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Goethe não queria vinho. Queria aquele vinho. Em 1806, longe de Würzburg, reclamou da falta do Steinwein da cidade, como quem descobre que certas fidelidades do paladar podem ser tão teimosas quanto as literárias. O detalhe é pequeno, doméstico, quase ridículo diante de uma vida que produziu “Fausto”, atravessou revoluções intelectuais e ajudou a inventar uma ideia moderna de escritor. Justamente por isso é bom.

Escritores, afinal, bebem pelo mesmo motivo que o resto da humanidade bebe, porque gostam. O problema começa quando a biografia entra no bar. Hemingway é o caso clássico. Bebeu tanto na vida e foi tão diligente na construção do próprio personagem que qualquer garrafa colocada perto dele corre o risco de virar “a favorita de Hemingway” antes que alguém peça a conta. Com James Joyce, Mark Twain, Vargas Llosa e companhia, a documentação às vezes é mais sóbria que a lenda — o que não quer dizer menos divertida.

Há escolhas declaradas, recomendações entusiasmadas, visitas a bodegas, cartas, refeições e até um champanhe servido no banquete do Nobel a Annie Ernaux. Nada disso transforma literatura em enologia, felizmente. Apenas devolve por alguns instantes esses nomes enormes à escala humana, onde um sujeito pode ter escrito “Ulisses”, “O Conde de Monte Cristo” ou “Os Anos” e ainda assim, diante de uma boa garrafa, precisar tomar uma decisão bastante simples.

01

Goethe

Würzburger Steinwein · Francônia, Alemanha

Goethe Würzburger Steinwein

Em 1806, Johann Wolfgang von Goethe estava longe de Würzburg e sentiu saudade de uma coisa que não era exatamente pequena. Pediu vinho. Mais precisamente, vinho daquela cidade da Francônia, cuja produção apreciava a ponto de reclamar que nenhum outro lhe satisfazia da mesma maneira. É um episódio quase doméstico na vida de um homem que parecia interessado em todas as coisas do mundo, das plantas à política, do teatro às ciências naturais, e ainda encontrou tempo para escrever “Os Sofrimentos do Jovem Werther” e passar décadas às voltas com “Fausto”.

O Würzburger Steinwein vem de uma encosta que observa a cidade do alto e já era celebrado muito antes que Goethe resolvesse declarar-lhe fidelidade. Não há razão para fingir que a garrafa de hoje reproduza o que ele bebia há mais de duzentos anos; safras mudam, técnicas mudam, até o gosto dos homens muda. O extraordinário é outra coisa. O lugar continua ali, as videiras continuam produzindo e o nome atravessou os séculos.

Goethe morreu em 1832. A literatura tratou de impedir que desaparecesse. Em Würzburg, as uvas fizeram sua parte.

02

James Joyce

Clos St Patrice · Châteauneuf-du-Pape, França

James Joyce Clos St Patrice

James Joyce passou boa parte da vida tentando fugir da Irlanda, mas Dublin teve a deselegância de acompanhá-lo. Trieste, Zurique, Paris: pouco importava onde estivesse. Quando se sentava para escrever, voltava às mesmas ruas, pubs, igrejas, casas e obsessões da cidade que deixara para trás. “Ulisses”, o livro que transformou um único 16 de junho de 1904 numa espécie de feriado mundial da literatura, é talvez o caso mais famoso de um exílio que não deu certo.

Joyce também guardava suas preferências à mesa, e entre elas aparece o Clos Saint Patrice, vinho de Châteauneuf-du-Pape que mereceu do escritor uma recomendação particularmente enfática. A escolha tem alguma graça. Châteauneuf vive da ideia de terroir, palavra francesa que ganhou uma solenidade um tanto insuportável com o passar do tempo, mas continua querendo dizer algo bastante simples: certas coisas pertencem ao lugar onde nasceram.

