Num mundo cada vez mais imediatista, sete anos podem ser a diferença entre a Era Mesozoica e os carros voadores que nunca saíram do papel. Querer cravar até onde pode ir a tecnologia e todas as falsas urgências de que a imbuímos tem se mostrado uma inutilidade. Não é nenhum absurdo dizer que seres humanos temos promovido mudanças em nossa natureza para acompanhar a incessante (e perigosa) revolução das máquinas, premissa sobre a qual “Toy Story 5” se debruça com a costumeira mescla de reflexão e ludicidade. Josh Cooley esboçou uma apreciação do tema em “Toy Story 4” (2019), e agora Andrew Stanton e McKenna Harris levam o público pelo longa mais relevante da série, num mergulho de fôlego nas bizarrices da infância de hoje.
Infância roubada
Como poderá ser o futuro de alguém que aos oito anos não consegue fazer nenhum amigo? Esse é o incômodo que Bonnie desperta, mais em quem assiste do que nos próprios pais da garota, que recorrem a uma solução fácil e errada para resolver o problema. Eles dão à filha um tablet em forma de sapo chamado Lilypad, vendido como a panaceia para esse velho mal-estar da civilização, mas que, na verdade, só agrava o isolamento e a angústia. Se dependesse de Bonnie, as outras crianças é que brincariam como ela, e é essa a missão a que se lança Jessie, a vaqueira que foi primeiro de Emily e passou para Andy, nessa ordem, agora jovens adultos preocupados em tirar boas notas na faculdade e em arrumar um emprego que lhes garanta um salário digno para a hipoteca. Stanton e Harris abastecem o roteiro de ótimos diálogos acerca da invasão de dispositivos, telas e câmeras, contando com as vozes de Joan Cusack e Tom Hanks a fim de materializar a indignação bem-humorada de Jessie e do veterano xerife Woody, calvo e barrigudo, quanto à miséria anímica dos nativos digitais. Trágico mesmo é saber que não temos escolha.

