Três das sete garrafas vêm de Utiel-Requena, região espanhola que talvez diga pouco ao consumidor brasileiro, mas que aparece aqui com uma insistência difícil de ignorar. Toro Loco Superior, Valtier Reserva e Enterizo Bobal-Tempranillo chegam de lá com medalhas no currículo e preços que, em alguns casos, descem para perto de quarenta reais. Portugal responde com o Terras de Cartaxo, agraciado com Grande Medalha de Ouro no Concours Mondial de Bruxelles, e com o Castelo do Sulco; a França manda um Bordeaux de 93 pontos no Decanter; a Argentina fecha a conta com um Malbec de Mendoza premiado duas vezes com ouro.
O curioso é que nenhuma dessas distinções parece ter conseguido convencer o comércio a cobrar pelo prestígio. O Château Cilorn continua na casa dos R$ 59,90; o Toro Loco ronda os cinquenta; o Enterizo pode cair para perto de trinta e três reais quando comprado em kit. Há nesse descompasso alguma coisa de especialmente agradável para quem já se acostumou a ver garrafas modestas revestidas de linguagem solene, rótulos severos e preços que às vezes parecem ter sido definidos por um tabelião.
Medalha, por si só, não transforma vinho em obra-prima, e preço baixo tampouco é virtude enológica. O que chama atenção aqui é quando uma coisa encontra a outra sem que o conteúdo da garrafa peça desculpas. Em Bordeaux, essa conversa começa com um Merlot que dispensou a barrica e, mesmo assim, saiu de uma prova do Decanter com 93 pontos.
Château Cilorn

Bordeaux é um desses lugares onde o preço de uma garrafa pode começar em duas notas e terminar no valor de um automóvel razoável, sem que o leigo compreenda muito bem o que aconteceu no caminho. Felizmente, esta está na primeira ponta dessa escala. Feita só de Merlot e sem passagem por barrica, dispensa a encenação aristocrática e vai direto ao que interessa. A safra 2018 recebeu 93 pontos e medalha de prata no Decanter World Wine Awards de 2020, façanha pouco banal para um francês que ainda aparece por menos de sessenta reais.
Na taça, cereja, ameixa e cassis chegam antes, seguidos por especiarias e uma nota terrosa que impede a fruta de cair no óbvio. Os taninos são finos, há boa acidez e o corpo fica naquele ponto em que o vinho acompanha um jantar sem querer participar da conversa. A ausência de madeira ajuda. Muita barrica já foi usada para dar importância artificial a vinhos que não sabiam o que fazer sozinhos.
Aqui não há esse problema. Não é um grande Bordeaux perdido por engano numa prateleira popular, e procurar isso seria uma boa maneira de arruinar a experiência. É um Bordeaux correto, seco, equilibrado, reconhecido numa prova importante e vendido por um preço em que quase sempre já começamos a perdoar defeitos. Aqui há muito pouco a perdoar.
Características
Tinto seco elaborado com Merlot, de corpo médio, taninos finos e acidez viva. Traz cereja, ameixa, cassis, especiarias e notas terrosas, sem passagem por barrica.
Harmonização
Carnes vermelhas grelhadas, porco assado, massas com molho de tomate, embutidos, hambúrguer, lasanha e queijos amarelos.
Terras de Cartaxo Clássico DOC do Tejo

Há vinhos que parecem ter sido criados para constranger a prateleira ao lado. Este é um deles. Touriga Nacional, Castelão, Trincadeira e Tinta Roriz formam o corte deste tinto do Tejo, produzido pela Adega Cooperativa do Cartaxo, casa que aparentemente não recebeu o memorando segundo o qual vinho barato deve limitar-se a ser inofensivo. A safra 2024 levou Grande Medalha de Ouro no Concours Mondial de Bruxelles de 2026, além de ouro no Mundus Vini e no Vinalies International.
Frutos silvestres aparecem no nariz com alguma nota tostada, e a boca confirma que ninguém tentou transformar o vinho numa geleia alcoólica. Há intensidade, mas também frescor. A madeira participa sem comandar a reunião, os taninos têm presença e o conjunto conserva uma vivacidade que faz diferença depois da segunda taça. Parece pouco até lembrarmos quantos tintos muito mais caros começam bem e terminam cansando antes do prato principal.
Por cinquenta reais, este tinto aproxima perigosamente custo-benefício de deboche. Não é o vinho mais complexo da região, nem pretende ser. A graça está justamente na desproporção entre o que custa e o que entrega. Uma Grande Medalha de Ouro não transforma ninguém em gênio; neste caso, ao menos confirma que a pechincha não é apenas impressão de supermercado.
Características
Tinto DOC do Tejo elaborado com Touriga Nacional, Castelão, Trincadeira e Tinta Roriz. Tem frutos silvestres, notas tostadas, boa intensidade, frescor, equilíbrio e final persistente.
Harmonização
Carnes vermelhas, assados, cordeiro, arroz de costela, massas com ragu, linguiças e queijos curados.
Toro Loco Superior

