Desde tenra idade, sabemos que o diabo nunca é tão feio quanto se pinta. Manifestações do mal rondam-nos sob formas as mais insuspeitas, às vezes até poéticas, e por essa razão inspiram uma raríssima delicadeza. Nosso instinto de preservação mais básico, que surge ninguém sabe como nem de onde, tenta, mas não consegue desviar-nos de perigos imperiosos e de gente feita à imagem e semelhança do próprio diabo, e aí “Instinto Secreto” começa a fazer todo o sentido. Empresário de sucesso, marido devotado e pai amoroso, Earl Brooks, o protagonista do filme de Bruce A. Evans, não domina mais sua compulsão por matar e vai familiarizando-se com a ideia de terminar no corredor da morte ao cometer um deslize banal — ou é isso que o diretor quer que o respeitável público imagine. Evans e Raynold Gideon repetem a parceria de sucessos como “Conta Comigo” (1986), dirigido por Rob Reiner (1947-2025), e “Starman: O Homem das Estrelas” (1984), de John Carpenter, distraindo o espectador com truques fáceis e tirando mil coelhos da cartola, para que a atração principal tome o picadeiro.
Dupla identidade
Brooks é o retrato do capitalismo americano. Esse típico self-made man venceu oferecendo caixas de papelão às megaempresas do antes poderoso cinturão do aço e viu sua fortuna multiplicar-se ao atender o emergente cinturão da madeira em sua Oregon natal. Não demorou muito e seu patrimônio o levou a ser um dos maiores filantropos de Portland, e daí para faturar a eleição de Homem do Ano foi um pulo. A história poderia acabar nesse oportuno final feliz, não fosse ele um assassino em série que caça vítimas aleatórias e toma o cuidado de usar o aspirador de pó e levar consigo a imundície depois do sangue derramado, embora dessa vez tenha feito uma lambança. Agora, além de ser obrigado a aturar Marshall, o antissuperego que, ao invés de reprimi-lo, o empurra para a barbárie, é perseguido por alguém que se apresenta como Smith, possivelmente menos danoso, porém desequilibrado em igual medida, que para não denunciá-lo exige ir com ele no próximo ataque. “Instinto Secreto” balança entre essas três figuras forjadas no mais puro nonsense, e Kevin Costner, o saudoso William Hurt (1950-2022) e Dane Cook deitam e rolam. Resta só levantar uma questão: o que Demi Moore estava fazendo ali?

