadores e desenvolvedores. Uma professora pode montar material didático, um designer pode trabalhar sobre uma gravura de três séculos atrás, um pesquisador pode cruzar informações de milhares de objetos e um curioso pode passar meia hora examinando o sapato de uma figura anônima num retrato holandês até esquecer o que tinha ido procurar.
A escala fica ainda um pouco mais absurda quando se entra nos projetos especiais. O Rijksmuseum produziu uma imagem de “A Ronda Noturna”, de Rembrandt, com 717 bilhões de pixels, feita a partir de 8.439 fotografias. As pinturas conhecidas de Vermeer também ganharam reproduções em resolução extrema. São proezas técnicas interessantes, mas aqui elas servem sobretudo para mostrar até onde foi levada uma ideia que começou de maneira bem mais simples: se a obra pode ser digitalizada com qualidade, por que mantê-la escondida?
Há limites, claro. Nem todo material está liberado para qualquer uso, direitos autorais continuam existindo e a documentação do museu ainda está sendo incorporada. Também não existe promessa de que alguém vá conseguir conhecer 800 mil obras porque elas estão a um clique. A dificuldade agora é outra. Escolher por onde começar.

