Vinho é uma das poucas coisas que ainda conseguem transformar preço em argumento moral. Uma garrafa de R$ 80 pode ser excelente e, assim mesmo, haverá quem a olhe com a condescendência reservada aos parentes pobres; outra, de R$ 800, chega à mesa cercada de silêncio, taças melhores, alguma solenidade e o benefício da dúvida. Antes mesmo de a rolha sair, já se decidiu qual delas merece respeito. Não deixa de ser curioso que um líquido sujeito a safra, solo, clima, madeira, transporte, armazenamento, gosto pessoal e uma quantidade razoável de acaso tenha acabado submetido a uma aritmética tão cômoda: quanto mais caro, melhor.
Não é assim, por óbvio, embora também seja tolice fingir que preço não significa nada. Grandes produtores cobram caro porque podem, mas muitas vezes também porque trabalham com vinhedos excepcionais, rendimentos pequenos, longos estágios, equipes caras e décadas de reputação acumulada. O problema começa quando tudo isso é transformado numa espécie de salvo-conduto e esquecemos que, dentro da garrafa, continua havendo vinho. Já participei de mesas em que o rótulo mais comentado era justamente aquele que ninguém teria comprado se soubesse antes quanto custava; e também do contrário, quando uma garrafa modesta começa a circular, todos gostam, alguém pergunta o preço e a surpresa muda até o jeito como se volta a cheirá-la.
Foi pensando nessa zona meio nebulosa entre valor, prestígio e prazer que escolhi cinco vinhos encontrados por até R$ 100 e que eu colocaria sem constrangimento numa mesa ocupada por garrafas de quatro dígitos. Não há aqui a promessa infantil de que um vinho de R$ 90 irá derrotar outro de R$ 1.000, como se estivéssemos organizando uma luta clandestina entre Cabernet Sauvignon e Malbec. Há algo mais interessante. São rótulos de produtores consistentes, alguns muito bem avaliados por críticos e concursos respeitados, com matéria-prima, equilíbrio e personalidade suficientes para sobreviver quando o preço deixa de ser apresentado antes do primeiro gole.
E talvez essa seja a melhor maneira de beber vinho de vez em quando: sem saber quanto custou. A garrafa perde o sobrenome, o prestígio fica do lado de fora da taça e sobra apenas aquilo que deveria importar desde o começo. O vinho.
Punto Final Family Signature Reserva Malbec

Luján de Cuyo é um daqueles lugares em que o Malbec deixou há muito de ser apenas uma uva e passou a funcionar quase como idioma. Nesta garrafa, a fruta aparece madura, mas sem cair naquela doçura pesada que tantas vezes transforma tintos argentinos mais baratos em coisa cansativa antes do fim da segunda taça. Ameixa, cereja escura, violeta e alguma especiaria surgem acompanhadas por uma madeira discreta, depois de seis meses em carvalho francês.
A safra reuniu 91 pontos da Decanter e da Wine Enthusiast e 90 de Robert Parker, James Suckling, Tim Atkin e Wine & Spirits, uma concordância incomum numa faixa em que geralmente se espera apenas correção. O mais importante, contudo, está no copo. Há concentração, mas existe acidez suficiente para não deixar o vinho pesado, e os taninos aparecem macios, sem aquela aspereza usada às vezes como falsa demonstração de potência.
É uma garrafa que eu serviria às cegas sem dar qualquer pista sobre preço. Não porque custe pouco e precise ser desculpada por isso, mas porque entrega estrutura, fruta e frescor com uma naturalidade que muita coisa mais cara perde ao tentar parecer importante. Por menos de R$ 100, a conta começa a ficar desconfortável para quem ainda acredita que preço e qualidade sobem sempre juntos.
Características
Malbec com pequena participação de Cabernet Franc, produzido em Mendoza. Frutas vermelhas e negras maduras, violetas, especiarias e notas sutis de carvalho. Corpo médio para encorpado, taninos macios, boa acidez e final persistente.
Harmonização
Carnes grelhadas ou assadas, massas com molhos intensos, empanadas, hambúrguer artesanal, cordeiro e queijos de média maturação.
Viu Manent Gran Reserva Cabernet Sauvignon

Há Cabernet Sauvignon crescendo há mais de cem anos em setores de San Carlos de Cunaco, no vale de Colchagua, e talvez venha daí a segurança com que se trabalha uma variedade que costuma produzir tanto vinhos excelentes quanto uma legião de exemplares sem graça alguma. Aqui aparecem cassis, fruta vermelha madura, figo e especiarias, com madeira suficiente para dar contorno ao conjunto, não para cobrir a fruta como uma camada de verniz.
A safra 2022 recebeu 92 pontos no Guia Descorchados. A nota chama atenção num rótulo dessa faixa, mas o vinho não depende dela para justificar-se. Os taninos são firmes, sem brutalidade, a acidez segura o peso e a fruta permanece viva até o final. É um Cabernet de corpo generoso, mas sem aquela necessidade de exibir álcool, extração e barrica como quem chega a uma festa fazendo barulho para garantir que todos perceberam sua presença.
Por cerca de R$ 90, há matéria-prima, experiência e uma dose importante de contenção. Eu não o colocaria numa mesa de garrafas caras para fazer uma brincadeira com os convidados, e sim porque ele estaria perfeitamente no lugar. Algumas garrafas custam mais porque são melhores. Outras custam mais porque podem.
Características
Cabernet Sauvignon do vale de Colchagua, com frutas vermelhas maduras, cassis, figo, especiarias e notas discretas de madeira. Estruturado, de taninos firmes e equilibrados, corpo generoso e final marcado pela fruta.
Harmonização
Carnes bovinas assadas ou grelhadas, costela, cordeiro, massas com ragu, polenta com cogumelos e queijos curados.
Viu Manent Gran Reserva Malbec