Um vinho com um touro no rótulo e vendido por menos de cinquenta reais reúne quase tudo de que precisamos para desconfiar. Melhor ainda quando a desconfiança dá errado. Produzido em Utiel-Requena com Tempranillo e Bobal, o rótulo ganhou ouro no Berliner Wein Trophy, prata no Catavinum e bronze no Decanter World Wine Awards. O currículo é muito mais sério que o nome.
As vinhas em altitude ajudam a preservar frescor, e isso aparece logo no primeiro gole. Cereja, morango e outras frutas vermelhas dominam o vinho, acompanhadas por taninos dóceis e uma acidez que o mantém acordado. Não há madeira tentando transformar um sujeito simples num lorde espanhol. Prefere continuar sendo aquilo que é, e faz muito bem.
É um vinho de comida, conversa e segunda garrafa. Pode-se procurar nele grande profundidade, evolução interminável ou algum segredo mineral escondido nas entranhas de Valência, mas seria uma forma bastante sofisticada de perder tempo. O que há é um tinto seco, limpo, frutado e premiado que custa cinquenta reais. Às vezes o touro é só um touro.
Características
Blend de Tempranillo e Bobal, fresco e suculento, de taninos macios e fruta vermelha evidente. Morango e cereja aparecem com destaque, acompanhados por boa acidez.
Harmonização
Carne bovina, frango assado, hambúrguer, linguiças, almôndegas, massas, pizza e empanadas.
Valtier Reserva

Comprar vinho em kit desperta o mesmo desconforto de adquirir meia dúzia de meias iguais, até que a conta seja feita. Avulso, custa mais, mas cai para quarenta ou cinquenta reais por garrafa em promoções, e é nessa condição que começa a fazer sentido. Produzido com Tempranillo e Bobal, passou 24 meses por carvalho americano na safra 2017 e ganhou ouro no Berliner Wine Trophy.
Aqui a madeira já tem opinião. Ameixa madura, especiarias, pimenta e tostado aparecem com nitidez, e a boca é mais cheia que a dos tintos anteriores. Os taninos são redondos, o vinho tem alguma gravidade e melhora depois de respirar. Não é necessário decantador de cristal nem qualquer outro utensílio capaz de transformar o jantar numa reunião diplomática. Meia hora aberto resolve boa parte da questão.
A preço cheio, eu pensaria. Perto de quarenta reais, pensaria em quantas garrafas cabem no armário. Essa é a curiosa matemática da promoção. O vinho não muda, mas o julgamento muda muito quando dois anos de madeira e uma medalha de ouro passam a custar o mesmo que certos rótulos cuja maior façanha foi contratar um bom designer.
Características
Tinto de Tempranillo e Bobal, encorpado e equilibrado, com taninos macios e redondos. Traz ameixa madura, pimenta, tostado e especiarias, com influência perceptível do carvalho americano.
Harmonização
Carnes vermelhas, caça, cordeiro, churrasco, massas com molhos intensos, pratos condimentados e queijos curados.
Castelo do Sulco Reserva Seleção dos Enólogos

