Ryland Grace (Ryan Gosling) acorda sozinho dentro de uma nave, a anos-luz da Terra, sem lembrar o próprio nome nem saber por que foi enviado ao espaço. Aos poucos, o professor de ciências recupera partes da memória e descobre que recebeu uma missão que ninguém mais pode cumprir. Em “Devoradores de Estrelas”, dirigido por Phil Lord e Christopher Miller, ele precisa descobrir o que está enfraquecendo o Sol antes que a queda de sua energia torne a vida no planeta insustentável.
Grace está longe do perfil tradicional do astronauta. Antes da viagem, dava aulas de ciências no ensino médio e levava uma vida muito mais próxima de laboratórios escolares do que de missões espaciais. Seu conhecimento, porém, torna-se valioso quando cientistas descobrem uma forma de vida capaz de consumir energia das estrelas. A ameaça não está restrita ao Sol. Outros sistemas apresentam o mesmo fenômeno, deixando evidente que a humanidade enfrenta algo que desconhece e para o qual ainda não possui defesa.
Um professor enviado ao impossível
As primeiras horas de Grace dentro da nave são marcadas por perguntas básicas. Ele precisa descobrir onde está, quanto tempo passou desacordado e por que não existe ninguém para responder às suas dúvidas. Os equipamentos ao redor oferecem algumas pistas, enquanto lembranças fragmentadas devolvem informações sobre sua vida na Terra.
É nesse passado que surge Eva Stratt (Sandra Hüller), responsável por coordenar os esforços internacionais diante da crise. Ela reúne especialistas de diferentes áreas porque o problema não respeita fronteiras, governos ou disputas políticas. Se o Sol continuar perdendo energia, as consequências chegarão a todos. Grace entra nesse grupo por causa de seus conhecimentos científicos e de pesquisas que podem ajudar a estudar o organismo responsável pelo fenômeno.
Sandra Hüller interpreta Stratt com uma frieza que combina com alguém obrigada a tomar decisões desagradáveis sob pressão. Ela possui autoridade suficiente para mobilizar cientistas e recursos em vários países, mas trabalha contra um prazo que ninguém consegue prolongar. Para ela, salvar bilhões de pessoas pesa mais do que preservar o conforto de qualquer indivíduo envolvido no projeto.
Grace, por sua vez, está longe de receber essa responsabilidade com entusiasmo. Ryan Gosling faz do personagem um homem inteligente, curioso e assustado pela dimensão do que colocaram diante dele. Há certa graça em vê-lo recorrer ao raciocínio de professor diante de uma situação que parece pertencer a outro universo. Ele observa, levanta hipóteses, erra e volta ao problema, muitas vezes falando sozinho porque literalmente não existe ninguém ao redor.
A ciência vira questão de sobrevivência
“Devoradores de Estrelas” trabalha conceitos científicos sem transformar a história em uma sequência de aulas. Cada informação interessa porque Grace precisa usá-la. Descobrir como o organismo se alimenta, onde consegue sobreviver e quais condições alteram seu comportamento pode representar a diferença entre retornar com uma solução ou deixar a Terra sem defesa.
O protagonista passa boa parte de seu tempo examinando amostras, equipamentos e dados. Essas atividades poderiam deixar o filme frio, principalmente porque existe apenas um homem dentro daquela nave. Ryan Gosling oferece leveza ao personagem e dá personalidade às pequenas derrotas do cotidiano. Grace pode estar tentando salvar a humanidade, mas continua sendo um sujeito que se irrita quando algo não funciona e comemora pequenas descobertas com entusiasmo quase infantil.
Phil Lord e Christopher Miller aproveitam essa característica para manter a aventura acessível. O perigo permanece enorme, mas o protagonista não passa duas horas carregando uma expressão solene de herói. Ele pensa como cientista e reage como alguém que adoraria ter recebido uma missão um pouco menos assustadora.
A situação muda quando Grace percebe que talvez não esteja tão sozinho quanto imaginava.