Malbec tornou-se sinônimo de Argentina a tal ponto que beber a variedade do outro lado dos Andes já traz uma pequena surpresa. No vale de Colchagua, ela ganha outra feição. Cereja, ameixa e mirtilo aparecem junto de notas florais e um tostado discreto, sem que a fruta seja empurrada para debaixo da madeira. O resultado conserva a generosidade esperada da uva, mas com uma frescura que faz diferença.
A safra 2022 recebeu 92 pontos do Guia Descorchados e 91 de Tim Atkin. No copo, esse bom desempenho aparece menos na potência que no equilíbrio. Há estrutura, taninos suaves, acidez viva e persistência, atributos que parecem elementares quando escritos numa ficha técnica, mas que raramente chegam juntos em tintos baratos feitos para agradar já no primeiro gole e desaparecer da memória no minuto seguinte.
Por R$ 89,90, não precisa imitar os grandes exemplares mendocinos nem pedir licença por nascer no Chile. Tem personalidade suficiente para escapar daquele imenso corredor de Malbecs intercambiáveis que ocupam supermercados e lojas especializadas. É justamente essa ausência de esforço para parecer mais caro que acaba tornando a comparação inevitável.
Características
Malbec do vale de Colchagua, de cor profunda, com cerejas maduras, ameixas, mirtilos, notas florais e discretos toques tostados. Boa estrutura, taninos suaves, acidez equilibrada e final longo.
Harmonização
Carnes na brasa, cordeiro assado, embutidos, linguiças artesanais, pratos com cogumelos, massas de molho escuro e queijos semiduros.
Familia Torres Viña Esmeralda 2024

Moscatel e Gewürztraminer são duas uvas que entram numa taça sem nenhuma intenção de passar despercebidas. Flores brancas, jasmim, flor de laranjeira, lichia e pêssego surgem quase de imediato, o que poderia facilmente descambar para um branco excessivamente perfumado e enjoativo. Não acontece. A acidez e a leveza seguram a exuberância aromática e deixam o vinho limpo, fresco, perigosamente fácil de beber.
A safra 2024 recebeu 93 pontos no Decanter World Wine Awards, resultado pouco comum para uma garrafa encontrada no Brasil abaixo dos R$ 100. A boa notícia é que ela não tem cara de vinho montado para concurso. Nada de madeira fazendo pose, concentração desnecessária ou solenidade. É um branco que vive de perfume, frescor e precisão, e talvez seja justamente essa simplicidade bem resolvida que explique a nota.
Bem gelado, pode abrir uma refeição, atravessar pratos de peixe e frutos do mar e ainda enfrentar temperos asiáticos sem desaparecer no caminho. Eu o colocaria perto de brancos muito mais caros porque há uma elegância particular em vinhos que sabem exatamente até onde devem ir. Passar do ponto também custa dinheiro.
Características
Branco aromático catalão elaborado sobretudo com Moscatel e Gewürztraminer. Notas de flores brancas, flor de laranjeira, lichia, pêssego e frutas frescas. Leve, perfumado, de boa acidez e final delicado.
Harmonização
Peixes, frutos do mar, ceviche, sushi, comida tailandesa e vietnamita, saladas, queijos leves e pratos com especiarias moderadas.
Vale do Rocim 2023

O Alentejo tem sol de sobra e, quando ninguém toma cuidado, isso pode acabar dentro da garrafa sob a forma de álcool, fruta excessivamente madura e peso. Aqui, Alicante Bouschet, Touriga Nacional e Touriga Franca seguem um caminho menos óbvio. Há fruta negra e vermelha, alguma nota floral, especiarias e um fundo terroso, com madeira suficiente apenas para acrescentar profundidade ao corte.
A Alicante Bouschet entra com cor e estrutura, a Touriga Nacional traz perfume, enquanto a Touriga Franca ajuda a deixar o conjunto menos severo. Parece simples quando reduzido a três castas, mas o ponto interessante está justamente no modo como nenhuma delas resolve tomar conta do vinho. Há corpo e taninos, naturalmente, porém a acidez impede que o calor alentejano transforme cada gole numa pequena prova de resistência.
Por R$ 99,98, fica dois centavos aquém do limite desta lista e bastante acima do que se espera de uma garrafa escolhida pelo preço. Eu não procuraria aqui uma versão econômica de um grande tinto português. Procuraria vinho, o que parece uma obviedade até que se começa a pagar muito mais por coisas que vêm junto dele e não necessariamente dentro dele.
Características
Corte alentejano de Alicante Bouschet, Touriga Nacional e Touriga Franca. Frutas vermelhas e negras, notas florais, especiarias e discretos toques terrosos e de madeira. Corpo médio para encorpado, taninos presentes, boa acidez e final persistente.
Harmonização
Carne de porco, cordeiro, carnes assadas, cozidos portugueses, massas com molhos encorpados, cogumelos e queijos de média maturação.

