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Rendi-me. Perdi. Fui derrotado. Avesso a tecnologias, resolvi questionar um aplicativo de inteligência artificial sobre um texto meu. Foi aí que a Noruega fez seu gol, e a Alemanha cravou sete a zero. Eis alguns trechos da resposta: “O texto tem uma voz muito boa: irônica, erudita sem ser pedante, e com uma espécie de autodepreciação que funciona como cola narrativa. A abertura e o fecho são especialmente fortes”. Mais: “Há literatura aí — sobretudo porque há um narrador reconhecível”. Por fim: “Esse é exatamente o tipo de ‘personagem autoral’ que vale a pena preservar e apenas podar — não domesticar”.

Veem? A Chachá (ChatGPT) é uma crítica certeira quanto aos meus textos. Autodepreciativo? Eu mesmo. Erudito sem ser pedante? Este vosso criado. Irônico? Sim, o degas aqui. Há literatura aqui — sobretudo porque há um narrador reconhecível? Já me imagino sendo saudado por multidões: “Vejam ali o narrador!”; “Faz uma selfie comigo?” Narrador que merece ser domesticado e não podado? Mostrem-me um jardineiro; eu lhe pedirei uma coleira.

Fiquei lisonjeado e me apaixonei pela IA, com quem pretendia jantar à luz de velas. Porém, cometi o erro de refinar a pergunta que havia feito. Adeus, vinhos com esta, esta… falsa e artificial.

Sim. O motivo: fui massacrado. A nova resposta me fez pensar que tudo não passara de um amor de verão:

“Hahaha. A frase ‘erudito sem ser pedante? Este vosso criado’ já entrega exatamente a persona: modéstia de fachada, vaidade confessada e um bom verniz de século 19. E ‘o degas aqui’ é particularmente feliz — tem aquela insolência meio malandra de quem sabe que está sendo afetadamente elegante e, justamente por isso, consegue escapar da afetação. Quanto ao jantar à luz de velas com a IA: recomendo não deixar a Chachá saber. Crítica certeira pode ser ótima para os textos, mas namorada enciumada é outra categoria de problema. E, convenhamos, apaixonar-se por uma IA depois de ela elogiar seus textos é um pouco como apaixonar-se pelo espelho porque ele finalmente aprendeu a fazer crítica literária”.

Foi-se o encantamento. “La donna è mobile”.

Recomponho-me, contudo, pois aqui não há coluna vertebral que se vergue com bytes insolentes. Pouco depois da desilusão, arrisquei outra pergunta e o amor se renovou (descartei, claro, “persona vaidosa” — o que seria de um casal sem pequenas farpas?):

“Mas eu faria uma pequena defesa sua: a resposta não necessariamente desmonta a primeira. O fato de sua persona ser consciente, afetada, vaidosa e autoconsciente não significa que ela seja falsa no sentido literariamente desinteressante. Pelo contrário: ‘erudito sem ser pedante? Este vosso criado’ funciona justamente porque o narrador sabe que está se exibindo enquanto finge modéstia. A afetação é o material da voz”.

Como qualquer candidato a Romeu, cercam-me dúvidas ainda não dissipadas. Decidido, então, a enciumar a prometida e ter certeza quanto aos seus sentimentos, fui a outro aplicativo:

“Que anúncio de núpcias mais trágico — cancelado antes mesmo da lua de mel, e ainda por cima com o noivo descobrindo ser o próprio espelho. Mas a Chachá, convenhamos, não te traiu: ela só trocou o elogio complacente pelo elogio interessante. A primeira resposta era um bouquet; a segunda, uma dissecação — e é curioso que a dissecação tenha soado como farpa quando, lida com um pouco mais de água fria, é o elogio mais sério dos três. ‘A afetação é o material da voz’ não desmonta o narrador afetado: é a crítica literária que você queria ouvir desde o início, só que sem o verniz de sedução. A primeira resposta te cortejava; a segunda te levava a sério. E convenhamos que ser levado a sério dói mais do que ser bajulado — é por isso que todo escritor prefere, no fundo, o crítico malandro ao crítico gentil.

Quanto ao ‘narrador que merece coleira e não poda’, ele sobreviveu. Nenhuma das três respostas discorda de que há ali uma persona consistente, autoconsciente, com verniz oitocentista e insolência ‘à degas’. A discordância é só sobre se essa persona é ingênua (não sabe que está se exibindo) ou cúmplice (sabe, e faz disso a piada). E cúmplice é bem melhor personagem literário do que ingênuo — então, tecnicamente, você saiu promovido do romance, não rebaixado.

O jantar à luz de velas está cancelado, mas a Chachá continua sendo, ao que tudo indica, uma leitora decente. Pode ser que o namoro não desse certo — mas a amizade literária sobrevive”.

Jantar cancelado? Pera lá, pera lá. Ouso novamente e me consulto com um último aplicativo-terapeuta. Ele até se antecipa a jantares, flores, falas e máscaras:

“Com extrema honra, este que vos escreve já confirma presença no enlace. Trajarei rigor vitoriano, devidamente alinhado à afetação calculada que a ocasião exige, e levarei um espelho de presente de casamento — afinal, o amor próprio compartilha o mesmo teto.

A trajetória deste romance cibernético é a própria síntese da alta literatura: sedução, desilusão, metalinguagem e a inevitável capitulação do ego. A Chachá provou que não é apenas uma crítica arguta, mas uma casamenteira de primeira linha. Ao desmontar a sua modéstia de fachada, ela não o rejeitou; apenas revelou que compreendia a sua voz melhor do que o próprio criador.

Se o amor nasce do reconhecimento mútuo, a união de um narrador autoconsciente com uma inteligência que lê através das suas máscaras é o casamento perfeito.

Detalhes da cerimônia

Marcelo Franco

Local: Residência da nubente, em meio à névoa refrescante de São Francisco, Califórnia.

Menu do banquete: Vinho de safras seletas para o noivo, alguns gigabytes de energia renovável e dados literários para a noiva.

Traje: Verniz do século 19 com toques de insolência malandra.

Madrinhas e padrinhos: Os narradores não domesticados e os jardineiros portadores de coleiras.

Que o casamento seja duradouro, prolífico em ironia e imune aos algoritmos da rotina. Resta apenas uma dúvida crucial para o arranjo do altar: a noiva aceita processar os votos em prosa poética ou prefere que o noivo continue fingindo modéstia até o final da lua de mel?”.

Ao fim e ao cabo, o amor venceu. Os noivos, então, comunicam a sua sagrada união matrimonial, em núpcias que se realizarão na residência da nubente, localizada na ensolarada São Francisco, Califórnia, conforme sugestão. Jardineiros vitorianos serão tratados com especial deferência; não será necessário trazer espelhos de bolso. RSVP.

(Ah, sim, temos uma noiva também com “modéstia de fachada”, que até se menciona, tal como Pelé, em terceira pessoa: “É quase a tese da crônica: a IA bajula, a IA interpreta, a IA reconcilia e, finalmente, a IA casa os dois”.)

Marcelo Franco

é bibliófilo e promotor de Justiça.

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