Mort Rainey (Johnny Depp) está longe de viver uma boa fase. Escritor conhecido, ele se refugiou em uma casa isolada depois de descobrir que a mulher, Amy Rainey (Maria Bello), mantinha um relacionamento com outro homem. É nesse período de separação, ressentimento e bloqueio criativo que começa “A Janela Secreta”, suspense de 2004 dirigido por David Koepp e estrelado também por John Turturro. Mort quer terminar o divórcio e recuperar alguma rotina, mas John Shooter (Turturro) surge à sua porta afirmando que ele roubou uma de suas histórias.
Shooter entrega um manuscrito e acusa Mort de ter copiado seu conto quase palavra por palavra. O escritor reconhece a enorme semelhança entre as duas versões, porém garante que publicou aquela história anos antes. Para ele, existe uma maneira simples de encerrar a discussão. Basta apresentar a edição da revista em que seu conto apareceu antes da data indicada por Shooter. A partir desse momento, encontrar a publicação deixa de ser uma questão de vaidade literária. Mort precisa dela para defender seu nome e afastar um homem que demonstra pouca disposição para desaparecer.
Um escritor longe de todos
A escolha de Mort de viver afastado ganha peso conforme Shooter passa a frequentar seus arredores. A casa cercada por mata e voltada para um lago combina perfeitamente com alguém que deseja desaparecer por alguns dias, mas é péssima para quem acabou de receber ameaças. Mort passa boa parte do tempo sozinho, dormindo no sofá, andando de roupão e tentando escrever sem grande sucesso. Há certo ridículo cotidiano nisso, e Johnny Depp aproveita essa fragilidade para deixar o personagem menos solene.
Mort também ainda está emocionalmente ligado ao fim do casamento. Amy tenta resolver questões pendentes da separação, enquanto Ted Milner (Timothy Hutton), homem com quem ela se relacionou, representa para ele uma lembrança bastante desagradável da traição. Qualquer conversa sobre documentos ou bens rapidamente encosta em feridas pessoais. Mort, portanto, enfrenta dois problemas ao mesmo tempo. Precisa concluir uma separação que ainda o machuca e provar a autoria de um texto antes que Shooter cumpra suas ameaças.
Shooter começa a cobrar
John Turturro faz de Shooter uma presença incômoda desde a primeira visita. Ele fala pausadamente, mantém uma educação estranha e parece muito mais interessado em obter uma confissão do que em ouvir qualquer defesa. Mort tenta argumentar que a data da publicação resolverá a disputa, mas Shooter insiste que quer ver a prova. Sua cobrança cresce à medida que o escritor demora a conseguir a revista.
O caso deixa de parecer apenas uma briga entre dois autores quando acontecimentos violentos passam a cercar Mort. Seu cachorro é morto, e a possibilidade de Shooter estar disposto a atacar outras pessoas muda a natureza da ameaça. O escritor percebe que discutir literatura na porta de casa já não basta. Ele precisa descobrir quem é aquele homem, proteger quem está próximo e garantir que a edição antiga da revista chegue às suas mãos.
É uma boa ideia para um suspense porque transforma algo aparentemente banal, uma acusação de plágio, em uma corrida contra o tempo bastante pessoal. Mort sabe que existe uma prova capaz de desmontar a história de Shooter. O problema é conseguir colocá-la sobre a mesa enquanto sua vida perde estabilidade.
Uma prova difícil de conseguir
Mort recorre a Ken Karsch (Charles S. Dutton), investigador particular contratado para ajudá-lo a lidar com Shooter. A decisão oferece algum alívio, principalmente porque outra pessoa passa a procurar sinais concretos da presença daquele desconhecido. Ainda assim, o isolamento continua favorecendo o perseguidor. Shooter pode aparecer, desaparecer e deixar Mort tentando convencer os demais de que existe uma ameaça real.
A antiga revista assume importância crescente. Mort sabe que publicou o conto antes e depende daquele exemplar para comprovar sua versão. A busca obriga o escritor a manter contato com pessoas e lugares ligados ao período anterior ao divórcio, exatamente quando gostaria de permanecer escondido. Cada dificuldade em recuperar a publicação oferece mais tempo a Shooter.
David Koepp mantém a câmera próxima de Mort durante boa parte dessa investigação, deixando o público preso ao que o personagem sabe. A escolha combina com a história porque Mort também começa a desconfiar da própria capacidade de administrar tudo o que ocorre ao redor. Ele dorme demais, bebe, escreve pouco e frequentemente parece alguns segundos atrasado diante dos acontecimentos. Depp sustenta bem esse homem abatido, capaz de responder com ironia mesmo quando sua situação já perdeu qualquer graça.
O passado volta para Mort
Amy permanece importante porque o divórcio nunca fica completamente separado da perseguição. Mort ainda guarda raiva da traição e demonstra dificuldade para aceitar a nova configuração da vida da ex-mulher. Ted, por sua vez, ocupa um espaço que Mort considera ter sido seu. O ressentimento interfere nas conversas e torna qualquer encontro entre eles mais desgastante.
Shooter conhece detalhes suficientes para transformar essa fragilidade pessoal em pressão. A acusação de plágio mexe justamente com aquilo que Mort ainda preserva, sua identidade de escritor. Ele perdeu o casamento, deixou a antiga casa e enfrenta um período de pouca produção. Ser chamado de ladrão de histórias atinge o único terreno em que ainda acredita possuir alguma autoridade.
“A Janela Secreta” cresce quando aproxima essas duas crises. O conto disputado não fica separado do casamento terminado. Os documentos da separação, a revista desaparecida, a casa solitária e as visitas de Shooter passam a disputar a atenção de Mort. Ele tenta resolver um problema enquanto outro ganha espaço, o que mantém a sensação de que sua vida está escapando pelas bordas.
Johnny Depp segura o mistério
Johnny Depp interpreta Mort de maneira mais contida do que alguns de seus personagens mais extravagantes daquele período. O cabelo desgrenhado, o roupão e os cochilos ajudam a compor um escritor que parece ter perdido o horário da própria vida. Há pequenas reações irônicas e uma preguiça quase simpática, embora a situação se torne progressivamente mais pesada.
Turturro trabalha no sentido oposto. Shooter é rígido, paciente e desconfortavelmente seguro de suas acusações. O contraste entre os dois sustenta boa parte do suspense. Mort precisa procurar revistas, testemunhas e proteção. Shooter aparentemente precisa apenas aparecer de novo.
Essa diferença também permite que “A Janela Secreta” mantenha sua história simples sem ficar pobre. O centro continua sendo uma pergunta fácil de acompanhar. Quem escreveu o conto primeiro? Mort acredita possuir a resposta impressa em uma revista antiga. Shooter afirma que foi roubado. Enquanto essa prova não chega, a discussão sai das páginas e invade a casa, o casamento desfeito e a segurança das pessoas ao redor do escritor. É aí que um caso de plágio deixa de ser assunto de escritório e passa a custar muito mais do que uma assinatura numa história.