Joyce poderia ter entendido isso sem nenhuma aula de enologia. Deixou Dublin jovem e jamais voltou a morar nela. Passou o resto da vida reconstruindo-a em papel, rua por rua, quase pedra por pedra. Também há vinhos que viajam milhares de quilômetros sem conseguir fugir de sua origem. Felizmente.

03

Ernest Hemingway

Federico Paternina Banda Azul · Rioja, Espanha

Ernest Hemingway Federico Paternina Banda Azul

Em agosto de 1959, Ernest Hemingway voltou à Rioja. Estava com sessenta anos, já carregava o Nobel, a fama, algumas guerras nas costas e o peso nada discreto de ter se transformado numa caricatura de si próprio. Foi a Ollauri, visitou a Federico Paternina, conheceu suas caves antigas e participou de uma refeição na bodega. Há fotografias. Para uma vez na vasta mitologia de Hemingway, não é necessário inventar nada.

A associação posterior de Banda Azul ao escritor acabou crescendo muito além do que os documentos permitem assegurar. Dizer que era seu vinho favorito torna a história mais redonda, logo também mais suspeita. Basta saber que Hemingway esteve na casa que o produz, bebeu seus vinhos e viveu por algumas horas aquele universo de pedra, barris e garrafas que lhe era tão familiar.

Ele gostava da Espanha com um entusiasmo que hoje talvez se considerasse excessivo: touradas, festas, comida, bebida, homens testando os próprios limites. Menos de dois anos depois daquela visita, estava morto. Banda Azul continua sendo produzido. É curioso pensar que uma garrafa relativamente modesta possa conservar um fio tão concreto com um dos escritores mais mitificados do século 20. Ainda melhor quando não precisamos dourar a lenda.

04

Mark Twain

Veuve Clicquot · Champagne, França

Mark Twain Veuve Clicquot

Mark Twain ainda não era inteiramente Mark Twain quando o champanhe entrou em cena. Na noite de 7 de junho de 1867, às vésperas de embarcar na viagem que depois daria origem a “Os Inocentes no Estrangeiro”, Samuel Clemens escreveu à família contando que duas caixas de excelente bebida haviam chegado ao navio. Uma delas era Veuve Clicquot.

Naturalmente, Twain não conseguiu tratar o assunto com gravidade. Anunciou uma espécie de cerimônia etílica para os sábados, imaginando-se entregue à devoção da garrafa, e logo tratou de estragar a pose avisando que estava brincando. É difícil encontrar um episódio mais adequado a um escritor que fez carreira erguendo solenidades apenas para derrubá-las alguns segundos depois.

A Veuve Clicquot já tinha uma história extraordinária por conta própria. Barbe-Nicole Clicquot assumira os negócios da família ainda jovem, numa época em que mulheres eram aconselhadas a ocupar-se de assuntos menos inconvenientes que comandar empresas e vender champanhe pela Europa. Sobreviveu muito bem aos conselhos. Um século e meio depois, a carta de Twain e a garrafa continuam existindo. A piada também. Bebidas acabam; às vezes o que se diz enquanto se bebe dura muito mais.

05

Mario Vargas Llosa

Vega Sicilia Único · Ribera del Duero, Espanha

Mario Vargas Llosa Vega Sicilia Único

Mario Vargas Llosa não deixou aos outros a tarefa de adivinhar qual grande vinho espanhol escolheria. Quando lhe perguntaram, citou Vega Sicilia e acrescentou que, tendo de optar, preferiria uma boa safra da casa. Para um homem que passou décadas escrevendo romances de centenas de páginas sobre poder, desejo, violência, fanatismo e as delícias menos recomendáveis do comportamento humano, a resposta foi surpreendentemente econômica.

Vega Sicilia já não precisava do aval de ninguém. Fundada no século 19 em Ribera del Duero, tornou Único um dos nomes mais reconhecidos do vinho espanhol, tratado por admiradores com aquela reverência que, aplicada a qualquer outro líquido, pareceria um pouco ridícula. Há garrafas que esperam anos antes de chegar ao mercado. O próprio nome já exige certa falta de modéstia.