“Seleção dos Enólogos” é uma expressão que já chega à mesa pedindo fiscalização. O rótulo sobrevive ao nome e, por quarenta reais, faz mais que isso. Produzido na região de Lisboa a partir de Touriga Nacional, Syrah e Tinta Roriz, passa brevemente por carvalho francês. A safra 2020 recebeu 90 pontos da Wine Enthusiast, e a de 2019 conquistou prata na London Wine Competition.
Há fruta vermelha madura, especiarias e uma nota de madeira que não precisa ficar anunciando a própria existência. O vinho tem volume, mas conserva maciez; tem persistência, mas não se prolonga por obrigação. É justamente esse comedimento que o deixa agradável. Muito tinto barato se esforça tanto para parecer potente que acaba lembrando um sujeito gritando num restaurante vazio.
Este fala num volume civilizado. Ninguém deve esperar os mistérios de uma garrafa destinada a envelhecer vinte anos numa cave de pedra, até porque provavelmente será aberta na próxima sexta-feira. Para isso está muito bem preparada. Por menos de quarenta reais, 90 pontos deixam de ser apenas um número e passam a constituir uma pequena provocação.
Características
Tinto da região de Lisboa elaborado com Touriga Nacional, Syrah e Tinta Roriz, com passagem breve por carvalho francês. Tem fruta vermelha madura, especiarias, boa maciez e final persistente.
Harmonização
Carnes assadas ou grelhadas, cordeiro, porco, massas com molho de carne, arroz de pato, enchidos e queijos de média cura.
Enterizo Bobal-Tempranillo

A Bobal passou tempo demais fazendo o trabalho pesado sem receber os aplausos. Foi usada durante décadas para dar cor, corpo e volume a vinhos dos outros, enquanto castas mais famosas apareciam na fotografia. Este corte resolve parcialmente essa injustiça. São 80% de Bobal e 20% de Tempranillo num tinto de Utiel-Requena que já ganhou ouro no Portugal Wine Trophy, no Asia Wine Trophy e no Gilbert & Gaillard.
A cor é carregada, com reflexos violáceos, e o aroma entrega framboesa e amora sem exigir grande investigação. Em boca, é redondo, tem corpo médio e fruta suficiente para conservar o interesse até o fim. Não há qualquer tentativa de fazer dele uma experiência mística. É vinho jovem e comporta-se como tal, o que já representa um avanço diante de produtores que parecem envergonhados da juventude de suas próprias garrafas.
Avulso, por cinquenta reais, é uma boa compra. Em kit, quando desce para perto de trinta e três, torna-se quase uma irregularidade administrativa. Não é preciso descobrir nele terroir, filosofia ou mensagens cifradas. Basta abrir, beber e perceber que três medalhas de ouro podem custar menos que uma pizza grande. A civilização ainda produz seus pequenos milagres.
Características
Tinto jovem elaborado com 80% Bobal e 20% Tempranillo. Tem cor cereja com reflexos violetas, aromas de framboesa e amora, corpo médio, boa estrutura e textura redonda.
Harmonização
Carnes vermelhas, pizzas, massas com molho de tomate, queijos, aves assadas, hambúrguer e embutidos.
Epic Wines Malbec Old Vine Selection

“Old Vine” tornou-se uma expressão tão útil ao comércio de vinho que qualquer dia aparecerá impressa em garrafa produzida na terça-feira. Aqui, contudo, há vinho suficiente para sustentar a promessa. Produzido pela Belhara Estate em Mendoza, este Malbec recebeu ouro no Gilbert & Gaillard International Challenge de 2025 e na London Wine Competition. Custa R$ 59,90 e, portanto, chega ao limite da nossa brincadeira sem direito a desculpas.
Cereja e framboesa aparecem primeiro, mas logo surgem frutas mais escuras, como mirtilo e amora, junto de café torrado e canela. Os taninos são macios, o corpo tem boa medida e o final dura o suficiente para que o próximo gole não seja apenas uma continuação automática do anterior. Também não há aquela doçura cansativa que transformou parte do Malbec argentino de exportação numa espécie de refrigerante sério.
Dos sete, este é o que precisa provar mais porque custa mais. Prova. Não se trata de um achado secreto de Mendoza que deveria valer trezentos reais — essa conversa normalmente termina numa loja querendo vender vinho —, mas de um Malbec bem-feito, equilibrado, duas vezes dourado e ainda abaixo dos sessenta. Se cair para cinquenta e poucos, a dúvida deixa de ser se vale a pena e passa a ser quantas garrafas levar.
Características
Malbec de Mendoza de perfil floral e frutado, com taninos macios e final longo. Cereja, framboesa, mirtilo, amora-preta, café torrado e canela formam o núcleo aromático.
Harmonização
Carnes vermelhas, bife ancho, churrasco, cordeiro, pizzas, massas com molho vermelho, ragu e queijos curados.

