As coincidências existem e ainda podem dizer alguma coisa nos dias atuais. Quem foi buscar recentemente a próxima atração para assistir no cinema e no streaming deu de cara com dois blockbusters históricos de arrasar quarteirão. Alguém teve a coragem e a empáfia de levar narrativas ditas impossíveis de se adaptar para as telas. Estão lá na sala de cinema “A Odisseia”, do diretor Christopher Nolan, e na palma da mão do telefone celular “Cem Anos de Solidão”, numa versão da Netflix com 16 capítulos.
A ousadia de Nolan virou polêmica nas redes sociais. Após terem sequestrado René Girard e espancado seu pensamento, os gurus intelectuais do Vale do Silício gritaram contra a profanação da narrativa de Homero. Onde se viu colocar uma Helena negra no filme? Acusaram o diretor de ser um representante da cultura woke (!). E que história é essa de fundir episódios da “Odisseia”? A gritaria foi impressionante, a ponto de entulhar o YouTube com os novos helenistas e influencers de cultura grega.
A “Graça Infinita” (para usar o título de David Foster Wallace) é a interpretação dos novos gurus de que a “Odisseia” seria uma verdade. Verdade histórica? Contra isso, Nolan teria deturpado algo verdadeiro. Sempre pensamos que os poemas e narrativas fossem mitos, algo antes do tempo histórico, mas que explicam o mundo. De repente, a briga digital corre em torno da veracidade do que era passado de boca em boca, cerca de 800 anos antes de Cristo, numa época em que não havia livros impressos.
O filme de Nolan é uma exuberância visual. Algo que já se percebia em seu “Interestelar” (2014), que criou a imagem muito palpável de buracos negros no universo distante da Terra. Em “A Odisseia”, impressionam as imagens do episódio do Ciclope, da Circe e do canto das sereias com Odisseu/Ulisses preso ao mastro do navio. As conversas de Odisseu e a deusa Calipso são aulas de como funcionam a memória e o esquecimento das pessoas. Enfim, convidam os espectadores a conhecer o livro original.
Ficam duas dicas para quem pretende conhecer mais as narrativas homéricas. A primeira é o livro belíssimo “O Universo, os Deuses, os Homens” (1999), de Jean-Pierre Vernant, que reconta aos netos as histórias gregas. Outro texto fantástico é “O Mundo de Homero” (2000), de Pierre Vidal-Naquet, que coloca os pingos nos “is” nos mal-entendidos. Os dois livros têm a vantagem de serem obras de grandes escritores e pesquisadores de alto nível. São antídotos para os venenos do Vale do Silício.
Na ressaca do filme “A Odisseia”, a Netflix lançou no mês de agosto a segunda parte de “Cem Anos de Solidão”, adaptada do romance de Gabriel García Márquez. O selo de garantia é a supervisão de Rodrigo García, filho do autor e um diretor de altíssimo nível. Se Nolan teve três horas para recriar o texto homérico, a transformação de “Cem Anos” em imagens virou uma narrativa de 16 horas. Há momentos em que nem precisa ter som e narração. Os cenários da cidade fictícia Macondo enchem os olhos.
A série “Cem Anos” da Netflix traz a trajetória da família Buendía ao longo de um tempo sem fim – que começa bem marcado no século 19 da Colômbia. Os tapetes voadores que sempre encantam leitores e leitoras (o famoso “realismo fantástico”) estão ainda bem no segundo plano. O que importa mesmo é o tema da solidão, a começar pelo personagem Aureliano. A cidade de Macondo é a utopia latino-americana das luzes da modernidade, mas que descamba para as trevas com a chegada da empresa bananeira.
O universo de Macondo é a figuração do sistema-mundo da economia global. Segundo Franco Moretti, no livro “Modern Epic”, a literatura apresentou esse sistema no “Fausto” de Goethe, aprofundou-o em “Ulisses” de James Joyce e deu as caras de forma definitiva no livro “Cem Anos de Solidão” de García Márquez. Mais coincidência: o romance “Ulisses” é justamente uma reescrita profanadora de “A odisseia”. O Odisseu moderno é um sujeito atrapalhado que vive em Dublin no ano de 1904.
A família Buendía e Macondo representam a catástrofe da modernidade no que foi batizado de América Latina. Quer entender o funcionamento do mundo? Leia e assista a “Cem Anos de Solidão”. Já “A odisseia” diz muito dos sujeitos que vagam por essa região chamada mar Mediterrâneo. Antes, era Odisseu no retorno para casa naquelas águas. Hoje são os refugiados africanos e do Oriente Médio que são recebidos por governos e polícias na Europa com espírito de ciclopes, Circes e cantos de sereia.