Vargas Llosa tampouco foi homem de ambições pequenas. Peruano, espanhol por adoção e cidadão de uma literatura que sempre julgou maior que fronteiras nacionais, atravessou o boom latino-americano, disputou eleição presidencial, envolveu-se em controvérsias públicas e ganhou o Nobel em 2010. Neste caso, porém, nada disso precisa justificar a garrafa. Ele gostava de Vega Sicilia. Às vezes a melhor história é justamente aquela em que não se força simbolismo nenhum.

06

Annie Ernaux

Legras & Haas Blanc de Blancs Grand Cru 2012 · Champagne, França

Annie Ernaux Legras & Haas Blanc de Blancs Grand Cru 2012

No dia 10 de dezembro de 2022, Annie Ernaux sentou-se à mesa do banquete do Nobel em Estocolmo. Aos 82 anos, a filha de pequenos comerciantes da Normandia estava cercada pelo tipo de pompa que sua literatura passou décadas observando com alguma desconfiança: vestidos de gala, cristais, autoridades, rituais que fazem a sociedade acreditar com mais convicção em suas próprias hierarquias.

Naquela noite, serviu-se Legras & Haas Blanc de Blancs Grand Cru 2012. Há uma bela ironia nisso, embora seja melhor não espremê-la até secar. Ernaux construiu livros com abortos clandestinos, vergonha social, desejo, supermercados, fotografias, frases ouvidas à mesa e lembranças que pareciam indignas da grande literatura até ela demonstrar que não eram. “O Lugar”, “O Acontecimento” e “Os Anos” nasceram em parte dessa obstinação em registrar a experiência sem enfeitá-la até que se torne irreconhecível.

O champanhe vinha de Chouilly, feito de Chardonnay, e estava ali por uma razão bastante mais simples: era a bebida escolhida para brindar os laureados. De todas as transformações daquela noite, talvez a mais curiosa tenha sido esta. A mulher que passou a vida investigando as marcas da classe social estava agora no centro de um dos banquetes mais exclusivos do planeta. E havia uma taça cheia diante dela.

07

Emmanuel Carrère

Château Chasse-Spleen · Moulis-en-Médoc, Bordeaux, França

Emmanuel Carrère Château Chasse-Spleen

Emmanuel Carrère chegou ao Château Chasse-Spleen pelo caminho mais apropriado para Emmanuel Carrère: escrevendo.

Em 2020, Carrère escreveu para o château um texto ligado à safra daquele ano, quando fazer vinho já seria trabalhoso sem uma pandemia mundial, oscilações climáticas e todas as pequenas calamidades que acompanham uma vinha desde muito antes de a primeira garrafa aparecer. Carrère entrou nesse cotidiano e fez o que costuma fazer quando encontra uma história real: observou até que ela começasse a ficar estranha.

É o mesmo sujeito que escreveu sobre Jean-Claude Romand, o homem que durante anos fingiu ser médico antes de assassinar a própria família; que acompanhou a vida inclassificável de Eduard Limonov; e que transformou crises pessoais, religião, sexo, doença e vaidade em matéria literária sem se preocupar demasiadamente com a fronteira entre reportagem, memória e romance.

No Chasse-Spleen, contudo, ninguém precisava morrer para que surgisse uma narrativa. Bastavam as uvas, o tempo e uma safra atravessada pelo insólito ano de 2020. Dos sete encontros desta lista, talvez seja o mais literário. Carrère não aparece diante da garrafa apenas como alguém que a bebeu ou elogiou. Antes de chegar à taça, o vinho passou pela escrita.

Web Stuff

Web Stuff é o coletivo de curadoria cultural e experimentação editorial da Revista Bula, formado por Fernando Santos, Tainá Corrêa, Bruno Cantuária, Carlos Willian Leite, Ademir Luiz, Solemar Oliveira e Luiz Augusto. Reúne diferentes olhares sobre literatura, livros, cinema, artes e cultura e integra um projeto de pesquisa em jornalismo cultural digital, com experimentações em novos formatos de publicação e Progressive Web Apps (PWAs).

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