Rocky transforma a missão
O encontro com Rocky (James Ortiz) muda profundamente “Devoradores de Estrelas”. A criatura pertence a uma espécie completamente diferente da humana e também enfrenta uma ameaça ligada ao fenômeno que Grace investiga. Os dois chegam ao mesmo ponto do espaço por razões parecidas, embora não compartilhem língua, cultura, aparência ou sequer as mesmas condições físicas para sobreviver.
Antes de colaborarem, precisam conseguir conversar.
Essa aproximação rende algumas das passagens mais divertidas e afetuosas do longa. Grace usa sons, padrões e associações para construir uma forma básica de comunicação com Rocky. Cada pequeno avanço permite transmitir uma informação mais complexa. A ciência deixa de ser somente ferramenta para resolver a crise das estrelas e passa a estabelecer uma ponte entre dois seres que jamais deveriam ter se conhecido.
Rocky também quebra o isolamento que dominava a vida de Grace dentro da nave. James Ortiz dá personalidade ao personagem por meio da voz e da performance, criando uma figura curiosa, inteligente e surpreendentemente carismática. A relação cresce porque ambos possuem algo concreto a oferecer. Cada um conhece elementos que o outro desconhece, e trabalhar em conjunto aumenta as chances de suas espécies sobreviverem.
A amizade nunca apaga a urgência da missão. Grace e Rocky continuam separados por diferenças físicas enormes, e qualquer solução precisa considerar ambientes, necessidades e tecnologias que não foram feitas para funcionar juntas. É dessa dificuldade que nasce boa parte da graça de “Devoradores de Estrelas”. Dois cientistas podem concordar sobre um problema e ainda assim levar algum tempo para descobrir até como dividir o mesmo espaço.
Gosling encontra seu melhor parceiro
Ryan Gosling encontra em Rocky um parceiro capaz de quebrar a monotonia que poderia surgir de um filme passado durante longos períodos dentro de uma nave. Grace muda quando finalmente tem alguém a quem explicar suas ideias, reclamar dos problemas e pedir ajuda. A relação também revela aspectos de sua personalidade que as lembranças da Terra ainda não haviam mostrado.
Os flashbacks continuam importantes porque completam as lacunas da missão. Eva Stratt reaparece nesses trechos e ajuda a explicar por que Grace acabou envolvido na operação. Em vez de despejar todo o passado nos primeiros minutos, “Devoradores de Estrelas” acompanha a memória do protagonista. O espectador recebe as informações enquanto ele próprio descobre quem era e quais decisões o levaram até aquele ponto.
Essa estrutura também preserva uma pergunta importante durante boa parte da história. Grace sabe qual tarefa precisa cumprir, mas compreender como aceitou participar dela é outro problema. O passado passa a carregar um peso tão grande quanto aquilo que está acontecendo dentro da nave.
Uma aventura sustentada pela amizade
O roteiro de Drew Goddard, baseado no romance de Andy Weir, possui todos os ingredientes de uma grande aventura espacial. Há uma ameaça global, experimentos científicos, viagens interestelares e uma missão da qual depende a sobrevivência humana. Ainda assim, “Devoradores de Estrelas” se torna mais interessante quando diminui a escala e aproxima Grace de Rocky.
A relação entre os dois oferece humanidade a uma história cercada por cálculos, equipamentos e fenômenos astronômicos. Grace começou a missão acordando sem nome, companhia ou lembranças. Encontrar alguém tão distante de tudo o que conhece lhe devolve algo que nenhuma máquina da nave poderia oferecer.
“Devoradores de Estrelas” equilibra ficção científica, aventura e comédia sem tratar a ciência como mero enfeite. Cada descoberta empurra Grace para uma nova dificuldade, enquanto Rocky transforma uma missão solitária em uma parceria improvável. Phil Lord e Christopher Miller encontram espaço para a grandiosidade do universo sem perder de vista dois personagens tentando resolver problemas juntos. E, diante de uma estrela morrendo e bilhões de vidas em risco, talvez essa seja a parte mais fácil de compreender.

